domingo, 11 de dezembro de 2016

HALIM BARAKAT

 
 
DESEJO DE LER(4): HALIM BARAKAT
Quem já contactou com a academia norte-americana sabe que está repleta de intelectuais de todos os cantos do mundo que ela seduziu para o seu sistema. É o que sucede, por exemplo, no domínio das humanidades e das ciências sociais: não deve haver país nenhum do mundo que não tenha um intelectual a ensinar ou a investigar nas universidades americanas. No caso português, são bem conhecidos os casos de escritores e outros intelectuais que, ao longo do séc. XX, foram acolhidos, por temporadas variáveis, pela academia norte-americana e ali desenvolveram competências, saberes e criatividade.
Os motivos, que levam a que tal suceda, são inúmeros e é inútil aqui referenciar.
Mas há um caso que sempre me intrigou e que é o dos intelectuais árabes. Porque é importante lembrar: o confronto de civilizações e a diabolização dos Estados Unidos ou do Mundo Árabe não são de hoje e estes intelectuais sempre viveram planando por cima de um universo de incompreensão e hostilidade que seguramente lhes provocou (e provoca) um tremendo mal-estar.
É o caso do contista, romancista e ensaísta Halim Barakat (cuidado: não confundir com Salim Barakat, um escritor sírio mais novo, actualmente também exilado na Suécia, e que é considerado como um dos mais importantes narradores em língua árabe em plena actividade), que nasceu na Síria, numa família cristã ortodoxa, mas cresceu no Líbano e formou-se na Universidade Americana de Beirute.
Talvez a sua origem e formação expliquem a sua “transferência” para as universidades americanas, onde ensinou toda a vida, em particular na Universidade de Georgetown.
Mesmo radicado nos Estados Unidos, Halim Barakat sempre escreveu em árabe. Hoje já tem oitenta anos, e o seu primeiro livro, uma colectânea de contos, foi publicada em meados da década de cinquenta, tinha ele vinte. Depois foi publicando vários romances e livros de contos, em redor do conflito Israelo-árabe e sobre a particular complexidade da sociedade libanesa. Os mais importantes, provavelmente, são Six Days (1961) (um romance profético…), Days of Dust (1967), cuja tradução inglesa veio acompanhada de um prefácio do seu amigo Edward Said, e The Crane (1988).
Creio que são homens, como Halim Barakat, que, pelo seu estatuto de árabes não-islâmicos e pelo seu trabalho, poderão “minar” as colossais muralhas que os dois lados civilizacionais se obstinam em cimentar.
Talvez, por isso, não seja de estranhar que a obra mais conhecida deste autor nos Estados Unidos seja um ensaio com um título programático: The Arab World: Society, Culture and State.    

 



 






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