A LÁPIDE DO MEU
AVÔ
Por vezes, há um
pequeno gesto de um filho, ou uma situação que se vive nas salas do dia a dia,
ou um simples objeto que alguém nos traz e, num lampejo, a memória, como se
fosse uma fiada de lenços atados, saída da cartola de um ilusionista, leva-nos
a desfilar situações há muito esquecidas. E sentimos a necessidade de registar
essa ordem construída pela memória e um impulso, quase ético, de tornar público
o que o tempo nos colocou no palco da vida.
Quando tinha uns
vinte anos, a minha mãe suplicou-me para que tomasse parte numa cerimónia: o
descerramento de uma lápide na casa onde o meu avô tinha vivido numa aldeia do
interior do país.
Já na altura era
avesso a este tipo de cerimónias e daí a súplica dela.
Mas, neste caso,
abri uma excepção e acedi. Havia razões para o fazer (para além, obviamente, do
pedido da minha mãe).
Eu era o neto
único do meu avô Adelino e esta cerimónia tinha sido organizada pelos moradores
mais velhos da aldeia.
O meu avô era,
nos anos vinte e trinta do século passado, a única pessoa que sabia ler e
escrever na aldeia. E fora ele que ensinara as primeiras letras aos vizinhos
(na aldeia, nem tasca havia, quanto mais escola…). Passados uns quarenta anos,
os moradores, reconhecidos com o seu gesto, decidiram colocar a referida lápide
na parede frontal da sua casa.
O meu avô
Adelino era para mim apenas algumas fotos de formato oval no fundo das gavetas
da casa dos meus pais, entre papéis avulsos e mais fotografias. E certas
histórias que a minha mãe contava.
Uma delas era
que ele tinha morrido por causa de traumatismos resultantes de uma luta de
varapau que tivera com um rival de uma aldeia próxima. Ainda nos anos trinta. E
que fora assim que a minha mãe ficara órfã com seis ou sete anos.
O sustento da minha
avó brotava de uma pequena horta, em socalcos, onde semeava algumas couves e
outros legumes, batatas e milho. E um ou dois porcos e meia dúzia de cabras.
Tudo criado no curral que ficava debaixo da habitação. Ah, e claro, uma
capoeira, com algumas galinhas e coelhos, ao lado da entrada, num pátio
interior. Mas dinheiro não havia.
A minha avó
vivia paredes meias com uma irmã e outro irmão. “Paredes meias” é a expressão
certa, pois passava-se por uma porta interior, atravessando um tabique, da casa
dela para aquela onde vivia os meus tios.
O irmão era deficiente
mental profundo (“o doido de nascença”, como era conhecido na aldeia). Nem
sabia falar, manifestando-se apenas por esgares de satisfação ou urros, quando
sentia dores ou se magoava. Vestia uma espécie de bata de sarja, abotoada à
frente, porque “obrava” onde estava e quando sentia necessidade. Dentro da sua
perturbação, era um homem sereno: abria-se sempre num riso largo, satisfeito,
quando reconhecia alguém e nunca tivera uma reação violenta contra pessoas ou
animais. Era-lhe conhecida uma única obsessão: retirar as pedras das calçadas
para as bermas, pois aleijavam-lhe os pés descalços quando levava à cabeça
gigantescos fardos de ervedeiros para as cabras ou cestas cheias de legumes.
Era o “animal de carga” da família.
Quando era
miúdo, impressionava-me o ritual de todas as férias: o meu pai, com tesoura e
navalha, cortava, à porta de casa, a barba e o cabelo de vários meses ao meu
tio. Ele sentava-se muito direito à espera que o meu pai terminasse e, quando
este lhe chegava o espelho ao rosto, depois de um momento de espanto, explodia
numa enorme gargalhada, ao reconhecer a sua cabeça escanhoada e de cabelo curto.
As duas irmãs eram
tão semelhantes como duas lágrimas. Pequenas, pareciam duas colunas de ossos e
pele, secas e muito direitas. E um rosto miúdo, com uma mortalha de rugas,
coroado por uma película de cabelo negro, preso em carrapito.
