Jakuchō Setōchi ou a
sinceridade como força de libertação
O livro era uma
novela de Yasunari Kawabata.
Eu, que até lhe tinha
uma grande estima, achei, na minha presunção de juventude, que aquela atitude
do meu amigo revelava pouca curiosidade e um excessivo desinteresse por um povo
e uma literatura que eu considerava relevantes para a história da humanidade.
Como era possível que um homem generoso, culto e inteligente, se recusasse a compreender uma civilização milenar e a
desinteressar-se pela sua criação literária?
De facto, só mais
tarde, depois de ler mais alguns autores japoneses, percebi que a satisfação
daquela minha genuína curiosidade não era tão fácil de concretizar como aqueles
meus verdes anos poderiam antever: é evidente que o povo japonês tem (tinha?)
uma diversificada simbólica, ritos e comportamentos bem distantes dos da minha
cultura e que uma plena compreensão da sua literatura exige mais enquadramento
informativo do que em relação a qualquer obra de um autor ocidental, tornando a
leitura mais árdua e difícil; mas também é verdade que a descoberta de um
universo bem diverso do nosso pode dar origem a um fascínio redobrado à leitura
de uma obra literária japonesa. É por isso, e porque acredito que aquilo que
aproxima a humanidade é muito mais do que o que a distancia, que continuo a ler
obras desta literatura e a encontrar prazer e encantamento em textos que inalam
um “perfume” aparentemente exótico, mas que, com o convívio, se percebe que é
muito próximo e comum.
A título de
exemplo, assinalo que, ainda recentemente, li uma obra de um autor japonês, não
muito distante de nós em termos temporais e que conhecia relativamente bem a
cultura ocidental (vivera algum tempo nos Estados Unidos e em França), Nagai
Kafū (1879-1959), e da estranheza que senti pela sua quase mitificação do
universo da prostituição e a dificuldade em compreender, na sua fundamentação
mais profunda, as razões que o levam a ter um “olhar” enternecido (até à
comoção) pelas protagonistas desse universo, encarando-as como entidades com um
papel acolhedor e materno perante a fragilidade e a impotência existencial dos
seus clientes.
Recordei-me daquele
incidente com o intelectual português, por causa da escritora Harumi Setōchi
(1922-). De facto, provavelmente, não existe ninguém mais distante do meu universo
do que esta autora: mulher, japonesa e monge budista (aliás, saliente-se, mudou
o seu nome, como é canónico, para Jakuchō Setōchi, depois de tomar votos em
1973). Mas é essa distância, sem dúvida, um dos factores que gera em mim um
grande fascínio pela sua obra.
Antes de avançar
com alguma informação sobre o que conheço desta obra, creio que se justifica,
como forma de enquadramento, salientar certos aspectos do universo editorial e literário
contemporâneo japonês.
O primeiro aspecto
relaciona-se com a enorme relevância dos “magazines literários” neste universo
editorial e literário. Estas revistas, na generalidade de carácter mensal, procuram
cativar diversos segmentos de leitores e, por isso mesmo, exigem uma produção
literária com características muito peculiares, isto é, em que o autor é
obrigado a condicionar a criatividade literária à acessibilidade e à temática, e,
no caso da ficção, a uma trama potencialmente sedutora do grande público. Como
eram uma fonte de rendimento regular, foram inúmeros os autores, ao longo do
séc. XX, que se dedicaram a este tipo de produção narrativa, de cariz mais
popular, em complemento de uma actividade literária com uma componente mais
exigente em termos de criatividade.
Por conseguinte, torna-se compreensível a
importância que estes “magazines literários” tiveram (e têm) no desenvolvimento
das formas narrativas da literatura japonesa (recorde-se, por exemplo, que
provavelmente o prémio literário com mais prestigio do Japão, o Akutagawa, concedido
semestralmente, é organizado há várias décadas por um destes magazines, o
Bungeishunjū). Esta relevância reflecte-se duplamente: primeiro, na importância
que têm as peças de pequena dimensão, como o conto e a crónica (ou, em
complemento, o folhetim), na evolução das formas narrativas; segundo, a
importância de modelos narrativos concebidos para cativar amplos segmentos de
população na obra dos mais significativos autores da literatura japonesa
contemporânea.
