Guy Vanderhaeghe
Guy
Vanderhaeghe (1951-) nasceu em Saskatchewan, um gigantesco Estado
interior do “Midwest” canadiano, coberto de pradarias e florestas, com milhares
de lagos, um clima muito agreste (os Invernos podem atingir temperaturas de 45
graus negativos) e uma baixíssima densidade demográfica. Ainda hoje, continua a
viver em Saskatoon, a maior cidade deste Estado.
Como é
natural, esta ambiência e esta paisagem têm uma presença fortíssima na obra
deste narrador, que, desde os anos oitenta até hoje, publicou cinco romances e
quatro colectâneas de contos.
Guy
Vanderhaeghe é um dos poucos autores canadianos que já venceu por três vezes o
mais prestigiado prémio literário do Canadá, o Governor General's Awards (em 1982, em
1996 e em 2015).
Reconhece-se habitualmente que o
corpus fundamental da sua obra é constituído por uma trilogia (os romances “The
Englishman’s Boy”, “The Last Crossing” e “A Good Man”), situados em parte nos
finais do séc. XIX, no desbravamento do Oeste e nos conflitos entre os Europeus
recém-chegados e as tribos índias.
“The Englishman’s Boy” é constituído
por duas narrativas entrecruzadas e confluentes: por um lado, a narração dos acontecimentos
que deram origem ao Cypress Hills Massacre, um violento conflito entre um bando
de pioneiros, constituído por caçadores de búfalos, de lobos e de traficantes
de whisky, e una tribo índia; por outro, em que um antigo guionista descreve,
na Hollywood dos anos vinte, o trabalho de busca de um dos participantes de
Cypress Hills Massacre, um velho actor amargurado, para que lhe conte a sua
vida e assim obtenha “material” para a realização de um filme que um poderoso
produtor de cinema deseja fazer. Esta obra, hoje considerada uma peça-chave da
literatura canadiana, é um épico, de um realismo muitas vezes cru, repleto de
ações violentas e elaborada num estilo inovador e fluente, e, ao mesmo tempo,
uma detalhada reflexão criadora sobre os mitos fundadores da(s)
nacionalidades(s) americana e canadiana
“The Last Crossing” é uma obra de
estrutura mais complexa, com flashbacks e diversos narradores, em que se descreve
a aventura de um jovem inglês que, forçado pelo pai e na companhia de um irmão
mais velho, vai em busca do seu irmão gémeo que desapareceu no Oeste americano quando
acompanhava um clérigo fanático numa missão de conversão dos índios. Com
inúmeras tensões e conflitos num leque diversificado de personagens e tramas
entrecruzadas, há nesta obra, para além da dimensão épica já registada no
romance anterior, um “sopro” bíblico.
“A Good Man” assenta a sua trama num
trio de personagens (um homem, filho de boas famílias, que acaba de abandonar a
Polícia Montada e se vai dedicar a funcionar como “correio” entre dois fortes,
um no Estados Unidos, outro no Canadá, na fronteira próxima do território
Sioux, outro que abandona a policia secreta canadiana e uma mulher, casada, com
que os anteriores se envolvem amorosamente). Num clima perto dos romances de
espionagem, o autor vai aproveitar as deambulações obscuras destes homens para
apresentar uma plêiade enorme de personagens secundárias com que eles se
cruzam, dando uma amplo retrato da ambiência do Oeste americano.
Os analistas, ao pretenderem
exemplificar a qualidade literária desta trilogia, referem, por sistema, as
obras de autores como Charles Dickens, Joseph Conrad, Cormac McCarthy e Larry
McMurtry, que funcionariam não tanto como influências directas, mas mais como
“balizas” referenciais.
No entanto, os dois romances
anteriores (“My Present Age” e “Homesick”) a esta trilogia têm um registo bem
diferente. De facto, estes romances processam-se nos tempos actuais e os seus
protagonistas nada têm de figuras épicas, sendo, pelo contrário, personagens envoltas
em comuns problemas familiares (rupturas conjugais, conflitos geracionais,
etc.), e o tratamento estilístico e narrativo, partindo de uma visão “humorada”,
mas que reconhece a fragilidade moral e caracterial da condição humana, muitas
vezes assume contornos de tragicomédia e de farsa.
São também estes os temas e os
protagonistas da sua obra como contista que muitos comentadores e analistas
consideram que tem, pelo menos, tanta relevância literária como a sua obra de
romancista. A demonstrar esta asserção, está o facto de ter ganho dois Governor
General's Awards com colectâneas de contos. Estes contos revelam, pela
diversidade de tratamento e pela inovação formal, e ainda pela capacidade do
autor em “construir” personagens intensas e complexas em ambiências muito
distintas, que, de facto, Guy Vanderhaeghe é um
exímio narrador.
A obra que provavelmente melhor exemplifica estas
qualidades é “Man Descending”, o seu primeiro livro, onde, em cada um dos doze
contos, aparece um personagem principal ou um narrador em diferentes fases da
vida, desde a adolescência ao estádio da irreversível demência senil, e em
contextos sociais radicalmente distintos.
Lisboa,
Junho de 2019





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