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Aaron Vincent Elkaim
M. G. Vassanji
M. G. Vassanji (1950-), de origem
indiana, nasceu no Quénia, mas a sua família, ainda quando era criança de tenra
idade, deslocou-se para a vizinha Tanzânia, onde ele passou o resto da infância
e da adolescência. Na década de setenta, vai estudar para os Estados Unidos,
onde se forma em física nuclear no M.I.T. e na Universidade da Pensilvânia.
Mas no final dessa década, estabelece-se
no Canadá, obtém a nacionalidade canadiana e começa a dedicar-se em exclusivo à
literatura e a editar a sua obra. Desde 1989, quando saiu o seu primeiro
romance, até hoje, publicou oito romances e duas colectâneas de contos, para
além de uma biografia (sobre o autor Mordecai Richler), de um livro de memórias
e uma obra sobre as suas impressões de uma viagem que fez à India. No conjunto
dos seus romances - sem sombra de dúvida, a componente da sua obra mais
relevante - torna-se difícil destacar um título, dado o seu nível global. No
entanto, os analistas assinalam, em particular, “The Gunny Sack”, o seu
primeiro romance, “The Book of Secrets”, “The In-Between World of Vikram Lall”,
“The Assassin’s Song”, “The Magic of Saida” e “Nostalgia”.
Quase toda a sua obra narrativa tem
como contexto a comunidade indiana emigrada para a África Oriental, em
particular para a Tanzânia. Mas a maior parte das personagens principais e/ou
narradores das obras de M. G. Vassanji pertencem a uma segunda geração de
migrantes e já se deslocaram para um segundo país, na maioria dos casos, para a
um país de língua inglesa e, em particular, para a Inglaterra, o Canadá ou os
Estados Unidos. Compreende-se, por isso, porque é que a maioria destes romances
percorrem a vida de várias gerações de antepassados da família da personagem
principal, na medida em que procuram perceber as motivações destes processos
migratórios.
Pode considerar-se que a problemática
nuclear da obra deste autor é a de compreender o “peso” que o passado, através
da memória individual e colectiva, tem no presente (e no futuro) das pessoas e
como é um elemento determinante nas suas opções, seja como factor de atracção,
seja como factor que as empurra para uma "fuga” desse passado. A India, o
seu modelo social, os seus valores e a sua cultura, está sempre presente nestas
personagens como referente a que é impossível escapar.
Mas, para além disso, a obra de M. G.
Vassanji efectua uma densa reflexão, através da arquitectura complexa das suas tramas,
sobre a forma como o fenómeno migratório (?), no quadro da globalização, actua
sobre a vida das pessoas. Nesse sentido, dá um forte realce ao papel da
História e, por conseguinte, aos processos socio-políticos do colonialismo e da
independência da África Oriental, e de como esses processos condicionaram a
própria existência das personagens, uma vez que esta comunidade de origem
indiana se encontrava “comprimida” entre a estrutura administrativa do
colonizador (que tinha incentivado, por razões de desenvolvimento da exploração
colonial, a deslocação desta comunidade para a África Oriental) e a população
indígena.
Na própria trama do romance
transparece constantemente a ambivalência difícil e complexa, entre o afecto e
a tensão, que existe entre esta comunidade indiana, na generalidade com alguma
prosperidade económica, e a população africana e de como ela determina a sua
existência. Aliás, é essa uma das motivações que a leva a recorrer ao seu
passado e às suas raízes culturais como um processo identitário. De facto, essa
consciência de qual é o seu lugar no mundo é sentida como uma necessidade quase
orgânica para a sua sobrevivência.
Outra problemática que a obra de M.
G. Vassanji espelha está relacionada com as dificuldades de integração destas
pessoas no país que escolheram (ou para os quais foram, de certo modo,
“empurradas”) para viver, dado o enfâse tentacular do seu passado, tanto
cultural como familiar. De facto, estas personagens, mesmo quando obtém alguma
prosperidade económica e social, continuam a ter dificuldades de diversa ordem
nessa integração, uma vez que a visão do mundo que herdaram as leva a “cair” em
situações desagregadoras da sua vida pessoal e afectiva nos novos contextos
sociais e culturais.