Viviam com a
serena e afetuosa cumplicidade das necessidades de sobrevivência. Ao ponto de
aceitarem partilhar na cama o mesmo homem durante décadas.
Da relação entre
o meu avô e a minha tia, nasceu um rapaz, meio-irmão mais novo da minha mãe.
Foi, portanto,
com a angústia da resignação que, quando o marido morreu, a minha avó pediu a
uma irmã do meu avô que não vivia na aldeia que criasse a minha mãe. Só lá
ficou o seu meio-irmão, pois ainda era criança de berço. E foi assim que ela
saiu da aldeia, onde só voltou depois de casada.
Esse meio-irmão
da minha mãe também não teve grande sorte. Enquanto esteve na aldeia, passou a
infância e a adolescência a pastorar na montanha o rebanho do povo e a lavrar a
terra. Com dezasseis anos, fugiu para a Lisboa, onde um parente lhe arranjou
trabalho como marçano. Aos vinte anos, já na década de cinquenta, quando foi
chamado para a tropa, voltou à aldeia para se despedir da família. Na festa que
fez, ao lançar um foguete, esfacelou uma mão e, passadas pouco mais de vinte e
quatro horas, morreu de tétano: na aldeia não havia médico nem maneira de o
levar a um hospital. Ninguém conseguiu acudir-lhe e morreu dessa forma,
delirando de febre e suplicando ajuda.
Nos inícios da
década de sessenta, os irmãos da minha avó morreram um a seguir ao outro,
ficando ela sozinha a residir na casa. Recusava-se a abandoná-la.
Certo dia,
ligaram da aldeia para Lisboa, a alertar os meus pais de que a minha avó tinha
tresloucado. Parece que não se alimentava nem já sabia como fazer comida. Fomos
de imediato buscá-la e, quando chegámos, constatámos que a minha avó dançava em
casa, vestida apenas por uma saia negra, ao som de nenhuma música.
Lavámo-la e
vestimo-la, preparando-a para a trazer. Mas, mal chegou à porta, gritou de
pânico, agarrando-se a tudo o que podia com as poucas forças que tinha e
correndo, em desvario, pela casa toda.
Depois, exausta,
num choro mudo, agarrou-se à minha mãe a implorar que a deixasse ficar.
Viveu os seus últimos
tempos na casa dos meus pais, em Lisboa, e nunca mais voltou à aldeia. Eu, com a
perfídia típica dos miúdos, divertia-me a judiar a sua senilidade mental.
Recordo-me como a consegui perturbar, dizendo-lhe para olhar para a Lua à
noite, pois andavam lá homens. Sentada, abanando o tronco para a frente e para
trás, começou a rezar o terço com um fervor mais nervoso e, encarando-me de
forma inquisitiva, parou a sua ladainha e disse-me, com uma voz cava, que era muito
mau e que procurava torturá-la com conversas doidas, pois ela bem sabia que era
impossível haver homens na Lua.
Passado algum
tempo, deixou de reconhecer as pessoas e desaprendeu de saber comer. Uma noite,
enquanto dormia, morreu.
Os meus pais, poucos
anos depois, venderam tudo o que tinham na aldeia. Incluindo a casa. E assim
terminou a ligação física da minha família com aquele lugar.
Recordo-me que
foi perante o olhar branco do meu avô na foto da gaveta, que compreendi que,
participar na referida cerimónia, era apenas um breve sinal de “reconhecimento”
da miséria, resignação e sofrimento indescritível que aquela gente passara e
que o rio do tempo estava rapidamente a levar para a foz do esquecimento.
Era só uma
pequena lápide contra o tempo. Mas hoje reconheço que fui bastante ingénuo.
Há uns quatro ou
cinco anos, resolvi regressar a aldeia. Gostava que a minha mulher e os meus
filhos conhecessem onde nascera a minha falecida mãe, que eles não chegaram a
conhecer. Já que não existia mais nenhum elo material, ao menos que ficasse
registado na sua memória o lugar onde nascera a sua avó. Para que esta não
fosse apenas algumas fotos no fundo de uma gaveta.
