quarta-feira, 26 de junho de 2019

M. G. VASSANJI



Foto do autor de Aaron Vincent Elkaim

 
 

M. G. Vassanji

 

M. G. Vassanji (1950-), de origem indiana, nasceu no Quénia, mas a sua família, ainda quando era criança de tenra idade, deslocou-se para a vizinha Tanzânia, onde ele passou o resto da infância e da adolescência. Na década de setenta, vai estudar para os Estados Unidos, onde se forma em física nuclear no M.I.T. e na Universidade da Pensilvânia.

Mas no final dessa década, estabelece-se no Canadá, obtém a nacionalidade canadiana e começa a dedicar-se em exclusivo à literatura e a editar a sua obra. Desde 1989, quando saiu o seu primeiro romance, até hoje, publicou oito romances e duas colectâneas de contos, para além de uma biografia (sobre o autor Mordecai Richler), de um livro de memórias e uma obra sobre as suas impressões de uma viagem que fez à India. No conjunto dos seus romances - sem sombra de dúvida, a componente da sua obra mais relevante - torna-se difícil destacar um título, dado o seu nível global. No entanto, os analistas assinalam, em particular, “The Gunny Sack”, o seu primeiro romance, “The Book of Secrets”, “The In-Between World of Vikram Lall”, “The Assassin’s Song”, “The Magic of Saida” e “Nostalgia”.

Quase toda a sua obra narrativa tem como contexto a comunidade indiana emigrada para a África Oriental, em particular para a Tanzânia. Mas a maior parte das personagens principais e/ou narradores das obras de M. G. Vassanji pertencem a uma segunda geração de migrantes e já se deslocaram para um segundo país, na maioria dos casos, para a um país de língua inglesa e, em particular, para a Inglaterra, o Canadá ou os Estados Unidos. Compreende-se, por isso, porque é que a maioria destes romances percorrem a vida de várias gerações de antepassados da família da personagem principal, na medida em que procuram perceber as motivações destes processos migratórios.

Pode considerar-se que a problemática nuclear da obra deste autor é a de compreender o “peso” que o passado, através da memória individual e colectiva, tem no presente (e no futuro) das pessoas e como é um elemento determinante nas suas opções, seja como factor de atracção, seja como factor que as empurra para uma "fuga” desse passado. A India, o seu modelo social, os seus valores e a sua cultura, está sempre presente nestas personagens como referente a que é impossível escapar.

Mas, para além disso, a obra de M. G. Vassanji efectua uma densa reflexão, através da arquitectura complexa das suas tramas, sobre a forma como o fenómeno migratório (?), no quadro da globalização, actua sobre a vida das pessoas. Nesse sentido, dá um forte realce ao papel da História e, por conseguinte, aos processos socio-políticos do colonialismo e da independência da África Oriental, e de como esses processos condicionaram a própria existência das personagens, uma vez que esta comunidade de origem indiana se encontrava “comprimida” entre a estrutura administrativa do colonizador (que tinha incentivado, por razões de desenvolvimento da exploração colonial, a deslocação desta comunidade para a África Oriental) e a população indígena.

Na própria trama do romance transparece constantemente a ambivalência difícil e complexa, entre o afecto e a tensão, que existe entre esta comunidade indiana, na generalidade com alguma prosperidade económica, e a população africana e de como ela determina a sua existência. Aliás, é essa uma das motivações que a leva a recorrer ao seu passado e às suas raízes culturais como um processo identitário. De facto, essa consciência de qual é o seu lugar no mundo é sentida como uma necessidade quase orgânica para a sua sobrevivência.

Outra problemática que a obra de M. G. Vassanji espelha está relacionada com as dificuldades de integração destas pessoas no país que escolheram (ou para os quais foram, de certo modo, “empurradas”) para viver, dado o enfâse tentacular do seu passado, tanto cultural como familiar. De facto, estas personagens, mesmo quando obtém alguma prosperidade económica e social, continuam a ter dificuldades de diversa ordem nessa integração, uma vez que a visão do mundo que herdaram as leva a “cair” em situações desagregadoras da sua vida pessoal e afectiva nos novos contextos sociais e culturais.

