DESEJO DE LER(4):
HALIM BARAKAT
Quem já contactou
com a academia norte-americana sabe que está repleta de intelectuais de todos
os cantos do mundo que ela seduziu para o seu sistema. É o que sucede, por
exemplo, no domínio das humanidades e das ciências sociais: não deve haver país
nenhum do mundo que não tenha um intelectual a ensinar ou a investigar nas universidades
americanas. No caso português, são bem conhecidos os casos de escritores e
outros intelectuais que, ao longo do séc. XX, foram acolhidos, por temporadas
variáveis, pela academia norte-americana e ali desenvolveram competências,
saberes e criatividade.
Os motivos, que
levam a que tal suceda, são inúmeros e é inútil aqui referenciar.
Mas há um caso
que sempre me intrigou e que é o dos intelectuais árabes. Porque é importante lembrar:
o confronto de civilizações e a diabolização dos Estados Unidos ou do Mundo
Árabe não são de hoje e estes intelectuais sempre viveram planando por cima de
um universo de incompreensão e hostilidade que seguramente lhes provocou (e
provoca) um tremendo mal-estar.
É o caso do contista,
romancista e ensaísta Halim Barakat (cuidado: não confundir com Salim Barakat,
um escritor sírio mais novo, actualmente também exilado na Suécia, e que é
considerado como um dos mais importantes narradores em língua árabe em plena
actividade), que nasceu na Síria, numa família cristã ortodoxa, mas cresceu no
Líbano e formou-se na Universidade Americana de Beirute.
Talvez a sua
origem e formação expliquem a sua “transferência” para as universidades
americanas, onde ensinou toda a vida, em particular na Universidade de
Georgetown.
Mesmo radicado
nos Estados Unidos, Halim Barakat sempre escreveu em árabe. Hoje já tem oitenta
anos, e o seu primeiro livro, uma colectânea de contos, foi publicada em meados
da década de cinquenta, tinha ele vinte. Depois foi publicando vários romances
e livros de contos, em redor do conflito Israelo-árabe e sobre a particular
complexidade da sociedade libanesa. Os mais importantes, provavelmente, são Six
Days (1961) (um romance profético…), Days of Dust (1967), cuja
tradução inglesa veio acompanhada de um prefácio do seu amigo Edward Said, e The
Crane (1988).
Creio que são
homens, como Halim Barakat, que, pelo seu estatuto de árabes não-islâmicos e
pelo seu trabalho, poderão “minar” as colossais muralhas que os dois lados
civilizacionais se obstinam em cimentar.
Talvez, por
isso, não seja de estranhar que a obra mais conhecida deste autor nos Estados
Unidos seja um ensaio com um título programático: The Arab World: Society, Culture
and State.





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