domingo, 1 de setembro de 2019

JAKUCHŌ SETŌCHI

 
 

 
Jakuchō Setōchi ou a sinceridade como força de libertação
 
Há já muitos anos, um escritor, intelectual com forte intervenção cívica na vida portuguesa, respeitado por todos os quadrantes políticos e conhecido pelo seu espírito de abertura e tolerância, encontrou-me na rua e, depois de uma saudação, retirou-me o livro que levava debaixo do braço, folheou-o, e, com um abanar melancólico de ombros, disse: “Ah, estes já ficam muito longe…”
O livro era uma novela de Yasunari Kawabata.
Eu, que até lhe tinha uma grande estima, achei, na minha presunção de juventude, que aquela atitude do meu amigo revelava pouca curiosidade e um excessivo desinteresse por um povo e uma literatura que eu considerava relevantes para a história da humanidade. Como era possível que um homem generoso, culto e inteligente, se recusasse a compreender uma civilização milenar e a desinteressar-se pela sua criação literária?
De facto, só mais tarde, depois de ler mais alguns autores japoneses, percebi que a satisfação daquela minha genuína curiosidade não era tão fácil de concretizar como aqueles meus verdes anos poderiam antever: é evidente que o povo japonês tem (tinha?) uma diversificada simbólica, ritos e comportamentos bem distantes dos da minha cultura e que uma plena compreensão da sua literatura exige mais enquadramento informativo do que em relação a qualquer obra de um autor ocidental, tornando a leitura mais árdua e difícil; mas também é verdade que a descoberta de um universo bem diverso do nosso pode dar origem a um fascínio redobrado à leitura de uma obra literária japonesa. É por isso, e porque acredito que aquilo que aproxima a humanidade é muito mais do que o que a distancia, que continuo a ler obras desta literatura e a encontrar prazer e encantamento em textos que inalam um “perfume” aparentemente exótico, mas que, com o convívio, se percebe que é muito próximo e comum.  
A título de exemplo, assinalo que, ainda recentemente, li uma obra de um autor japonês, não muito distante de nós em termos temporais e que conhecia relativamente bem a cultura ocidental (vivera algum tempo nos Estados Unidos e em França), Nagai Kafū (1879-1959), e da estranheza que senti pela sua quase mitificação do universo da prostituição e a dificuldade em compreender, na sua fundamentação mais profunda, as razões que o levam a ter um “olhar” enternecido (até à comoção) pelas protagonistas desse universo, encarando-as como entidades com um papel acolhedor e materno perante a fragilidade e a impotência existencial dos seus clientes.
Recordei-me daquele incidente com o intelectual português, por causa da escritora Harumi Setōchi (1922-). De facto, provavelmente, não existe ninguém mais distante do meu universo do que esta autora: mulher, japonesa e monge budista (aliás, saliente-se, mudou o seu nome, como é canónico, para Jakuchō Setōchi, depois de tomar votos em 1973). Mas é essa distância, sem dúvida, um dos factores que gera em mim um grande fascínio pela sua obra.
Antes de avançar com alguma informação sobre o que conheço desta obra, creio que se justifica, como forma de enquadramento, salientar certos aspectos do universo editorial e literário contemporâneo japonês.
O primeiro aspecto relaciona-se com a enorme relevância dos “magazines literários” neste universo editorial e literário. Estas revistas, na generalidade de carácter mensal, procuram cativar diversos segmentos de leitores e, por isso mesmo, exigem uma produção literária com características muito peculiares, isto é, em que o autor é obrigado a condicionar a criatividade literária à acessibilidade e à temática, e, no caso da ficção, a uma trama potencialmente sedutora do grande público. Como eram uma fonte de rendimento regular, foram inúmeros os autores, ao longo do séc. XX, que se dedicaram a este tipo de produção narrativa, de cariz mais popular, em complemento de uma actividade literária com uma componente mais exigente em termos de criatividade.
