Foto de Adam Rankin
Miriam Toews
Miriam Toews (1964-) nasceu em
Manitoba, um dos Estados canadianos da chamada zona das Grandes Planícies, numa
família menonita. Mesmo que se procure fugir aos excessos de biografismo, estes
dois factos vão revelar-se determinantes na obra narrativa desta autora, que é
composta, até hoje, por sete romances e um livro com componentes biográficas
(sobre o destino e a morte do seu pai).
Manitoba é um Estado com uma baixa
densidade demográfica, em particular na sua região Norte, e um clima bastante
agreste, bem semelhante ao de Saskatchewan, repleto de lagos e de florestas coníferas.
Simplesmente, o facto de ter uma costa aberta para a baía de Hudson, ocasiona
que, sendo tão frio como o de Saskatchewan, atingindo habitualmente
no Inverno temperaturas de 20 graus negativos, seja mais húmido; mas,
por outro lado, em consequência de ser uma gigantesca planície, também sofre
influências, através dos Estados Unidos, das correntes do Golfo do México,
atingindo no Verão temperaturas superiores a 30 graus, em particular na região
sul deste Estado, onde faz fronteira com o Dakota do Norte e o Minnesota.
Aliás, esta região, não só é a mais densamente povoada como é a mais rica em
termos agrícolas, sendo, neste aspecto, uma das mais produtivas de todo o
Canadá. Ora, foi aqui que, em meados do séc. XIX, se estabeleceu uma comunidade
de emigrantes menonitas, oriundos da Ucrânia, de que Miriam Toews
descende.
Mesmo considerando que este não é o
local mais adequado para expor detalhadamente a doutrina religiosa dos
menonitas, sempre se recorda que é resultante de uma dissidência no seio do
anabaptismo, e que foi criada no séc. XVI, na Frísia, por Menno Simons. Esta
dissidência, brutalmente perseguida, tanto pelas restantes seitas anabaptistas,
como pelos luteranos, levou os menonitas a dispersar-se por várias regiões do
Leste europeu nos sécs. XVII e XVIII. Sempre em busca de uma liberdade de culto
que lhes era difícil de obter, algumas destas comunidades, já no séc. XIX,
resolveram deslocar-se para o Canadá e para os Estados Unidos, onde se
estabeleceram e prosperam, em particular, através da actividade agrícola e da
criação de gado. Sendo menos resilientes ao progresso técnico e social do que
os amish (que são, por sua vez, uma dissidência dos menonitas), são, contudo,
um grupo bastante conservador e patriarcal, com rigorosas regras
comportamentais, muito opressivo em relação às mulheres, e, por isso, tem
tendência a isolar-se e a fechar-se, em defesa dos seus costumes, excomungando
todos aqueles que afrontem as regras comportamentais estabelecidas. Por último,
é importante referir que algumas destas comunidades menonitas viram-se obrigadas,
por dificuldades de reconhecimento de direitos pretendidos de autonomia por
parte do Estado para a sua prática religiosa e para a suas especificidades
socio-culturais (por exemplo, recusam-se a enviar os filhos para as escolas
públicas e a cumprir o serviço militar), a emigrar de novo para a América
Latina, existindo colónias em quase todos os países desta zona do mundo,
devendo-se destacar, para compreender a obra desta autora, as do México e da
Bolívia.
Um outro aspecto muito relevante para
compreender estas comunidades, e, consequentemente a obra de Miriam Toews, é
que nas suas colónias apenas se fala plautdietsch,
uma língua não escrita que é uma variante do baixo alemão oriental com influências
neerlandesas, fixada no séc. XVII, sendo, nas mais conservadoras e ortodoxas,
interdito, sob pena de excomunhão, que alguém ensine a ler e a escrever outra
língua, em particular às mulheres.
Para concluir, apenas salientar que
existem hoje cerca de um milhão e meio de menonitas em todo o mundo, espalhados
por perto de uma centena de países.
Ora estas informações são fundamentais
para compreender e situar a obra de Miriam Toews, pois a maioria dos seus
romances (com excepção dos dois primeiros, “Summer of My Amazing Luck” e “A Boy
of Good Breeding”, e, mais recentemente, de “The Flying Troutmans”) estão explicitamente
relacionados com a experiência vivida pela autora como membro desta comunidade. Aliás, toda a sua obra, pois os restantes
livros também se situam em contextos sociais muito similares ao das comunidades
menonitas. A própria Miriam Toews, em diversas entrevistas, tem salientado que
ainda hoje se considera uma “menonita secular”, o que revela a ambiguidade do
seu relacionamento com a sua comunidade originária, e que deriva em grande
parte por entender que existem aspectos positivos na sua ética, mas também por
considerar, provavelmente, que é impossível “libertar-se” da formação que esta
comunidade lhe incutiu durante a infância e adolescência.