Ora, Harumi Setōchi,
escreveu, ao longo da sua vida, sempre para estes “magazines literários” e, por
isso mesmo, essa produção narrativa tem uma enorme relevância no conjunto da
sua obra.
Um segundo
aspecto que gostaria de referir sobre a vida literária japonesa, relaciona-se
com a substancial codificação dos modelos narrativos nesta literatura. Neste
contexto, destaco, dada a relevância que tem para caracterizar a obra de Harumi
Setōchi, aquele que os analistas têm nomeado como “I-Novel” (Watakushi
shōsetsu). Este modelo narrativo, que se difundiu somente no período Meiji e
com a introdução da estética naturalista no Japão, tem um carácter claramente
confessional, onde o autor procura descrever algum evento ou situação, muito
pessoal e íntimo, em princípio socialmente negativo e oculto. Percebe-se, por
isso, que há alguma similitude entre este modelo narrativo e aquele que,
recentemente, alguns teóricos e analistas do fenómeno literário classificam de
autoficção no quadro da narrativa ocidental. No entanto, convirá dar alguns
esclarecimentos complementares: primeiro, não é obrigatório que exista uma
relação directa entre o sujeito narrador e o autor (isto é, o “I-Novel” pode
ter um sujeito narrador na terceira pessoa do singular, ou ter um
personagem-narrador identificado e distinto do autor ou ainda vários
narradores; o que é fundamental é que o leitor tenha capacidade de reconhecer
que a trama da obra se relaciona com qualquer acontecimento (ou acontecimentos)
que sucederam ao autor. Percebe-se, neste quadro, que um dos parâmetros de
valoração destas obras é a sinceridade (parâmetro, na minha opinião,
inevitavelmente ambíguo no domínio da produção artística) ou, por outras
palavras, como é que a técnica narrativa consegue exprimir em profundidade e
tornar explicita essa dimensão pessoal e íntima da vida do autor que a trama
descreve. Por último, percebe-se também que a “I-Novel” tem uma dimensão de
“roman à clef”, pois é fundamental que o leitor tenha a capacidade de
reconhecer na trama narrada um acontecimento da vivência do autor. Como pormenor,
só referir que Osamu Dazai é reconhecido como o autor mais prestigiado que se
dedicou à produção de “I-Novels”.
Convém este
esclarecimento para compreender um pouco a obra de Harumi Setōchi, pois esta
autora publicou vários títulos que podem ser classificados como “I-Novel”,
mesmo reconhecendo que alguns deles procuram fugir ao modelo canónico.
Ainda antes de
avançar para as referências à sua obra, creio que é fundamental (e na
perpectiva do “I-Novel”) fazer referência a uma circunstância biográfica da
autora, pois ela tornou-se decisiva na formação do seu pensamento e crucial
para a compreensão da sua obra.
Harumi Setōchi casou-se,
com pouco mais de vinte anos, com um professor de música mais velho do que ela
e que foi colocado, no quadro do serviço diplomático, em Pequim. Passado pouco
tempo, no entanto, e já depois de ter tido uma filha, apaixonou-se por um aluno
do marido e, durante um certo período, viveu um trio amoroso, até que a
situação se tornou insustentável, obrigando-a a abandonar marido e filha, a
regressar ao Japão, e, mais tarde, a divorciar-se.
Esta experiência
amorosa teve um papel determinante na orientação da sua obra futura. Não só a
autora se refere a ela, expondo-a de forma corajosa na sua autobiografia, como,
de forma directa ou indirecta, está presente, em termos temáticos, em toda a
produção narrativa que escreveu e publicou.
Seguindo uma
“vocação” que se lhe manifestou desde muito nova (ainda antes de se casar já se
tinha formado em Literatura Japonesa), Harumi Setōchi decidiu, depois do
divórcio, dedicar-se em exclusivo à literatura.
