segunda-feira, 30 de setembro de 2019

EM JEITO DE BALANÇO

 



EM JEITO DE BALANÇO

 

Desde sempre, o que mais me motivou para a literatura, foi a descoberta de autores e obras que, perante os meus olhos, abriam novos universos que comigo e com a minha experiência entravam em diálogo.

Como é natural, sentia necessidade de partilhar estas descobertas. Quando era novo, tive a sorte de ter um pequeno grupo de amigos, tão fascinados pela literatura como eu, com quem as partilhava (e, claro, também as desilusões que alguns autores e obras em nós criavam). Hoje, estou certo que uma das motivações, mas não só, que levaram as gerações antes da minha a manter tertúlias durante anos e anos tinham que ver com esta necessidade de partilhar estas descobertas.

Um amigo meu, que, na minha opinião e na de inúmeras pessoas que com ele conviveram, foi um dos intelectuais que mais contribuiu para a mudança de mentalidade(s) no nosso país (o que fazer com o apreço e a estima que tenho por ti, Eduardo?), costumava dizer (e creio que escreveu) que a literatura, mesmo que não tivesse outra utilidade, era um excelente tema de conversa e que, apenas por isso, já justificava plenamente a sua existência.

Talvez haja, na opinião deste meu amigo, uma excessiva diminuta expetativa das potencialidades e do papel que a literatura deve ter na nossa vida e na nossa sociedade… Mas tenho a certeza que todos nós já saboreámos situações que confirmam a pertinência da sua afirmação.

Mais tarde, e durante um longo período da minha vida, tive a sorte de me pagarem para continuar a partilhar, agora publicamente, essas descobertas literárias. Depois, por vicissitudes diversas e pena minha, tive de abandonar esta atividade. E, durante uma década, só em privado (para saturação de familiares e alguns amigos) conseguia satisfazer esta minha necessidade. E, assim, talvez tenha perdido a mão…e o lugar.

Mas, diga-se de passagem, se foi principalmente o prazer da descoberta de universos literários e este gosto de os partilhar que me motivaram para a literatura, essa paixão não poucas vezes gerou, em meu redor, dissabores e incompreensões. O que sempre me pareceu estranho.

Recordo que há muitos, muitos anos, tentei explicar esta minha motivação a uma amiga da altura (e que é hoje uma historiadora respeitada e, ao mesmo tempo, uma comentadora da vida social e política portuguesa que, em defesa de uma conceção absurda e infundamentada do Ocidente, tem assumido posições conservadoras, racistas e xenófobas), se insurgiu violentamente contra mim (com a frontalidade que sempre fez seu apanágio), considerando que esta minha paixão me iria transformar num inútil erudito. Mas também houve e há outras pessoas que, veladamente, foram insinuando que este meu prazer de partilhar descobertas se trata de um puro ato de exibicionismo de leituras e conhecimentos.

Nada desses comentários me podia afetar e, por isso, continuei, desde que dispusesse tempo para isso, a ler, a descobrir autores e obras e a tentar partilhá-los. Foi esse desejo que me levou a criar blogs, para onde canalizo o resultado deste desejo de partilha, e me levou a aproximar-me do facebook e a criar um perfil nesta rede social. Mas não tenho ilusões: nem uma coisa nem outra me satisfazem completamente; mas têm pelo menos a vantagem de ajudar-me a não saturar os mais próximos, pois os meus leitores virtuais têm sempre a possibilidade de passarem à frente (como já acontecia, como é evidente, quando escrevia em jornais e revistas). Além disso, sei muito bem que nem toda a gente que anda na web e nas redes sociais se interessa por literatura (mas também na vida real) e que, mesmo entre estes que se interessam, poucos há que estejam com disposição de conhecer autores e obras que não sejam originários da Europa e dos Estados Unidos (e, vá lá, um pouco da América Latina). Mas fica-me a satisfação (sempre ilusória) de dar gosto ao dedo…

Aproveito esta circunstância para contar uma história e dar uma informação que pouca gente sabe. Há cerca de quarenta anos que comecei a construir uma base de dados com informação sobre autores. Quando a iniciei, havia uma razão prática: eu necessitava de elementos de informação para o trabalho de recensão de livros que então fazia e, como era fundamentalmente sobre autores contemporâneos, tinha, para obter certos dados fatuais, que procurar entre milhares de jornais, revistas e catálogos (que ia acumulando em casa), a maior parte estrangeiros, para os conseguir descobrir. De facto, esta base de dados facilitava-me a vida e poupava-me imenso trabalho e tempo.

E assim a criei e a fui aumentando, cada dia com mais um novo autor… Até que apareceu a web e essa informação tornou-se mais acessível. E a minha base de dados relativamente inútil. Mas tinha-me ficado o “bichinho” (costumo dizer que a sua construção é o meu tricot ou crochet…) e, por isso, mesmo depois da web, continuei a “alimentá-la”, conforme a disponibilidade e os canais de informação, até hoje. Presentemente, em números redondos, essa base de dados tem cerca de cinquenta mil entradas de autores de todo o mundo, principalmente do séc. XIX, XX e XXI. Enfim, tornou-se uma espécie de Wikipédia pessoal.

Agora estou muito contente por nunca ter desistido de construir essa base de dados. Poderá ser inútil para os outros; mas, para mim, é cada vez mais uma fonte inesgotável de informação e de inspiração, pois dá-me pistas sobre autores e literaturas que, na massa informe de dados que é hoje a web, seria muito difícil destacar.

É evidente impossível ler tantos autores (… e obras). Mas é sempre possível descobrir mais alguma informação sobre eles, para sinalizar alguns, saber mais sobre o seu universo literário, ler-lhes uma ou mais obras, e, principalmente, convidar (ou alertar) os meus possíveis leitores para a sua existência. E, por isso, fico satisfeito quando consigo suscitar a curiosidade, nem que seja de um único leitor, para as referências que aqui faço sobre um autor ou uma obra.

Tudo isto é um pouco inútil? Talvez. Para que serve essa partilha e descoberta? Não sei. Mas talvez dê origem a uma boa conversa, como diria o meu querido amigo Eduardo.

E aqui fica uma última história para que possam compreender melhor este meu desejo de continuar. Há já uns tempos, uma ilustre escritora portuguesa, numa cerimónia pública de consagração da sua carreira, anunciou que iria “abandonar a literatura” (isto é, a produção literária). Porém, acrescentou, logo de seguida, que, se ela sentia necessidade de “abandonar a literatura”, tinha a certeza que a “literatura nunca a abandonaria”, enquanto tivesse saúde para a acolher.

Ora, é precisamente isto que eu sinto com esta minha paixão pela literatura e por esta necessidade de partilha.      



Sem comentários:

Enviar um comentário