sexta-feira, 30 de agosto de 2019

A LÁPIDE DO MEU AVÔ



A LÁPIDE DO MEU AVÔ

 

Por vezes, há um pequeno gesto de um filho, ou uma situação que se vive nas salas do dia a dia, ou um simples objeto que alguém nos traz e, num lampejo, a memória, como se fosse uma fiada de lenços atados, saída da cartola de um ilusionista, leva-nos a desfilar situações há muito esquecidas. E sentimos a necessidade de registar essa ordem construída pela memória e um impulso, quase ético, de tornar público o que o tempo nos colocou no palco da vida.

Quando tinha uns vinte anos, a minha mãe suplicou-me para que tomasse parte numa cerimónia: o descerramento de uma lápide na casa onde o meu avô tinha vivido numa aldeia do interior do país.

Já na altura era avesso a este tipo de cerimónias e daí a súplica dela.

Mas, neste caso, abri uma excepção e acedi. Havia razões para o fazer (para além, obviamente, do pedido da minha mãe).

Eu era o neto único do meu avô Adelino e esta cerimónia tinha sido organizada pelos moradores mais velhos da aldeia.

O meu avô era, nos anos vinte e trinta do século passado, a única pessoa que sabia ler e escrever na aldeia. E fora ele que ensinara as primeiras letras aos vizinhos (na aldeia, nem tasca havia, quanto mais escola…). Passados uns quarenta anos, os moradores, reconhecidos com o seu gesto, decidiram colocar a referida lápide na parede frontal da sua casa.

O meu avô Adelino era para mim apenas algumas fotos de formato oval no fundo das gavetas da casa dos meus pais, entre papéis avulsos e mais fotografias. E certas histórias que a minha mãe contava.

Uma delas era que ele tinha morrido por causa de traumatismos resultantes de uma luta de varapau que tivera com um rival de uma aldeia próxima. Ainda nos anos trinta. E que fora assim que a minha mãe ficara órfã com seis ou sete anos.

O sustento da minha avó brotava de uma pequena horta, em socalcos, onde semeava algumas couves e outros legumes, batatas e milho. E um ou dois porcos e meia dúzia de cabras. Tudo criado no curral que ficava debaixo da habitação. Ah, e claro, uma capoeira, com algumas galinhas e coelhos, ao lado da entrada, num pátio interior. Mas dinheiro não havia.

A minha avó vivia paredes meias com uma irmã e outro irmão. “Paredes meias” é a expressão certa, pois passava-se por uma porta interior, atravessando um tabique, da casa dela para aquela onde vivia os meus tios.

O irmão era deficiente mental profundo (“o doido de nascença”, como era conhecido na aldeia). Nem sabia falar, manifestando-se apenas por esgares de satisfação ou urros, quando sentia dores ou se magoava. Vestia uma espécie de bata de sarja, abotoada à frente, porque “obrava” onde estava e quando sentia necessidade. Dentro da sua perturbação, era um homem sereno: abria-se sempre num riso largo, satisfeito, quando reconhecia alguém e nunca tivera uma reação violenta contra pessoas ou animais. Era-lhe conhecida uma única obsessão: retirar as pedras das calçadas para as bermas, pois aleijavam-lhe os pés descalços quando levava à cabeça gigantescos fardos de ervedeiros para as cabras ou cestas cheias de legumes. Era o “animal de carga” da família.

Quando era miúdo, impressionava-me o ritual de todas as férias: o meu pai, com tesoura e navalha, cortava, à porta de casa, a barba e o cabelo de vários meses ao meu tio. Ele sentava-se muito direito à espera que o meu pai terminasse e, quando este lhe chegava o espelho ao rosto, depois de um momento de espanto, explodia numa enorme gargalhada, ao reconhecer a sua cabeça escanhoada e de cabelo curto.

As duas irmãs eram tão semelhantes como duas lágrimas. Pequenas, pareciam duas colunas de ossos e pele, secas e muito direitas. E um rosto miúdo, com uma mortalha de rugas, coroado por uma película de cabelo negro, preso em carrapito.

