segunda-feira, 24 de junho de 2019

GUY VANDERHAEGHE

 


Guy Vanderhaeghe


Guy Vanderhaeghe (1951-) nasceu em Saskatchewan, um gigantesco Estado interior do “Midwest” canadiano, coberto de pradarias e florestas, com milhares de lagos, um clima muito agreste (os Invernos podem atingir temperaturas de 45 graus negativos) e uma baixíssima densidade demográfica. Ainda hoje, continua a viver em Saskatoon, a maior cidade deste Estado.

Como é natural, esta ambiência e esta paisagem têm uma presença fortíssima na obra deste narrador, que, desde os anos oitenta até hoje, publicou cinco romances e quatro colectâneas de contos.

Guy Vanderhaeghe é um dos poucos autores canadianos que já venceu por três vezes o mais prestigiado prémio literário do Canadá, o Governor General's Awards (em 1982, em 1996 e em 2015).

Reconhece-se habitualmente que o corpus fundamental da sua obra é constituído por uma trilogia (os romances “The Englishman’s Boy”, “The Last Crossing” e “A Good Man”), situados em parte nos finais do séc. XIX, no desbravamento do Oeste e nos conflitos entre os Europeus recém-chegados e as tribos índias.

“The Englishman’s Boy” é constituído por duas narrativas entrecruzadas e confluentes: por um lado, a narração dos acontecimentos que deram origem ao Cypress Hills Massacre, um violento conflito entre um bando de pioneiros, constituído por caçadores de búfalos, de lobos e de traficantes de whisky, e una tribo índia; por outro, em que um antigo guionista descreve, na Hollywood dos anos vinte, o trabalho de busca de um dos participantes de Cypress Hills Massacre, um velho actor amargurado, para que lhe conte a sua vida e assim obtenha “material” para a realização de um filme que um poderoso produtor de cinema deseja fazer. Esta obra, hoje considerada uma peça-chave da literatura canadiana, é um épico, de um realismo muitas vezes cru, repleto de ações violentas e elaborada num estilo inovador e fluente, e, ao mesmo tempo, uma detalhada reflexão criadora sobre os mitos fundadores da(s) nacionalidades(s) americana e canadiana

“The Last Crossing” é uma obra de estrutura mais complexa, com flashbacks e diversos narradores, em que se descreve a aventura de um jovem inglês que, forçado pelo pai e na companhia de um irmão mais velho, vai em busca do seu irmão gémeo que desapareceu no Oeste americano quando acompanhava um clérigo fanático numa missão de conversão dos índios. Com inúmeras tensões e conflitos num leque diversificado de personagens e tramas entrecruzadas, há nesta obra, para além da dimensão épica já registada no romance anterior, um “sopro” bíblico.

“A Good Man” assenta a sua trama num trio de personagens (um homem, filho de boas famílias, que acaba de abandonar a Polícia Montada e se vai dedicar a funcionar como “correio” entre dois fortes, um no Estados Unidos, outro no Canadá, na fronteira próxima do território Sioux, outro que abandona a policia secreta canadiana e uma mulher, casada, com que os anteriores se envolvem amorosamente). Num clima perto dos romances de espionagem, o autor vai aproveitar as deambulações obscuras destes homens para apresentar uma plêiade enorme de personagens secundárias com que eles se cruzam, dando uma amplo retrato da ambiência do Oeste americano.

Os analistas, ao pretenderem exemplificar a qualidade literária desta trilogia, referem, por sistema, as obras de autores como Charles Dickens, Joseph Conrad, Cormac McCarthy e Larry McMurtry, que funcionariam não tanto como influências directas, mas mais como “balizas” referenciais.

No entanto, os dois romances anteriores (“My Present Age” e “Homesick”) a esta trilogia têm um registo bem diferente. De facto, estes romances processam-se nos tempos actuais e os seus protagonistas nada têm de figuras épicas, sendo, pelo contrário, personagens envoltas em comuns problemas familiares (rupturas conjugais, conflitos geracionais, etc.), e o tratamento estilístico e narrativo, partindo de uma visão “humorada”, mas que reconhece a fragilidade moral e caracterial da condição humana, muitas vezes assume contornos de tragicomédia e de farsa.

São também estes os temas e os protagonistas da sua obra como contista que muitos comentadores e analistas consideram que tem, pelo menos, tanta relevância literária como a sua obra de romancista. A demonstrar esta asserção, está o facto de ter ganho dois Governor General's Awards com colectâneas de contos. Estes contos revelam, pela diversidade de tratamento e pela inovação formal, e ainda pela capacidade do autor em “construir” personagens intensas e complexas em ambiências muito distintas, que, de facto, Guy Vanderhaeghe é um exímio narrador.

 A obra que provavelmente melhor exemplifica estas qualidades é “Man Descending”, o seu primeiro livro, onde, em cada um dos doze contos, aparece um personagem principal ou um narrador em diferentes fases da vida, desde a adolescência ao estádio da irreversível demência senil, e em contextos sociais radicalmente distintos.

 

Lisboa, Junho de 2019

 



 






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