EM JEITO DE BALANÇO
Desde sempre, o que mais me motivou
para a literatura, foi a descoberta de autores e obras que, perante os meus
olhos, abriam novos universos que comigo e com a minha experiência entravam em
diálogo.
Como é natural, sentia necessidade de
partilhar estas descobertas. Quando era novo, tive a sorte de ter um pequeno
grupo de amigos, tão fascinados pela literatura como eu, com quem as partilhava
(e, claro, também as desilusões que alguns autores e obras em nós criavam).
Hoje, estou certo que uma das motivações, mas não só, que levaram as gerações
antes da minha a manter tertúlias durante anos e anos tinham que ver com esta
necessidade de partilhar estas descobertas.
Um amigo meu, que, na minha opinião e
na de inúmeras pessoas que com ele conviveram, foi um dos intelectuais que mais
contribuiu para a mudança de mentalidade(s) no nosso país (o que fazer com o
apreço e a estima que tenho por ti, Eduardo?), costumava dizer (e creio que
escreveu) que a literatura, mesmo que não tivesse outra utilidade, era um
excelente tema de conversa e que, apenas por isso, já justificava plenamente a
sua existência.
Talvez haja, na opinião deste meu
amigo, uma excessiva diminuta expetativa das potencialidades e do papel que a literatura
deve ter na nossa vida e na nossa sociedade… Mas tenho a certeza que todos nós
já saboreámos situações que confirmam a pertinência da sua afirmação.
Mais tarde, e durante um longo
período da minha vida, tive a sorte de me pagarem para continuar a partilhar,
agora publicamente, essas descobertas literárias. Depois, por vicissitudes
diversas e pena minha, tive de abandonar esta atividade. E, durante uma década,
só em privado (para saturação de familiares e alguns amigos) conseguia
satisfazer esta minha necessidade. E, assim, talvez tenha perdido a mão…e o
lugar.
Mas, diga-se de passagem, se foi principalmente
o prazer da descoberta de universos literários e este gosto de os partilhar que
me motivaram para a literatura, essa paixão não poucas vezes gerou, em meu
redor, dissabores e incompreensões. O que sempre me pareceu estranho.
Recordo que há muitos, muitos anos,
tentei explicar esta minha motivação a uma amiga da altura (e que é hoje uma
historiadora respeitada e, ao mesmo tempo, uma comentadora da vida social e
política portuguesa que, em defesa de uma conceção absurda e infundamentada do
Ocidente, tem assumido posições conservadoras, racistas e xenófobas), se
insurgiu violentamente contra mim (com a frontalidade que sempre fez seu
apanágio), considerando que esta minha paixão me iria transformar num inútil
erudito. Mas também houve e há outras pessoas que, veladamente, foram
insinuando que este meu prazer de partilhar descobertas se trata de um puro ato
de exibicionismo de leituras e conhecimentos.
Nada desses comentários me podia
afetar e, por isso, continuei, desde que dispusesse tempo para isso, a ler, a
descobrir autores e obras e a tentar partilhá-los. Foi esse desejo que me levou
a criar blogs, para onde canalizo o resultado deste desejo de partilha, e me
levou a aproximar-me do facebook e a criar um perfil nesta rede social. Mas não
tenho ilusões: nem uma coisa nem outra me satisfazem completamente; mas têm
pelo menos a vantagem de ajudar-me a não saturar os mais próximos, pois os meus
leitores virtuais têm sempre a possibilidade de passarem à frente (como já
acontecia, como é evidente, quando escrevia em jornais e revistas). Além disso,
sei muito bem que nem toda a gente que anda na web e nas redes sociais se
interessa por literatura (mas também na vida real) e que, mesmo entre estes que
se interessam, poucos há que estejam com disposição de conhecer autores e obras
que não sejam originários da Europa e dos Estados Unidos (e, vá lá, um pouco da
América Latina). Mas fica-me a satisfação (sempre ilusória) de dar gosto ao
dedo…
Aproveito esta circunstância para contar
uma história e dar uma informação que pouca gente sabe. Há cerca de quarenta
anos que comecei a construir uma base de dados com informação sobre autores. Quando
a iniciei, havia uma razão prática: eu necessitava de elementos de informação
para o trabalho de recensão de livros que então fazia e, como era
fundamentalmente sobre autores contemporâneos, tinha, para obter certos dados
fatuais, que procurar entre milhares de jornais, revistas e catálogos (que ia
acumulando em casa), a maior parte estrangeiros, para os conseguir descobrir. De
facto, esta base de dados facilitava-me a vida e poupava-me imenso trabalho e
tempo.
E assim a criei e a fui aumentando,
cada dia com mais um novo autor… Até que apareceu a web e essa informação
tornou-se mais acessível. E a minha base de dados relativamente inútil. Mas
tinha-me ficado o “bichinho” (costumo dizer que a sua construção é o meu tricot
ou crochet…) e, por isso, mesmo depois da web, continuei a “alimentá-la”,
conforme a disponibilidade e os canais de informação, até hoje. Presentemente,
em números redondos, essa base de dados tem cerca de cinquenta mil entradas de
autores de todo o mundo, principalmente do séc. XIX, XX e XXI. Enfim, tornou-se
uma espécie de Wikipédia pessoal.
Agora estou muito contente por nunca
ter desistido de construir essa base de dados. Poderá ser inútil para os
outros; mas, para mim, é cada vez mais uma fonte inesgotável de informação e de
inspiração, pois dá-me pistas sobre
autores e literaturas que, na massa informe de dados que é hoje a web, seria
muito difícil destacar.
É evidente impossível ler tantos
autores (… e obras). Mas é sempre possível descobrir mais alguma informação
sobre eles, para sinalizar alguns, saber mais sobre o seu universo literário, ler-lhes
uma ou mais obras, e, principalmente, convidar (ou alertar) os meus possíveis
leitores para a sua existência. E, por isso, fico satisfeito quando consigo suscitar
a curiosidade, nem que seja de um único leitor, para as referências que aqui faço
sobre um autor ou uma obra.
Tudo isto é um pouco inútil? Talvez.
Para que serve essa partilha e descoberta? Não sei. Mas talvez dê origem a uma
boa conversa, como diria o meu querido amigo Eduardo.
E aqui fica uma última história para
que possam compreender melhor este meu desejo de continuar. Há já uns tempos,
uma ilustre escritora portuguesa, numa cerimónia pública de consagração da sua
carreira, anunciou que iria “abandonar a literatura” (isto é, a produção
literária). Porém, acrescentou, logo de seguida, que, se ela sentia necessidade
de “abandonar a literatura”, tinha a certeza que a “literatura nunca a
abandonaria”, enquanto tivesse saúde para a acolher.
Ora, é precisamente isto que eu sinto
com esta minha paixão pela literatura e por esta necessidade de partilha.

Sem comentários:
Enviar um comentário