Os Meus Romances de 2019
1º
“White Teeth” de Zadie Smith
(Penguin, 2000). Já aqui
escrevi sobre este romance e por que razão o considero fundamental para
compreender a actual realidade urbana. De facto, não conheço nenhum romance que
analise de uma forma tão abrangente as presentes relações multiculturais e
multi-étnicas das nossas cidades. Além disso, não sei o que mais destacar em “White Teeth”: se a dimensão polifónica
e a conjugação estrutural de todos os fios narrativos, se a ironia com que
encara e descreve essas relações, se o sentido de observação e de captação dos
pormenores que dão vivência a toda a trama, ou ainda a forma como consegue
compreender essas relações sem nenhum juízo ético. De qualquer modo, um
primeiro grande romance de uma escritora, cuja obra posterior só veio confirmar
as suas enormes qualidades. Saliento, por fim, que há uma tradução portuguesa
desta obra, que foi descatalogada. Mas era de toda a justiça literária que se
procurasse efetuar uma nova tradução e edição.
2º “Ferito a morte” de Raffaele La Capria (Mondadori, 2016). Também já
aqui escrevi sobre este romance, publicado pela primeira vez em 1961. Como já aparece
em muitos outros romances da literatura italiana, esta obra é um belíssimo
texto sobre o desabrochar emocional da adolescência, a descoberta das
cumplicidades da amizade e das primeiras paixões, ao mesmo tempo que é um
verdadeiro hino de louvor à cidade de Nápoles. O adjetivo que mais nos aparece
à mente para o classificar é o de “solar”: pelos poentes marítimos, as pescas
subaquáticas sob o brilho dourado do mar, o entardecer sobre os corpos
adormecidos à sombra dos cais palacianos.
3º “L’Énigme du retour” de Dany
Laferrière (Le Livre de Poche, 2009).
Este romance é uma profunda e emotiva reflexão sobre o exílio e a emigração.
Articulando poesia, autobiografia e ensaio, este autor haitiano debruça-se
sobre as feridas abertas no exilado/emigrante, confrontado com mundos
radicalmente distintos que o levam a estar em permanente transito entre
realidades (concretas e imaginárias) e que gera um mal-estar irremediável.
Sobre este romance, contextualizando-o na vida política do Haiti e na
literatura deste país, já publiquei um texto (está em https://transpubl2.blogspot.com/2019/05/dany-laferriere.html) e, para não me repetir, aconselho a
sua leitura para quem pretenda saber mais alguma coisa sobre este autor e esta
obra.
4º “Los Dias Terrenales” de José Revueltas (ALLCA XX/Scipione Cultural,
1997). Talvez se justifique falar um pouco mais desta obra, pois o seu autor é pouco
conhecido no nosso país e seguramente quase desconhecido das gerações de
leitores mais jovens. José Revueltas (1914-1976) foi um escritor mexicano e um
militante comunista muito activo no seu país. Com quinze anos, ingressou no
Partido Comunista do México e poucos meses depois foi logo preso, iniciando
então uma sucessão de prisões políticas que culminou com a prisão em 1968,
quando foi considerado um dos líderes ideológicos do movimento estudantil que
motivou o “Masacre de Tlatelolco”, em que várias centenas de estudantes e
outros civis foram assassinados pelo exército e outras “forças de segurança”
mexicanas. Mas essa coerência das suas posições ideológicas, não lhe retirou,
pelo contrário, a sua independência crítica e, a prova disso, é que, pelo menos
por duas vezes, foi expulso do PCM. Um dos fortes motivos dessas expulsões foi
a sua produção literária, essencialmente constituída por narrativas,
dramaturgia, guionismo e ensaios, iniciada nos princípios dos anos quarenta. “Los Dias Terrenales”, publicado em
1949, foi uma das obras que motivou mais reacções violentas por parte dos
comunistas e da esquerda mexicana em geral, ao ponto de levarem o autor a
retirar a obra do mercado e a desistir de publicar qualquer texto narrativo
durante sete anos. De facto, este romance, passado no seio da militância
comunista, não é um romance militante: é uma obra muito sombria e trágica, mas,
por isso mesmo, de uma clarividência luminosa sobre a condição humana e os seus
limites. No fundo, é um romance sobre a imperfeição dos homens e a convicção de
que a luta sobre os ideais essenciais do comunismo, tais como a igualdade, a
justiça social, o fim da exploração do homem pelo homem e, porque não?, a
liberdade, mesmo que tenha sempre resultados medíocres e funestos, faz parte
integral da condição humana, e que, por isso mesmo, é uma luta sisífica. Em
termos estilísticos, para além de muitas passagens admiráveis, gostaria de
salientar a forma como é descrita, logo nas primeiras páginas do romance, uma
pesca clandestina fluvial, levada a cabo por uma coluna comunista para matar a
fome à população camponesa. E também é de realçar a imagem, através de várias
personagens, que é dada da mulher mexicana, em particular da mulher militante,
nos anos vinte do século passado, feita de miséria, fome e humilhação.
5º “La Bâtarde” de Violette Leduc (Gallimard, 1964). Creio que esta autora
francesa, com excepção de alguns grupos (os movimentos de mulheres e as intelectuais
feministas), é mais citada do que lida actualmente. Mas é pena, por várias
razões. A mais óbvia, é que quando se fala tanto em auto-ficção, não se
assinale que os romances de Violette Leduc são objectivamente auto-ficção
“avant la lettre”. Em seguida, porque esta é autora tem, na maior parte das
suas descrições, um estilo particularmente criativo e inovador (um pormenor
técnico: por vezes, é mesmo genial a forma como utiliza os verbos na construção
das suas imagens). Os seus romances, e este em especial, são corajosos esforços
de autocompreensão, de despojamento “sem filtros” de si, mesmo que, por vezes,
tombe em algum sentimentalismo e autocomiseração. Violette Leduc é, para lá de uma
notável escritora, uma verdadeira “personagem”, dadas as peculiaridades da sua
personalidade, e este facto é evidentemente um dos atractivos das suas obras. Mas,
para além disto, “La Bâtarde” é um
interessantíssimo fresco sobre a vida intelectual parisiense entre as duas
guerras mundiais e expõe um “retrato”, muito interessante e ambíguo, do genial
e malogrado Maurice Sachs, uma das grandes paixões da autora. Por último, duas
notas sobre esta obra e edição. A primeira, é que é raro encontrar um título de
um romance que consiga conter toda a ambiência da obra e, por isso mesmo, seja
fundamental para perceber o “olhar” que Violette Leduc lança sobre si própria.
A segunda, é para assinalar o magnífico prefácio que Simone de Beauvoir lhe
redigiu, pois é exemplar na forma como articula uma postura notoriamente
afectuosa para com a autora e o modo lúcido e inteligente com que analisa esta
obra.

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