Torna-se bem evidente, por esta
síntese, que toda a obra de M. G. Vassanji parte da sua própria experiência
pessoal e familiar para a elaboração de amplas e complexas recriações ficcionais.
Também é bem evidente que todas as
suas personagens e/ou narradores se encontram “deslocalizados” e num “in-between”
(para utilizar um termo que aparece no título de um dos romances de M. G.
Vassanji). Mas, mesmo tendo em consideração este seu estatuto, pode-se procurar
enquadrar num modelo classificativo a obra deste autor, com base no “pólo” mais
determinante na trama do romance. Assim, consegue-se, com facilidade, definir
quatro grupos: um primeiro, contextualizado na África Oriental (“The Gunny
Sack”, “The Book of Secrets”, “The
In-Between World of Vikram Lall”, “The Magic of Saida”); outro,
contextualizado nos países para onde foi efectuada a segunda migração, em
particular a América (“No New Land”, “Amriika”); um terceiro, situado na
própria India (“The Assassin’s Song”); e, por último, exterior a este modelo, o
caso de “Nostalgia”.
“Nostalgia”, o seu último romance, é
uma distopia passada num futuro indeterminado e numa indefinida urbe de um Estado
do hemisfério norte (a Aliança do Atlântico Norte, com fronteiras bem estanques
e vigiadas que o separam do resto do Mundo, que nos é apresentado como uma
amálgama de subdesenvolvimento e caos), onde os homens conseguiram tornar-se
imortais através de meios bio-regenerativos. Simplesmente, a imortalidade entra
em conflito com a capacidade de armazenamento (de memória) de um cérebro. Para
resolver este conflito, tornou-se possível “comprar” um corpo jovem com uma
memória “nova”, donde sejam eliminadas todas as interferências excessivas.
Sucede, no entanto, que estes meios bio-regenerativos ainda não estão
inteiramente “afinados” e, por vezes, aparecem alguns casos em que os
“pacientes” apresentam “fissuras” por onde transparece reminiscências de memórias
passadas: essa doença, que se chama Nostalgia, tem que ser tratada de forma a
manter esses homens funcionais e felizes, sem questionarem a sua identidade. É
esse o trabalho da personagem principal, um médico neuro-fisiologista que é
especialista no tratamento desta doença, processando-se toda a trama do romance
em redor das relações que estabelece com os doentes e de como estas interferem
na sua vida pessoal e na sua mente.
Como se percebe por este básico
enquadramento, “Nostalgia” procura fazer uma síntese de alguns tópicos da
problemática de M. G. Vassanji: passado, memória e identidade, na sua relação
com o quotidiano individual e colectivo, no contexto de um universo onde são
cada vez mais acentuadas as discrepâncias entre um primeiro mundo
“desenvolvido” e o resto do globo.
Mesmo utilizando algumas estratégias
aparentemente simples (é o caso de “The Gunny Sack” e de “The Book of Secrets”,
onde aparece um objecto, vindo do passado, que é necessário decifrar e
entender, e a partir do qual se desenrolam todos os acontecimentos), a estrutura
narrativa destes romances é complexa (vários presentes narrativos, diferentes
narradores, inúmeras personagens secundárias), com constantes “flashbacks” e
saltos temporais, gerando uma aparente fragmentação discursiva. No entanto, a
clareza da sua prosa, um estilo com uma elevada carga poética, a urdidura das
situações narradas e a contextualização histórica bem ajustada dão às obras de
M. G. Vassanji um elevado poder de sedução e revelam uma inquestionável
capacidade de envolver o leitor.
Por último, apenas assinalar, como
forma de transmitir algumas referências e pistas, que existem evidentes
“proximidades”, temáticas e de contexto, entre a obra de M. G. Vassanji e a de
V. S. Naipaul. Por outro lado, que esta obra vem na linha da de narradores de
“questionamento ético” como é o caso de Dostoievski, Conrad, Graham Greene e
Philip Roth (autores, aliás, que o próprio M. G. Vassanji reconheceu
publicamente a importância para a sua produção literária). Há ainda analistas
que consideram que o seu estilo tem similitudes com o de Lawrence Durrell e
que, pela complexidade dos enredos destes romances, há também uma difusa
influência da obra de W. Somerset Maugham.
Lisboa, Junho de 2019.





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