Viviam com a serena e afetuosa cumplicidade das necessidades de sobrevivência. Ao ponto de aceitarem partilhar na cama o mesmo homem durante décadas.

Da relação entre o meu avô e a minha tia, nasceu um rapaz, meio-irmão mais novo da minha mãe.

Foi, portanto, com a angústia da resignação que, quando o marido morreu, a minha avó pediu a uma irmã do meu avô que não vivia na aldeia que criasse a minha mãe. Só lá ficou o seu meio-irmão, pois ainda era criança de berço. E foi assim que ela saiu da aldeia, onde só voltou depois de casada.

Esse meio-irmão da minha mãe também não teve grande sorte. Enquanto esteve na aldeia, passou a infância e a adolescência a pastorar na montanha o rebanho do povo e a lavrar a terra. Com dezasseis anos, fugiu para a Lisboa, onde um parente lhe arranjou trabalho como marçano. Aos vinte anos, já na década de cinquenta, quando foi chamado para a tropa, voltou à aldeia para se despedir da família. Na festa que fez, ao lançar um foguete, esfacelou uma mão e, passadas pouco mais de vinte e quatro horas, morreu de tétano: na aldeia não havia médico nem maneira de o levar a um hospital. Ninguém conseguiu acudir-lhe e morreu dessa forma, delirando de febre e suplicando ajuda.

Nos inícios da década de sessenta, os irmãos da minha avó morreram um a seguir ao outro, ficando ela sozinha a residir na casa. Recusava-se a abandoná-la.

Certo dia, ligaram da aldeia para Lisboa, a alertar os meus pais de que a minha avó tinha tresloucado. Parece que não se alimentava nem já sabia como fazer comida. Fomos de imediato buscá-la e, quando chegámos, constatámos que a minha avó dançava em casa, vestida apenas por uma saia negra, ao som de nenhuma música.

Lavámo-la e vestimo-la, preparando-a para a trazer. Mas, mal chegou à porta, gritou de pânico, agarrando-se a tudo o que podia com as poucas forças que tinha e correndo, em desvario, pela casa toda.

Depois, exausta, num choro mudo, agarrou-se à minha mãe a implorar que a deixasse ficar.

Viveu os seus últimos tempos na casa dos meus pais, em Lisboa, e nunca mais voltou à aldeia. Eu, com a perfídia típica dos miúdos, divertia-me a judiar a sua senilidade mental. Recordo-me como a consegui perturbar, dizendo-lhe para olhar para a Lua à noite, pois andavam lá homens. Sentada, abanando o tronco para a frente e para trás, começou a rezar o terço com um fervor mais nervoso e, encarando-me de forma inquisitiva, parou a sua ladainha e disse-me, com uma voz cava, que era muito mau e que procurava torturá-la com conversas doidas, pois ela bem sabia que era impossível haver homens na Lua.

Passado algum tempo, deixou de reconhecer as pessoas e desaprendeu de saber comer. Uma noite, enquanto dormia, morreu.

Os meus pais, poucos anos depois, venderam tudo o que tinham na aldeia. Incluindo a casa. E assim terminou a ligação física da minha família com aquele lugar.

Recordo-me que foi perante o olhar branco do meu avô na foto da gaveta, que compreendi que, participar na referida cerimónia, era apenas um breve sinal de “reconhecimento” da miséria, resignação e sofrimento indescritível que aquela gente passara e que o rio do tempo estava rapidamente a levar para a foz do esquecimento.

Era só uma pequena lápide contra o tempo. Mas hoje reconheço que fui bastante ingénuo.

Há uns quatro ou cinco anos, resolvi regressar a aldeia. Gostava que a minha mulher e os meus filhos conhecessem onde nascera a minha falecida mãe, que eles não chegaram a conhecer. Já que não existia mais nenhum elo material, ao menos que ficasse registado na sua memória o lugar onde nascera a sua avó. Para que esta não fosse apenas algumas fotos no fundo de uma gaveta.