Fui sabendo
notícias da aldeia e, por isso, a minha expectativa não era grande.
Quando descemos
do carro, na estrada que termina ao cimo da aldeia, reparei logo no abandono. A
maioria das casas tinha ruído, e o mato e as silvas deixaram só um estreito
carreiro no caminho principal. As lajes de xisto, que o formavam, estavam quebradas
e soltas e tornava-se arriscado, para não dizer perigoso, descer pelo que
restava da rua. Reparei na casa do avô, que se mantinha de pé e com as janelas
de madeira nos caixilhos. A não ser um ou outro vidro partido e as grandes
silvas que amarinhavam pela parede frontal, onde estava ainda a lápide, não se
via nenhuma alteração em relação à casa que conhecera. Mas, ao aproximar-me do
pátio interior que, numa parede lateral, dava acesso à porta principal, percebi
que era impossível lá chegar, dado o tufo, mais alto do que um homem, de mato e
silvas que aí se encontrava. Era impossível entrar ou sequer bater à porta.
Não se via viva
alma na aldeia nem se ouvia nenhum ruído, a não ser o silvo da brisa, batendo
nas folhas das árvores, daquela tarde quente de Verão. Por isso, começámos a
descer com cuidado a rua, gritando para um lado e para o outro: “Está aqui
alguém? Está aqui alguém?”.
O abandono e o
isolamento do local assustavam os miúdos e, por isso, caminhávamos, pé ante pé,
receosos do que iriamos encontrar. Porém, alguns pequenos chãos cultivados na
margem da ribeira, que corria no fundo do vale, e que se viam da encosta que
descíamos, davam-nos a certeza de que alguém deveria estar por ali.
Já estávamos
dispostos a desistir, quando ouvimos responder ao nosso alarido.
Encaminhámo-nos para o lado donde tinha vindo o “oi” de resposta e parámos
junto a uma larga entrada que se abria para um amplo pátio interior. Não se via
ninguém. Perguntámos se podíamos entrar e começámos a avançar.
Mas parámos
logo, especados. Principalmente os meus filhos que ficaram lívidos com o que
todos víamos.
A um canto do
pátio, numa banheira de metal, rodeada de ervas e trevos floridos,
encontrava-se umas duas dezenas de gatos mortos, alguns ainda sagrando e outros
meio putrefactos.
Nem conseguíamos
mexer-nos com aquela descoberta sinistra. Ainda nos encontrávamos na mesma
posição, quando apareceu um velhote de mãos encardidas e gretadas de trabalhar
no campo.
Comecei a
conversa como se aquele achado não estivesse ali mesmo ao lado. Contou-me então
que era o único habitante da aldeia e que lá vivia com a mulher e o filho. Que
as outras casas, que se mantinham de pé, eram de gente que vivia em Lisboa ou
tinha emigrado para as Franças e Araganças. Perguntei-lhe pela sua graça e
disse-me o seu nome; mas, de imediato, acrescentou que era conhecido por “o
Americano”, pois fora o único na região que emigrara para a América, onde ainda
tinha vivido uns anos. Perguntou-me se era filho de alguém da terra e disse-lhe
que sim, e logo voltou a interrogar-me se ainda lá tinha casas ou terras.
Respondi-lhe que não e tentei explicar quem era a minha família. O gesto de
abandono da mão e o comentário ao meu esclarecimento (“Ah, pois, “esses” já cá
não têm nada…”) foram bem claros sobre qual o interesse de o Americano.
Mas tentou ser
educado. Pediu-me desculpa pelo seu empenho e contou-me que tinha comprado tudo
o que podia de casas e propriedades ali na aldeia. Inquiri-lhe para quê e disse-me
de imediato que não sabia, mas, depois, acrescentou: “As propriedades valem sempre
alguma coisa…”. De seguida, coçando a cabeça, foi-me dizendo que ia lavrando as
que era capaz e restaurando as casas conforme arranjava dinheiro. Voltei a
perguntar-lhe para quê e respondeu-me que “pode ser que apareça alguém que
queira regressar à aldeia e queira uma casa”. E que, além disso, as conseguia
comprar por tuta e meia.
