OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
10ª Vinheta
ANTHONY DE SA
Anthony de Sa (1966-) é um escritor
canadiano, originário de uma família portuguesa, que nasceu e cresceu no seio
da nossa comunidade (a “Little Portugal”) em Toronto. Na última década, publicou
dois romances (“Kicking the Sky” e “Children of the Moon”) e uma colectânea de “stories”
interligadas (“Barnacle Love”). Aliás, este último livro, o primeiro do autor,
foi o que obteve maior sucesso crítico, pois ficou, aquando da sua publicação, na
“shortlist” do Scotiabank Giller Prize, um dos mais prestigiados prémios
literários do Canadá.
Como é evidente, não é por acaso que
toda a produção literária de Anthony de Sa gira em redor de temas, directa ou
indirectamente, relacionados com Portugal. Assim, em “Barnacle Love”,
debruça-se sobre as motivações que levaram a emigrar para o Canadá a população
açoriana, em particular, a necessidade de procurar uma outra vida sem os
constrangimentos económicos e sociais das ilhas, sobre as dificuldades de integração
num meio social totalmente díspar, e, por último, sobre a sua relação com os
filhos, uma segunda geração que tem uma visão do mundo bem distinta e, muitas
vezes, conflituosa em relação à dos pais.
“Kicking the Sky”, o seu primeiro
romance, também passado na comunidade imigrante portuguesa de Toronto,
desenrola-se a partir de um facto real: a violação e o assassinato, nos finais
da década de setenta, de um jovem engraxador de origem portuguesa na Baixa da
cidade. Como é natural, este caso abalou profundamente a comunidade imigrante,
porque, de uma forma brutal, se viu obrigada a confrontar os seus sonhos e a
expectativa de uma melhor vida, que a motivaram a emigrar, e a realidade bem
crua em que de facto vivia. É esse confronto que vive o narrador do romance (o
mesmo António Rebelo, da segunda parte de “Barnacle Love”), um jovem que se
habituou a “fugir” dos pais, correndo de bicicleta, com os amigos, pelas ruelas
e pátios de Toronto, e que descobre, a meio do percurso formativo da sua
adolescência, que há um “mundo” adulto que ele apenas pressente e que se pode
tornar profundamente perigoso.
Mas, provavelmente, o romance que justifique
maior destaque seja o último, “Children of the Moon”, nem que seja porque o
autor decidiu “descontextualizá-lo” da comunidade portuguesa de Toronto.
“Inspirando-se em histórias familiares”, o romance situa-se em Moçambique e
processa-se no quadro das guerras de libertação e civil que, durante algumas
décadas, assolou aquele país. A caracterização dos narradores permite perspectivar
alguns dos temas deste romance: Pó, a albina, de origem massai, que, nascida na
Tanzânia, se vê obrigada a fugir do ostracismo e da “maldição” que lhe lançam
por causa da sua cor de pele, até se encontrar “acampada” num hotel da Beira à
espera da morte; Serafim, o jornalista brasileiro, corroído por um passado
culpabilizador, que está a realizar uma investigação sobre a segregação do
“albinismo” em África e procura recolher o testemunho de vida de Pó; e
Ezequiel, o moçambicano, filho de pai português e mãe maconde, que, repudiado
por ambas as comunidades, se vê mergulhado, desde jovem adolescente, na
brutalidade da guerra, entre guerrilheiros e militares, “salvo” apenas pela sua
intensa paixão por Pó, mas que presentemente se encontra em Toronto, a sofrer
de demência e de stress pós-traumático, resultantes da sua experiência de
guerra. No essencial, tenta-se perceber como o facto de ser marginalizado,
mesmo que seja por motivos díspares, pode intensificar as relações entre as
pessoas na procura de sobreviver a esse mal-estar e de ganhar um novo sentido
para a vida.
O primeiro livro de Anthony de Sa,
“Barnacle Love”, foi publicado em Portugal, com o título “Terra Nova”, pelas
Publicações Dom Quixote, numa tradução de Maria Eduarda Colares, revista por
Maria João Freire de Andrade. Estranhamente (ou talvez não…), apareceu subtítulado
de “Romance”.
Março de 2020.
Foto do autor de Matthew
Sherwood


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