 Por conseguinte, torna-se compreensível a importância que estes “magazines literários” tiveram (e têm) no desenvolvimento das formas narrativas da literatura japonesa (recorde-se, por exemplo, que provavelmente o prémio literário com mais prestigio do Japão, o Akutagawa, concedido semestralmente, é organizado há várias décadas por um destes magazines, o Bungeishunjū). Esta relevância reflecte-se duplamente: primeiro, na importância que têm as peças de pequena dimensão, como o conto e a crónica (ou, em complemento, o folhetim), na evolução das formas narrativas; segundo, a importância de modelos narrativos concebidos para cativar amplos segmentos de população na obra dos mais significativos autores da literatura japonesa contemporânea.
Ora, Harumi Setōchi, escreveu, ao longo da sua vida, sempre para estes “magazines literários” e, por isso mesmo, essa produção narrativa tem uma enorme relevância no conjunto da sua obra.
Um segundo aspecto que gostaria de referir sobre a vida literária japonesa, relaciona-se com a substancial codificação dos modelos narrativos nesta literatura. Neste contexto, destaco, dada a relevância que tem para caracterizar a obra de Harumi Setōchi, aquele que os analistas têm nomeado como “I-Novel” (Watakushi shōsetsu). Este modelo narrativo, que se difundiu somente no período Meiji e com a introdução da estética naturalista no Japão, tem um carácter claramente confessional, onde o autor procura descrever algum evento ou situação, muito pessoal e íntimo, em princípio socialmente negativo e oculto. Percebe-se, por isso, que há alguma similitude entre este modelo narrativo e aquele que, recentemente, alguns teóricos e analistas do fenómeno literário classificam de autoficção no quadro da narrativa ocidental. No entanto, convirá dar alguns esclarecimentos complementares: primeiro, não é obrigatório que exista uma relação directa entre o sujeito narrador e o autor (isto é, o “I-Novel” pode ter um sujeito narrador na terceira pessoa do singular, ou ter um personagem-narrador identificado e distinto do autor ou ainda vários narradores; o que é fundamental é que o leitor tenha capacidade de reconhecer que a trama da obra se relaciona com qualquer acontecimento (ou acontecimentos) que sucederam ao autor. Percebe-se, neste quadro, que um dos parâmetros de valoração destas obras é a sinceridade (parâmetro, na minha opinião, inevitavelmente ambíguo no domínio da produção artística) ou, por outras palavras, como é que a técnica narrativa consegue exprimir em profundidade e tornar explicita essa dimensão pessoal e íntima da vida do autor que a trama descreve. Por último, percebe-se também que a “I-Novel” tem uma dimensão de “roman à clef”, pois é fundamental que o leitor tenha a capacidade de reconhecer na trama narrada um acontecimento da vivência do autor. Como pormenor, só referir que Osamu Dazai é reconhecido como o autor mais prestigiado que se dedicou à produção de “I-Novels”.
Convém este esclarecimento para compreender um pouco a obra de Harumi Setōchi, pois esta autora publicou vários títulos que podem ser classificados como “I-Novel”, mesmo reconhecendo que alguns deles procuram fugir ao modelo canónico.
Ainda antes de avançar para as referências à sua obra, creio que é fundamental (e na perpectiva do “I-Novel”) fazer referência a uma circunstância biográfica da autora, pois ela tornou-se decisiva na formação do seu pensamento e crucial para a compreensão da sua obra.
Harumi Setōchi casou-se, com pouco mais de vinte anos, com um professor de música mais velho do que ela e que foi colocado, no quadro do serviço diplomático, em Pequim. Passado pouco tempo, no entanto, e já depois de ter tido uma filha, apaixonou-se por um aluno do marido e, durante um certo período, viveu um trio amoroso, até que a situação se tornou insustentável, obrigando-a a abandonar marido e filha, a regressar ao Japão, e, mais tarde, a divorciar-se.
Esta experiência amorosa teve um papel determinante na orientação da sua obra futura. Não só a autora se refere a ela, expondo-a de forma corajosa na sua autobiografia, como, de forma directa ou indirecta, está presente, em termos temáticos, em toda a produção narrativa que escreveu e publicou.
Seguindo uma “vocação” que se lhe manifestou desde muito nova (ainda antes de se casar já se tinha formado em Literatura Japonesa), Harumi Setōchi decidiu, depois do divórcio, dedicar-se em exclusivo à literatura.