Torna-se bem evidente, por esta síntese, que toda a obra de M. G. Vassanji parte da sua própria experiência pessoal e familiar para a elaboração de amplas e complexas recriações ficcionais.

Também é bem evidente que todas as suas personagens e/ou narradores se encontram “deslocalizados” e num “in-between” (para utilizar um termo que aparece no título de um dos romances de M. G. Vassanji). Mas, mesmo tendo em consideração este seu estatuto, pode-se procurar enquadrar num modelo classificativo a obra deste autor, com base no “pólo” mais determinante na trama do romance. Assim, consegue-se, com facilidade, definir quatro grupos: um primeiro, contextualizado na África Oriental (“The Gunny Sack”, “The Book of Secrets”, “The In-Between World of Vikram Lall”, “The Magic of Saida”); outro, contextualizado nos países para onde foi efectuada a segunda migração, em particular a América (“No New Land”, “Amriika”); um terceiro, situado na própria India (“The Assassin’s Song”); e, por último, exterior a este modelo, o caso de “Nostalgia”.

“Nostalgia”, o seu último romance, é uma distopia passada num futuro indeterminado e numa indefinida urbe de um Estado do hemisfério norte (a Aliança do Atlântico Norte, com fronteiras bem estanques e vigiadas que o separam do resto do Mundo, que nos é apresentado como uma amálgama de subdesenvolvimento e caos), onde os homens conseguiram tornar-se imortais através de meios bio-regenerativos. Simplesmente, a imortalidade entra em conflito com a capacidade de armazenamento (de memória) de um cérebro. Para resolver este conflito, tornou-se possível “comprar” um corpo jovem com uma memória “nova”, donde sejam eliminadas todas as interferências excessivas. Sucede, no entanto, que estes meios bio-regenerativos ainda não estão inteiramente “afinados” e, por vezes, aparecem alguns casos em que os “pacientes” apresentam “fissuras” por onde transparece reminiscências de memórias passadas: essa doença, que se chama Nostalgia, tem que ser tratada de forma a manter esses homens funcionais e felizes, sem questionarem a sua identidade. É esse o trabalho da personagem principal, um médico neuro-fisiologista que é especialista no tratamento desta doença, processando-se toda a trama do romance em redor das relações que estabelece com os doentes e de como estas interferem na sua vida pessoal e na sua mente.

Como se percebe por este básico enquadramento, “Nostalgia” procura fazer uma síntese de alguns tópicos da problemática de M. G. Vassanji: passado, memória e identidade, na sua relação com o quotidiano individual e colectivo, no contexto de um universo onde são cada vez mais acentuadas as discrepâncias entre um primeiro mundo “desenvolvido” e o resto do globo.

 Mesmo utilizando algumas estratégias aparentemente simples (é o caso de “The Gunny Sack” e de “The Book of Secrets”, onde aparece um objecto, vindo do passado, que é necessário decifrar e entender, e a partir do qual se desenrolam todos os acontecimentos), a estrutura narrativa destes romances é complexa (vários presentes narrativos, diferentes narradores, inúmeras personagens secundárias), com constantes “flashbacks” e saltos temporais, gerando uma aparente fragmentação discursiva. No entanto, a clareza da sua prosa, um estilo com uma elevada carga poética, a urdidura das situações narradas e a contextualização histórica bem ajustada dão às obras de M. G. Vassanji um elevado poder de sedução e revelam uma inquestionável capacidade de envolver o leitor.

Por último, apenas assinalar, como forma de transmitir algumas referências e pistas, que existem evidentes “proximidades”, temáticas e de contexto, entre a obra de M. G. Vassanji e a de V. S. Naipaul. Por outro lado, que esta obra vem na linha da de narradores de “questionamento ético” como é o caso de Dostoievski, Conrad, Graham Greene e Philip Roth (autores, aliás, que o próprio M. G. Vassanji reconheceu publicamente a importância para a sua produção literária). Há ainda analistas que consideram que o seu estilo tem similitudes com o de Lawrence Durrell e que, pela complexidade dos enredos destes romances, há também uma difusa influência da obra de W. Somerset Maugham.

 
Lisboa, Junho de 2019.

 





 



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