Começou então a
escrever para os referidos “magazines literários”, em particular, histórias orientadas
para jovens adolescentes. Foi uma destas histórias, intitulada “Qu Ailing, a
girl student” (tradução inglesa do título em japonês), que chamou a atenção
para o seu trabalho narrativo, uma vez que obteve um prémio para jovens
autores. Mas é uma outra narrativa (“The Pistil”), de cariz diverso, a que
obtém maior notoriedade, mas uma notoriedade traumática: esta história de uma
jovem mulher, que abandona uma conjugalidade estável e próspera, por uma vida
de prostituta de luxo, em consequência da sua forte obsessão sexual, foi
considerada obscena e pornográfica, principalmente devido à utilização constante
do calão a referenciar os órgãos genitais femininos e um excessivo realismo na
descrição do prazer orgástico da mulher. Essa reacção, fortemente crítica,
fechou-lhe as portas dos editores e, por isso, durante alguns anos, Harumi Setōchi
não conseguiu publicar a sua produção literária.
Viu-se, por
isso, obrigada a efectuar uma inflexão na sua carreira literária: começou a
escrever biografias romanceadas de figuras femininas marcantes da era Meiji
(1867-1912). É o caso de “Tamura Toshiko” (1961), com que obteve um novo prémio
literário, e que é a primeira de uma série de várias obras similares (escreveu
nesta fase cerca de oito biografias), todas elas com as mesmas características:
são todas centradas em mulheres que, em consequência de um comportamento
passional intenso e da necessidade de serem manifestamente sinceras consigo
próprias, entram em confronto com os padrões normalizados que a sociedade impõe
ao comportamento feminino, conseguindo, no entanto, por vezes com sacrifício da
sua própria vida, romper com essa teia social asfixiante, garantindo uma
liberdade de comportamento às mulheres que, até aí, não existia.
Paralelamente,
começou de novo a escrever narrativas (contos e romances), organizadas em duas
séries, conforme o nome das personagens centrais femininas (Tomoko e Makiko) e inspiradas
notoriamente nas experiências pessoais da autora (“I-Novel”), sobre mulheres
vivendo triângulos amorosos (ou objectivamente adúlteras), em que um dos
“lados” é quase sempre um homem casado, e sobre os dilemas emocionais, morais e
até psicológicos que vivem nessas circunstâncias. A crítica reconhece nessas
obras que Harumi Setōchi tem uma assinalável capacidade de análise psicológica;
mas, ao mesmo tempo, vai continuando a acusá-la de excesso de erotismo e que as
personagens femininas centrais destas narrativas manifestam um sensualismo demasiado exarcebado. É deste
período um dos contos mais famosos da autora, “The End of the Summer”, premiado
e traduzido para várias línguas, e que lhe granjeou, em definitivo, o estatuto
de escritora importante no quadro da literatura japonesa da segunda metade do
séc. XX.
Nos primeiros
anos da década de setenta, Harumi Setōchi resolve começar a trabalhar no diário
“The Confessions of Lady Nijō” (1306), escrito por uma cortesã do séc. XIV com
uma vida amorosa muito atribulada, recriando a sua biografia e efectuando uma
versão para japonês moderno deste clássico. Segundo testemunho da própria
autora, quando fez cinquenta anos, por influência desta obra, resolveu cortar o
cabelo, passando a viver de cabeça rapada, e a entrar para um convento budista
como monja, mudando o seu nome para Jakuchō Setōchi.
Inicia-se então
um dos períodos, na perspectiva dos críticos, mais profícuos da autora. De
facto, ela própria reconhece, com alguma ambiguidade, que o seu estatuto de
monja budista, originando uma certa austeridade de vida, lhe serviu para a afastar
da turbulência amorosa em que vivia e, dessa forma, conseguir a serenidade
necessária pra se dedicar de um modo mais criativo à sua produção literária. Seja
como for, é deste período algumas das obras mais elogiadas de Jakuchō Setōchi, como
é o caso de “Mt. Hiei”, considerado hoje como uma das obras-primas no modelo
“I-Novel” ou a biografia “Ask The Blossoms”, sobre o poeta Saigyo (a única
biografia da autora tendo como personagem central um homem), que ganhou o
Tanizaki Prize, ou o segundo volume da sua autobiografia, intitulado “Places”,
que obteve o Noma Prize.
Durante a década
de noventa, dedicou grande parte do seu tempo à produção de uma versão em
japonês contemporâneo do “Genji Monogatari”, que foi publicada com um enorme
sucesso de vendas e que lhe deu, em definitivo, o estatuto de “respeitável
escritora”, ao ponto de receber, das mãos do Imperador, em 2006, a condecoração
da “Ordem da Cultura”. Longe ia o tempo em que era acusada de escritora
pornográfica e de feminista radical, provocando a degradação moral das jovens
gerações e a destruição da sociedade japonesa tradicional.