Começou então a escrever para os referidos “magazines literários”, em particular, histórias orientadas para jovens adolescentes. Foi uma destas histórias, intitulada “Qu Ailing, a girl student” (tradução inglesa do título em japonês), que chamou a atenção para o seu trabalho narrativo, uma vez que obteve um prémio para jovens autores. Mas é uma outra narrativa (“The Pistil”), de cariz diverso, a que obtém maior notoriedade, mas uma notoriedade traumática: esta história de uma jovem mulher, que abandona uma conjugalidade estável e próspera, por uma vida de prostituta de luxo, em consequência da sua forte obsessão sexual, foi considerada obscena e pornográfica, principalmente devido à utilização constante do calão a referenciar os órgãos genitais femininos e um excessivo realismo na descrição do prazer orgástico da mulher. Essa reacção, fortemente crítica, fechou-lhe as portas dos editores e, por isso, durante alguns anos, Harumi Setōchi não conseguiu publicar a sua produção literária.
Viu-se, por isso, obrigada a efectuar uma inflexão na sua carreira literária: começou a escrever biografias romanceadas de figuras femininas marcantes da era Meiji (1867-1912). É o caso de “Tamura Toshiko” (1961), com que obteve um novo prémio literário, e que é a primeira de uma série de várias obras similares (escreveu nesta fase cerca de oito biografias), todas elas com as mesmas características: são todas centradas em mulheres que, em consequência de um comportamento passional intenso e da necessidade de serem manifestamente sinceras consigo próprias, entram em confronto com os padrões normalizados que a sociedade impõe ao comportamento feminino, conseguindo, no entanto, por vezes com sacrifício da sua própria vida, romper com essa teia social asfixiante, garantindo uma liberdade de comportamento às mulheres que, até aí, não existia.
Paralelamente, começou de novo a escrever narrativas (contos e romances), organizadas em duas séries, conforme o nome das personagens centrais femininas (Tomoko e Makiko) e inspiradas notoriamente nas experiências pessoais da autora (“I-Novel”), sobre mulheres vivendo triângulos amorosos (ou objectivamente adúlteras), em que um dos “lados” é quase sempre um homem casado, e sobre os dilemas emocionais, morais e até psicológicos que vivem nessas circunstâncias. A crítica reconhece nessas obras que Harumi Setōchi tem uma assinalável capacidade de análise psicológica; mas, ao mesmo tempo, vai continuando a acusá-la de excesso de erotismo e que as personagens femininas centrais destas narrativas manifestam um  sensualismo demasiado exarcebado. É deste período um dos contos mais famosos da autora, “The End of the Summer”, premiado e traduzido para várias línguas, e que lhe granjeou, em definitivo, o estatuto de escritora importante no quadro da literatura japonesa da segunda metade do séc. XX.
Nos primeiros anos da década de setenta, Harumi Setōchi resolve começar a trabalhar no diário “The Confessions of Lady Nijō” (1306), escrito por uma cortesã do séc. XIV com uma vida amorosa muito atribulada, recriando a sua biografia e efectuando uma versão para japonês moderno deste clássico. Segundo testemunho da própria autora, quando fez cinquenta anos, por influência desta obra, resolveu cortar o cabelo, passando a viver de cabeça rapada, e a entrar para um convento budista como monja, mudando o seu nome para Jakuchō Setōchi. 
Inicia-se então um dos períodos, na perspectiva dos críticos, mais profícuos da autora. De facto, ela própria reconhece, com alguma ambiguidade, que o seu estatuto de monja budista, originando uma certa austeridade de vida, lhe serviu para a afastar da turbulência amorosa em que vivia e, dessa forma, conseguir a serenidade necessária pra se dedicar de um modo mais criativo à sua produção literária. Seja como for, é deste período algumas das obras mais elogiadas de Jakuchō Setōchi, como é o caso de “Mt. Hiei”, considerado hoje como uma das obras-primas no modelo “I-Novel” ou a biografia “Ask The Blossoms”, sobre o poeta Saigyo (a única biografia da autora tendo como personagem central um homem), que ganhou o Tanizaki Prize, ou o segundo volume da sua autobiografia, intitulado “Places”, que obteve o Noma Prize.