Na obra desta autora há algumas
constantes que são fáceis de destacar: o contexto social dos protagonistas dos
seus romances é sempre o de pequenas comunidades rurais, extremamente
conservadoras, mesmo fechadas e imperialmente patriarcais; os protagonistas,
quase sempre mulheres, sentem-se, por motivos óbvios, profundamente desadequados
ao meio social envolvente e à sua extrema solidão (ou isolamento). Perante esta
situação, essas mulheres ou anseiam e sonham por uma outra vida, muitas vezes
com desejos fúteis e irrealistas (sabendo, contudo, que, se “fugirem”, serão
excomungadas e perderão qualquer possibilidade de contacto ou apoio da
comunidade de onde saíram), ou se conformam mais ou menos às regras sociais
impostas, arrastando, ao longo da vida, “traumas” destrutivos que afectará a
sua vida emocional e a sua estabilidade psicológica.
Mas esta situação, objectivamente
trágica, é sempre encarada pela autora com um imenso humor, como se o jogo da
vida não passasse de uma colossal farsa. A maior parte destas protagonistas são
adolescentes ou jovens adultos presos entre duas teias, a das convenções da sua
comunidade, que abominam, e a incapacidade de se entender e se ajustar aos
comportamentos da sociedade “exterior”, o que os leva a muitos momentos
absurdos, irrisórios, mas também hilariantes. Por isso, pode dizer-se que os
romances de Miriam Toews são, antes do mais, romances de personagens (passe o
pleonasmo desta expressão). Quer isto dizer que, todas as situações descritas
procuram, antes do mais, explicitar as peculiaridades dos seus comportamentos,
a forma como entendem e reagem às solicitações externas, revelando por essa via
a sua personalidade, isto é, as suas fragilidades e dependências, mas também a
força optimista, quase jubilosa, como reagem às adversidades e à sua falta de
competências para viver. Por isso mesmo, pode afirmar-se que há um constante
“olhar” afectuoso da autora sobre essas mesmas personagens que permite, em
descritos contextos de enorme adversidade, manter com elas uma constante
cumplicidade. Vários comentadores e analistas da obra de Miriam Toews destacam
a importância deste olhar para “suportar” a leitura dos seus romances, pois
consegue, pela ironia e pelo humor, quebrar possíveis excessos melodramáticos.
Outro aspecto constante dos romances
de Miriam Toews é que partem sempre, como a autora assinalou em diversas
entrevistas, de uma “ideia” que, quase por si só, suporta a trama e o fluir da
narrativa. Por outras palavras, não se pressente nas suas obras, a existência
de uma estrutura ou de uma arquitectura prévia, sendo o próprio desenvolvimento
narrativo da referida “ideia” que vai gerando o romance, os seus constantes “flashbacks”
e o “zizaguear” das peripécias descritas.
Este ambiente das comunidades rurais
canadianas espelha-se logo na primeira obra de Miriam Toews, intitulada “Summer
of My Amazing Luck”, e cuja “ideia”, segundo declarações da autora, deriva de
uma reportagem jornalística que realizou. As personagens principais deste
romance são duas “welfare mothers” (expressão que designa mães solteiras que
criam os seus filhos com apoios assistenciais do Estado) que vivem obcecadas em
descobrir quem são os pais dos seus filhos e para onde foram. O romance é
principalmente constituído pelo “retrato” destas personagens, da motivação que
as levou a esta situação de mães de filhos sem pai e do que ambicionavam nos
homens que procuraram, em suma, pelos seus sonhos e devaneios, pelas grotescas
dificuldades financeiras porque passam, que lhes condiciona a existência e as
empurra para uma viagem alucinada em busca de um possível pai das suas crianças
que elas desconhecem o paradeiro. Porém, logo neste primeiro romance, o que se
destaca é o humor da narrativa e a forma afectuosa, sem juízos éticos, com que
encara o modo de viver destas jovens mulheres e o seu quotidiano medíocre.