Não se julgue,
contudo, que Jakuchō Setōchi, hoje, com quase cem anos, repudiou as posições
anteriormente defendidas. Sucede apenas que os tempos mudaram e a sociedade
japonesa passou a considerar que, nos livros e nas entrevistas que a autora
continua a realizar, há uma sabedoria mitigada pela idade que lhe dá uma outra
capacidade de entender o caminho andado pela sociedade japonesa e, em
particular, pela mulher.
Pode afirmar-se,
porém. que as componentes mais relevantes da sua obra estão concluídas, permitindo
que a crítica possa já destacar alguns traços fundamentais.
O primeiro
aspecto a destacar, é que a autora notoriamente considera que a dimensão
erótica e a sensualidade da mulher têm contribuído decisivamente para a sua
libertação das cadeias que a sociedade patriarcal lhe tem colocado,
contribuindo dessa forma para uma significativa abertura dos costumes e da
moral. Neste contexto, a mulher encontra-se muitas vezes no dilema entre responder
afirmativamente aos seus impulsos emocionais e afectivos ou acatar os
comportamentos convencionais (de esposa e mãe) que habitualmente a sociedade
lhe exige. Mas, na perspectiva de Jakuchō Setōchi , este é um falso dilema,
pois a mulher, se for “sincera” com as suas emoções, tenderá a segui-las, sob
pena, se o não fizer, de se autodestruir; mas, por outro lado, a autora também
tem consciência que a correspondência positiva ao que determina a sexualidade e
o desejo femininos podem dar origem a significativos condicionamentos
individuais, uma vez que a paixão, que a carência sexual em parte provoca, leva
a mulher a uma sujeição e, por vezes, a um sofrimento emocional que pode ser
muito destrutivo.
É para
compreender a ambivalência deste comportamento emocional determinado pela
sexualidade que a situação de triângulo amoroso, ou até mesmo do adultério, é
importante para Jakuchō Setōchi, pois permite-lhe efectuar, pela evidência das
tensões e dos condicionalismos, uma exaustiva análise dos efeitos psicológicos,
éticos e filosóficos da sexualidade e do comportamento amoroso feminino.
Segundo os
analistas, é no quadro desta capacidade afirmativa e/ou destrutiva das relações
amorosas que aparece na obra de Jakuchō Setōchi o espectro da Morte. De facto,
essa presença fantasmagórica revela-se também de forma ambivalente: por vezes,
parece o final desejado pelo paroxismo da paixão amorosa; por outras,
manifesta-se como a sombra destruidora dos amantes que sentem o esgarçar do
envolvimento amoroso, mas, paralelamente, são incapazes de por fim ao
relacionamento, por comodismo, excesso de sofrimento ou obsessão sexual.
Hoje, há quem
considere a obra de Jakuchō Setōchi como uma peça importante para pensar a
sexualidade e o desejo femininos e os seus efeitos pessoais e sociais, e, por
consequência, uma referência no pensamento feminista mundial. Não sei se a
autora se reconhece nessa classificação; mas não há dúvida nenhuma que a sua
obra poderá ser importante para perceber a diversidade das implicações na
mulher dos seus envolvimentos amorosos.
Por último,
referir que os críticos conseguem distinguir duas componentes bem distintas na
sua obra e ambas, por razões diversas, entendidas como muito significativas:
por um lado, a sua produção narrativa com maiores inovações estéticas e
literárias, e que integra as suas narrativas concebidas ou próximas do modelo
do “I-Novel” e as suas autobiografias; por outro, na perspectiva relacionada
com os efeitos sociais de uma obra literária, a que realizou com objectivos
mais populares, em particular as suas biografias de figuras femininas do
período Meiji, que se tornaram exemplares pela clareza expositiva e pelo rigor
da fundamentação histórica (sendo, por isso, importantes para compreender
aquele período), mas principalmente pela adequação estratégica da narrativa em
defesa dos valores e dos comportamentos das figuras retratadas.
Termino a
assinalar que algumas obras (não muitas) de Jakuchō Setōchi estão traduzidas
para inglês, francês e italiano.

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