Fui sabendo notícias da aldeia e, por isso, a minha expectativa não era grande.

Quando descemos do carro, na estrada que termina ao cimo da aldeia, reparei logo no abandono. A maioria das casas tinha ruído, e o mato e as silvas deixaram só um estreito carreiro no caminho principal. As lajes de xisto, que o formavam, estavam quebradas e soltas e tornava-se arriscado, para não dizer perigoso, descer pelo que restava da rua. Reparei na casa do avô, que se mantinha de pé e com as janelas de madeira nos caixilhos. A não ser um ou outro vidro partido e as grandes silvas que amarinhavam pela parede frontal, onde estava ainda a lápide, não se via nenhuma alteração em relação à casa que conhecera. Mas, ao aproximar-me do pátio interior que, numa parede lateral, dava acesso à porta principal, percebi que era impossível lá chegar, dado o tufo, mais alto do que um homem, de mato e silvas que aí se encontrava. Era impossível entrar ou sequer bater à porta.

Não se via viva alma na aldeia nem se ouvia nenhum ruído, a não ser o silvo da brisa, batendo nas folhas das árvores, daquela tarde quente de Verão. Por isso, começámos a descer com cuidado a rua, gritando para um lado e para o outro: “Está aqui alguém? Está aqui alguém?”.

O abandono e o isolamento do local assustavam os miúdos e, por isso, caminhávamos, pé ante pé, receosos do que iriamos encontrar. Porém, alguns pequenos chãos cultivados na margem da ribeira, que corria no fundo do vale, e que se viam da encosta que descíamos, davam-nos a certeza de que alguém deveria estar por ali.

Já estávamos dispostos a desistir, quando ouvimos responder ao nosso alarido. Encaminhámo-nos para o lado donde tinha vindo o “oi” de resposta e parámos junto a uma larga entrada que se abria para um amplo pátio interior. Não se via ninguém. Perguntámos se podíamos entrar e começámos a avançar.

Mas parámos logo, especados. Principalmente os meus filhos que ficaram lívidos com o que todos víamos.

A um canto do pátio, numa banheira de metal, rodeada de ervas e trevos floridos, encontrava-se umas duas dezenas de gatos mortos, alguns ainda sagrando e outros meio putrefactos.

Nem conseguíamos mexer-nos com aquela descoberta sinistra. Ainda nos encontrávamos na mesma posição, quando apareceu um velhote de mãos encardidas e gretadas de trabalhar no campo.

Comecei a conversa como se aquele achado não estivesse ali mesmo ao lado. Contou-me então que era o único habitante da aldeia e que lá vivia com a mulher e o filho. Que as outras casas, que se mantinham de pé, eram de gente que vivia em Lisboa ou tinha emigrado para as Franças e Araganças. Perguntei-lhe pela sua graça e disse-me o seu nome; mas, de imediato, acrescentou que era conhecido por “o Americano”, pois fora o único na região que emigrara para a América, onde ainda tinha vivido uns anos. Perguntou-me se era filho de alguém da terra e disse-lhe que sim, e logo voltou a interrogar-me se ainda lá tinha casas ou terras. Respondi-lhe que não e tentei explicar quem era a minha família. O gesto de abandono da mão e o comentário ao meu esclarecimento (“Ah, pois, “esses” já cá não têm nada…”) foram bem claros sobre qual o interesse de o Americano.

Mas tentou ser educado. Pediu-me desculpa pelo seu empenho e contou-me que tinha comprado tudo o que podia de casas e propriedades ali na aldeia. Inquiri-lhe para quê e disse-me de imediato que não sabia, mas, depois, acrescentou: “As propriedades valem sempre alguma coisa…”. De seguida, coçando a cabeça, foi-me dizendo que ia lavrando as que era capaz e restaurando as casas conforme arranjava dinheiro. Voltei a perguntar-lhe para quê e respondeu-me que “pode ser que apareça alguém que queira regressar à aldeia e queira uma casa”. E que, além disso, as conseguia comprar por tuta e meia.