Continuámos a
conversa com trivialidades, até que, quando íamos já a abandonar o local, lhe
perguntei sobre o que faziam ali aqueles gatos mortos. Disse-me que as pessoas,
quando morreram ou saíram da aldeia, deixaram muitos gatos ao abandono e que
eles fugiram para o mato, procurando sobreviver, e que lá se criaram e reproduziram.
E que se tinham tornado uma verdadeira praga, pilhando as capoeiras e comendo a
criação, entrando em casa e roubando a comida, até quando a mulher a estava a fazer.
Por isso, fora obrigado a rodear a aldeia com armadilhas de caça. E que, quando
por lá passava, e via algum preso e morto, os trazia para ali. Depois, quando a
banheira estava cheia, fazia uma cova funda e enterrava-os.
Quando já
estávamos nas despedidas, deu-me o seu número de telefone, esclarecendo que era
o único que funcionava na aldeia, para a eventualidade de conhecer alguém da
terra que quisesse vender o que lá tinha. Disse-lhe que ficasse descansado, que
assim faria. Mas nunca lhe telefonei e rapidamente perdi o papel onde ele tinha
assente o número.
Quando chegámos
ao cimo da aldeia, olhei para a encosta em frente e recordei-me de um terror noturno,
que tinha em miúdo, quando cá dormia.
O vale é muito
fundo e as encostas da serra muito abruptas. Principalmente a que fica em
frente da aldeia. De noite, com a lamparina apagada, e sozinho no quarto, que
na altura me parecia enorme, via, através do vão da janela, uma enorme parede
de urze, mato e pinheiros, iluminada pelo luar. Nem se vislumbrava uma nesga de
céu. E, numa alucinação, parecia que aquela
parede avançava lentamente de encontro à encosta da aldeia, até que as plantas,
as árvores e a terra entravam pela janela, enterrando-me no fundo dos escombros
da casa.
Ali de cima,
olhando para as casas em ruínas e os caminhos da aldeia, serpenteando pela
encosta abaixo, percebi que aquele pesadelo se tinha cumprido: as plantas
silvestres e o mato da ladeira em frente estavam gradualmente, estação após
estação, a absorver a encosta habitada, atabafando tudo o que deste lado existe.
Este ano, a
caminho da sede de freguesia, passei pelo cruzamento que desce para a aldeia.
Reparei que ainda existia uma tosca tabuleta pintada à mão a indicar a direção.
Mas não me senti com coragem de lá ir.
Na sede da
freguesia, encontrei o presidente da junta na tasca local e perguntei-lhe se
ainda habitava alguém na aldeia.
Disse-me que
sim. O Americano tinha morrido, mas ainda lá ficaram a viúva e o filho. E que,
todos os anos, no mês de Julho, os que saíram para Lisboa ou emigraram para o
exterior, realizavam um almoço no pequeno largo em frente à casa que fora do
meu avô, trazendo mesas, cadeiras, toalhas e vitualhas para a rua. Era a forma
que tinham arranjado de fazer renascer, num ritual, a aldeia…
Ao regressar,
paro novamente na encruzilhada, no alto da serra, a observar mais uma vez
aquela tabuleta. E lembro-me das conversas
que lá longe, a centenas de quilómetros, tenho
com os meus amigos de Lisboa sobre o envelhecimento da população e a
desertificação do interior.
De súbito, sob o
brilho ofuscante do sol de Verão, pareceu-me ver, refletido na tabuleta, o
olhar a preto e branco que a foto do meu avô registou. E avassala-me uma sombria
resignação.
Provavelmente tudo
isto será inevitável, penso. Uma inevitabilidade apocalíptica.
Depois fecho os
olhos, para apagar a hipnose do olhar do meu avô. E reconsidero, menos tenso,
que, mais uma vez, estou a confundir a inevitabilidade da minha própria morte
com a do mundo.
Arranco com o
carro e sigo pela estrada. Para trás deixo um mundo que morre comigo e cujos
valores me esforcei, talvez sem sentido, por transmitir aos meus filhos.
Lisboa, Setembro
de 2016.
José Manuel
Cortês

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