OUTRAS
LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
9ª Vinheta
JONATHAN RABAN
Jonathan Raban (1942-) é um escritor
inglês, que vive, desde a década de noventa, nos Estados Unidos, e que publicou
uma vasta obra, nos domínios do romance, do ensaio e da chamada “literatura de
viagens”. Aliás, tem sido neste último género que se tem destacado, tendo
escrito alguns livros que já são hoje considerados como clássicos. Neste
domínio também, obteve vários prémios, devendo referir-se o National Book
Critics Circle Award para Não Ficção (“Bad Land”) e, por duas vezes, o extinto
Thomas Cook Travel Book Award (com “Old Glory” e “Hunting Mister Heartbreak”).
A sua obra é habitualmente considerada
como fundamental na transformação da “literatura de viagens”, pois abriu-a a
novas soluções narrativas, em particular ao conciliar a descrição da paisagem e
a observação das pessoas que a habitam, com a sua vivência pessoal e uma
constante reflexão sobre a circunstância que está a viver, e ainda com uma
análise (sociológica, histórica, etc.) do contexto geográfico onde decidiu viajar.
De facto, desde o primeiro livro que deu notoriedade a Jonathan Raban, “Soft
City”, publicado em 1974, (que não pode ser considerado um verdadeiro livro de
viagens, já que é, no essencial, uma reflexão, de cariz mais sociológico, sobre
certas “tribos” urbanas de Londres e sobre a relação entre o homem e a cidade),
que já estão presentes todas as componentes que o autor vai desenvolver ao
longo da sua obra. Um outro aspecto comum aos seus livros de viagens, e que hoje
também já é considerado um modelo clássico neste género, é que, na generalidade
dos casos, Jonathan Raban parte de uma “inspiração” literária que o “guia” no
percurso a efetuar e sobre o qual irá escrever.
Mesmo tendo escrito e viajado por
outras regiões (é o caso de “Arabia Through the Looking Glass” (1979), através
do Médio Oriente, ou “Coasting” (1986), em que relata a sua viagem de veleiro
em redor da costa da Grã-Bretanha), os livros de viagens mais importantes de
Jonathan Raban centram-se no território dos Estados Unidos e na sua população.
É o caso de “Old Glory: An American Voyage” (1981), em que relata a sua descida
do Mississippi, “Hunting Mister Heartbreak”: A Discovery of America” (1990), em
que prossegue a rota dos “pioneiros”, desde os portos europeus, através do
continente norte-americano, até à costa do Pacifico, “Bad Land: An American
Romance” (1996), onde narra os seus contactos e as vivências de várias gerações
de camponeses das regiões despovoadas e isoladas de Montana e do Dakota do Norte,
ou ainda “Passage to Juneau: A Sea and Its Meanings” (1999), em que descreve a
sua viagem de barco desde Seattle a Juneau.
Mas, no conjunto da sua obra, talvez
mereça um maior destaque o livro “Bad Land: An American Romance”. Utilizando
documentos históricos, notícias de jornais, memórias, histórias de vida, em
particular de pessoas que foi encontrando, ao longo de dois anos em que deambulou
por Montana e pelo Dakota do Norte, Jonathan Raban vai não só descrevendo todo
o processo de colonização desta região (que se iniciou no princípio do século
XX e se prolongou até aos anos trinta), mas também como o governo dos Estados
Unidos (através do Homestead Act), ao satisfazer
os interesses da ferroviária Milhaukee Road (que necessitava, para s sua
rentabilidade, de povoar aquelas regiões), vai ludibriando e atraindo os
colonos que, convencidos, por um optimismo ingénuo, de que estavam a ser
agentes activos de um grande projecto nacional, esgotam todas as suas
economias, deslocando-se para a região e adquirindo algumas parcelas de terra.
Mas a própria natureza e a diminuta dimensão
das parcelas distribuídas vão destruindo as ilusões destes colonos: rapidamente
percebem que foram arrastados para a miséria e que o seu sonho de
independência, assente na ancestral convicção de que a posse da terra é o seu fundamental
suporte, foi um imenso logro. Perante esta situação, só tiveram duas
alternativas: desistir do seu projeto, migrando novamente para o Estado de
Washington, em particular para Seattle, à procura do sustento para si e para as
suas famílias, ou ficar, adquirindo as terras dos que as abandonaram,
procurando subsistir, resignados a uma vida medíocre, e procurando soluções
alternativas ao cultivo da terra, como, por exemplo, um fictício turismo. A
paisagem que fica, e que Jonathan Raban literariamente retrata, é apenas o
“desperdício” desse sonho colectivo: casas abandonadas, fazendas despovoadas,
estradas que não vão a lado nenhum, estacas e arame farpado a delimitar propriedades
que já ninguém explora nem deseja. Uma “bad land”.
A obra de Jonathan Raban está
amplamente traduzida para francês e alemão, assim como existem alguns títulos
seus em espanhol e em italiano.
“Bad Land” foi traduzido e editado
para português, na década de noventa, com o título de “Terra Madrasta”. A
edição foi da Quetzal Editores e a tradução, de elevada qualidade, de José
Lima. Segundo declarações recentes da editora, a obra “passou completamente
despercebida”.
Março de 2020.
Desconheço a autoria da foto do
escritor.


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