O segundo romance, “A Boy of Good
Breeding”, parte de uma “ideia” já de si suficientemente pícara: o “mayor” de
uma aldeia “ficcionada”, chamada Algren, no Manitoba, no seu desejo de conhecer
pessoalmente o primeiro-ministro (que prometeu, como sinal de apoio ao
desenvolvimento rural, ir visitar a “cidade mais pequena” do Canadá no Dia nacional),
esforça-se até ao absurdo por manter Algren com a mesma população (1500 pessoas,
o mínimo necessário para manter o estatuto de cidade), pois, para garantir esta
visita, não pode ter nem mais nem menos algum habitante. Compreende-se
facilmente que o romance narra todo um conjunto de peripécias necessárias para
o “mayor” conseguir este desiderato, sempre em tom de sátira, colocando
inúmeras questões sobre o papel dos poderes públicos em controlar a vida
privada dos cidadãos, incluindo os básicos actos de nascer, de morrer ou ainda
de amar. Mas, mesmo neste contexto, e perante a ambição caricata do mayor, ou as
diversas, e aparentemente “disfuncionais”, personagens que vão aparecendo na
trama, a autora abandona esse “olhar” humorado e enternecido, que se torna uma
das suas principais características estilísticas.
Só no terceiro romance, intitulado “A
Complicated Kindness” (que já fui publicado no nosso país com o título
“Estranha Ternura”, traduzido por Vítor Guerreiro e editado pela Ed. Palavra),
Miriam Toews se decide a abordar explicitamente a problemática das comunidades
menonitas. Aqui, tanta a protagonista como as principais personagens
coadjuvantes (com excepção do pai da protagonista, que é um homem, mesmo amando
a sua família, “aprisionado” às convenções estabelecidas pela sua igreja) são
mulheres inconformadas com as regras, por vezes absurdas, impostas pelo
autoritarismo dogmático com que se condiciona os comportamentos pessoais. Não
admira, por isso, que o desejo de todas elas, seja, antes do mais, “fugir” e
procurar os lugares onde os seus sonhos, mesmo fúteis, têm possibilidades de se
concretizar. Mais uma vez, para além do já referido humor, é de realçar a forma
como a autora se aproxima das personagens, aceitando as suas fragilidades, quer
de quem condiciona a existência das pessoas, quer de quem não aceita as regras
impostas.
O quarto romance, intitulado “The
Flying Troutmans”, que segue a tradição do Big Road Trip, não refere
explicitamente a comunidade menonita, mas, tal como os dois primeiros,
percebe-se que a ambiência peculiar desta comunidade está presente. No
essencial, narra o regresso de uma jovem tia à sua terra natal, chamada em
“salvação” de dois sobrinhos adolescentes (um rapaz e uma rapariga), quando a
sua irmã, que tinha sido abandonada pelo marido e pai das crianças, é internada
com uma depressão profunda. Como não quer ficar a cuidar dos sobrinhos, decidi
fazer uma viagem com os dois miúdos pelo interior dos Estados Unidos em busca
do pai que está (mais uma vez) em parte incerta. Esta trama básica serve para elaborar
um retrato destes jovens problemáticos (e da própria tia), numa linguagem bem
coloquial, procurando perceber não só o seu passado, perante uma mãe
disfuncional, histérica e violenta, mas principalmente o seu comportamento e a
forma como reagem às intempéries da vida.
Com “Irma Voth” (que também foi
publicado no nosso país, com um título homónimo ao do original, e que foi
traduzido por Lucília Filipe e editado pela Quetzal), o quinto romance, retoma-se
a ambiência menonita, mas com uma ligeira inflexão temática na obra desta
autora. Segundo declarações de Miriam Toews, a “ideia” deste romance nasceu do
convite do realizador mexicano Carlos Reygadas que, depois de ler “A
Complicated Kindness” e de ter visto a sua foto na contracapa do romance,
decidiu convidá-la para actriz de um filme que pretendia realizar sobre uma colónia
menonita do seu país. O filme, realizado em 2007, intitulou-se “Silent Light”,
e obteve o reconhecimento da crítica, pois ganhou o Prémio do Júri do Festival
de Cannes, representou o México nas candidaturas os Óscares, e a própria autora,
que nunca tinha sido actriz, obteve uma nomeação para melhor actriz nos Ariel
Awards da Academia Mexicana de Cinema.
O romance narra a história de uma
jovem menonita, Irma Voth, que, após ter “fugido” para casar com um mexicano
não-menonita, é “expulsa” da sua colónia e vive na sua periferia, numa pequena quinta,
em Chihuahua, no México. Quando o seu marido a abandona, fica numa situação
desesperada, pois a sua comunidade mantem a recusa de a aceitar e ela
encontra-se completamente impreparada para se integrar no mundo exterior. É
neste quadro de impasse que, entretanto, aparece uma equipa de cinema mexicana
que pretende realizar um filme sobre a colónia de onde ela é originária e que a
resolve contratar para funcionar como intérprete (recorde-se que estas
comunidades falam apenas plautdietsch) e para simples trabalhos domésticos. Esta
situação vai permitir contextualizar esta personagem no conflito com uma
realidade “exterior” com comportamentos socioculturais radicalmente distintos e
perceber como se irá processar a sua adaptação a essa realidade.