Continuámos a conversa com trivialidades, até que, quando íamos já a abandonar o local, lhe perguntei sobre o que faziam ali aqueles gatos mortos. Disse-me que as pessoas, quando morreram ou saíram da aldeia, deixaram muitos gatos ao abandono e que eles fugiram para o mato, procurando sobreviver, e que lá se criaram e reproduziram. E que se tinham tornado uma verdadeira praga, pilhando as capoeiras e comendo a criação, entrando em casa e roubando a comida, até quando a mulher a estava a fazer. Por isso, fora obrigado a rodear a aldeia com armadilhas de caça. E que, quando por lá passava, e via algum preso e morto, os trazia para ali. Depois, quando a banheira estava cheia, fazia uma cova funda e enterrava-os.

Quando já estávamos nas despedidas, deu-me o seu número de telefone, esclarecendo que era o único que funcionava na aldeia, para a eventualidade de conhecer alguém da terra que quisesse vender o que lá tinha. Disse-lhe que ficasse descansado, que assim faria. Mas nunca lhe telefonei e rapidamente perdi o papel onde ele tinha assente o número.

Quando chegámos ao cimo da aldeia, olhei para a encosta em frente e recordei-me de um terror noturno, que tinha em miúdo, quando cá dormia.

O vale é muito fundo e as encostas da serra muito abruptas. Principalmente a que fica em frente da aldeia. De noite, com a lamparina apagada, e sozinho no quarto, que na altura me parecia enorme, via, através do vão da janela, uma enorme parede de urze, mato e pinheiros, iluminada pelo luar. Nem se vislumbrava uma nesga de céu. E, numa alucinação, parecia que aquela parede avançava lentamente de encontro à encosta da aldeia, até que as plantas, as árvores e a terra entravam pela janela, enterrando-me no fundo dos escombros da casa.

Ali de cima, olhando para as casas em ruínas e os caminhos da aldeia, serpenteando pela encosta abaixo, percebi que aquele pesadelo se tinha cumprido: as plantas silvestres e o mato da ladeira em frente estavam gradualmente, estação após estação, a absorver a encosta habitada, atabafando tudo o que deste lado existe.

Este ano, a caminho da sede de freguesia, passei pelo cruzamento que desce para a aldeia. Reparei que ainda existia uma tosca tabuleta pintada à mão a indicar a direção. Mas não me senti com coragem de lá ir.

Na sede da freguesia, encontrei o presidente da junta na tasca local e perguntei-lhe se ainda habitava alguém na aldeia.

Disse-me que sim. O Americano tinha morrido, mas ainda lá ficaram a viúva e o filho. E que, todos os anos, no mês de Julho, os que saíram para Lisboa ou emigraram para o exterior, realizavam um almoço no pequeno largo em frente à casa que fora do meu avô, trazendo mesas, cadeiras, toalhas e vitualhas para a rua. Era a forma que tinham arranjado de fazer renascer, num ritual, a aldeia…

Ao regressar, paro novamente na encruzilhada, no alto da serra, a observar mais uma vez aquela tabuleta. E lembro-me das conversas que lá longe, a centenas de quilómetros, tenho com os meus amigos de Lisboa sobre o envelhecimento da população e a desertificação do interior.

De súbito, sob o brilho ofuscante do sol de Verão, pareceu-me ver, refletido na tabuleta, o olhar a preto e branco que a foto do meu avô registou. E avassala-me uma sombria resignação.

Provavelmente tudo isto será inevitável, penso. Uma inevitabilidade apocalíptica.

Depois fecho os olhos, para apagar a hipnose do olhar do meu avô. E reconsidero, menos tenso, que, mais uma vez, estou a confundir a inevitabilidade da minha própria morte com a do mundo.

Arranco com o carro e sigo pela estrada. Para trás deixo um mundo que morre comigo e cujos valores me esforcei, talvez sem sentido, por transmitir aos meus filhos.

 

 

Lisboa, Setembro de 2016.

 

José Manuel Cortês



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