Durante a década de noventa, dedicou grande parte do seu tempo à produção de uma versão em japonês contemporâneo do “Genji Monogatari”, que foi publicada com um enorme sucesso de vendas e que lhe deu, em definitivo, o estatuto de “respeitável escritora”, ao ponto de receber, das mãos do Imperador, em 2006, a condecoração da “Ordem da Cultura”. Longe ia o tempo em que era acusada de escritora pornográfica e de feminista radical, provocando a degradação moral das jovens gerações e a destruição da sociedade japonesa tradicional.
Não se julgue, contudo, que Jakuchō Setōchi, hoje, com quase cem anos, repudiou as posições anteriormente defendidas. Sucede apenas que os tempos mudaram e a sociedade japonesa passou a considerar que, nos livros e nas entrevistas que a autora continua a realizar, há uma sabedoria mitigada pela idade que lhe dá uma outra capacidade de entender o caminho andado pela sociedade japonesa e, em particular, pela mulher.
Pode afirmar-se, porém. que as componentes mais relevantes da sua obra estão concluídas, permitindo que a crítica possa já destacar alguns traços fundamentais.
O primeiro aspecto a destacar, é que a autora notoriamente considera que a dimensão erótica e a sensualidade da mulher têm contribuído decisivamente para a sua libertação das cadeias que a sociedade patriarcal lhe tem colocado, contribuindo dessa forma para uma significativa abertura dos costumes e da moral. Neste contexto, a mulher encontra-se muitas vezes no dilema entre responder afirmativamente aos seus impulsos emocionais e afectivos ou acatar os comportamentos convencionais (de esposa e mãe) que habitualmente a sociedade lhe exige. Mas, na perspectiva de Jakuchō Setōchi , este é um falso dilema, pois a mulher, se for “sincera” com as suas emoções, tenderá a segui-las, sob pena, se o não fizer, de se autodestruir; mas, por outro lado, a autora também tem consciência que a correspondência positiva ao que determina a sexualidade e o desejo femininos podem dar origem a significativos condicionamentos individuais, uma vez que a paixão, que a carência sexual em parte provoca, leva a mulher a uma sujeição e, por vezes, a um sofrimento emocional que pode ser muito destrutivo.
É para compreender a ambivalência deste comportamento emocional determinado pela sexualidade que a situação de triângulo amoroso, ou até mesmo do adultério, é importante para Jakuchō Setōchi, pois permite-lhe efectuar, pela evidência das tensões e dos condicionalismos, uma exaustiva análise dos efeitos psicológicos, éticos e filosóficos da sexualidade e do comportamento amoroso feminino.
Segundo os analistas, é no quadro desta capacidade afirmativa e/ou destrutiva das relações amorosas que aparece na obra de Jakuchō Setōchi o espectro da Morte. De facto, essa presença fantasmagórica revela-se também de forma ambivalente: por vezes, parece o final desejado pelo paroxismo da paixão amorosa; por outras, manifesta-se como a sombra destruidora dos amantes que sentem o esgarçar do envolvimento amoroso, mas, paralelamente, são incapazes de por fim ao relacionamento, por comodismo, excesso de sofrimento ou obsessão sexual.
Hoje, há quem considere a obra de Jakuchō Setōchi como uma peça importante para pensar a sexualidade e o desejo femininos e os seus efeitos pessoais e sociais, e, por consequência, uma referência no pensamento feminista mundial. Não sei se a autora se reconhece nessa classificação; mas não há dúvida nenhuma que a sua obra poderá ser importante para perceber a diversidade das implicações na mulher dos seus envolvimentos amorosos.
Por último, referir que os críticos conseguem distinguir duas componentes bem distintas na sua obra e ambas, por razões diversas, entendidas como muito significativas: por um lado, a sua produção narrativa com maiores inovações estéticas e literárias, e que integra as suas narrativas concebidas ou próximas do modelo do “I-Novel” e as suas autobiografias; por outro, na perspectiva relacionada com os efeitos sociais de uma obra literária, a que realizou com objectivos mais populares, em particular as suas biografias de figuras femininas do período Meiji, que se tornaram exemplares pela clareza expositiva e pelo rigor da fundamentação histórica (sendo, por isso, importantes para compreender aquele período), mas principalmente pela adequação estratégica da narrativa em defesa dos valores e dos comportamentos das figuras retratadas.
Termino a assinalar que algumas obras (não muitas) de Jakuchō Setōchi estão traduzidas para inglês, francês e italiano.   
 



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