“All My
Puny Sorrows”, o seu sexto romance, segundo declarações da autora, foi motivado
pelo suicídio da sua irmã em 2010. A narradora, filha de uma família menonita,
vai descrevendo a sua relação com uma irmã mais velha, uma pianista talentosa e
reconhecida, casada, possuindo tudo para ser feliz, mas que deseja morrer; pelo
contrário, a narradora apresenta-se como uma escritora falhada, com várias
relações fiascadas e criando vários filhos de pais ausentes. A sua relação
sempre foi conflituosa, mas, quando recebe a notícia de que a sua irmã passou
por uma mais tentativa de suicídio, decide tudo fazer para que a ela volte a
ter gosto em viver. “All My Puny Sorrows” é uma obra profundamente trágica, mas
que a autora, mais uma vez, procura esquivar-se a um sentimentalismo fácil,
através do humor e de uma manifesta afirmação da alegria de viver.
Por
último, “Women Talking”. Este romance
é, segundo a autora, uma “resposta ficcional” a um facto real: em Manitoba, na
Bolívia, numa colonia menonita, entre os anos de 2005 a 2009, mais de uma
centena de mulheres foi violada sistematicamente, com idades compreendidas
entre os 3 anos e os 65. No dia seguinte à noite da violação, as mulheres
encontravam-se todas na mesma situação: acordavam de manhã, confusas, sem se
lembrar nada do que se passara, mas com vestígios de esperma, doridas e com
diversas equimoses. Quando se queixavam, a resposta da sociedade patriarcal,
dada pelos sacerdotes e orientadores espirituais, era sempre mais ou menos semelhante:
tinham sido possuídas por “demónios” ou o que narravam era resultante de mentes
perturbadas, histéricas, que, em consequência do seu desejo em pecar, tinham
inventado os factos que descreviam. Só que, acidentalmente, foram descobertos
dois homens que, de um modo furtivo, tentavam entrar numa casa alheia. E eles
próprios confessaram que integravam um bando de homens que, por sistema, perpetrava
as referidas violações, usando um spray anestésico que entorpecia as vítimas.
Em tribunal, já em 2011, foi comprovado que oito homens da referida comunidade
menonita tinham repetidamente estuprado 130 mulheres e foram condenados. Depois,
tudo regressou ao seu dia a dia habitual e continuou como dantes.
O
romance de Miriam Toews inicia-se a partir destes factos, isto é, centra-se no
“depois” dos acontecimentos acima descritos. E então “encena” uma situação em
que oito mulheres, vitimas das referidas violações, resolvem reunir-se
secretamente, durante uma semana, para discutir o que fazer, aproveitando-se do
facto de os homens da comunidade se terem deslocado a uma cidade do exterior,
procurando obter meios financeiros para caucionar e libertar os acusados. Como
não sabem ler nem escrever (recordo que o plautdietsch é uma língua não escrita), pedem a um homem da comunidade (que será o narrador
do romance), com um estatuto peculiar, pois já tinha sido excomungado, e
posteriormente perdoado, tendo, entretanto, aprendido a escrever, que seja ele
a registar os depoimentos e as decisões que as mulheres irão tomar. Só que,
como se pode calcular, dada a situação particularmente condicionante destas
mulheres, as decisões não vão ser fáceis nem lineares. O romance é, por
conseguinte, constituído por estes depoimentos, a forma como cada uma vai
reagir ao abuso que foi alvo e como, a partir de agora, se irá posicionar na
comunidade, em particular perante os homens, sabendo que alguns deles são seus
maridos e filhos.
Para concluir, creio que se torna bem
claro que existe, na obra de Miriam Toews, uma componente catártica, sem nunca
a autora ceder à facilidade da autoficção. Pelo contrário, há em todos os
romances um elevado nível ficcional; por isso mesmo, destacam-se pelo fascínio
que criam as personagens construídas por Miriam Toews (tendo, contudo, uma
objectiva similitude de romance para romance), a forma como estas são
integradas e “respondem” às distintas situações de quotidiano que, sendo banais
e comuns, podem revelar-se também pícaras, e principalmente um estilo que
consegue conciliar humor, fluidez narrativa e uma atitude cúmplice com as
fragilidades da condição humana.
Lisboa, Agosto de 2019





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