A DENSIDADE DA ESPUMA
DOS DIAS
Comecei
a ler Outside com uma atitude preconceituada, confesso-o. Temo sempre
os livros de autores, em termos sociais, excessivamente amados, que são feitos
de textos de circunstância, de “repescagens”. Parece-me que isso deriva sempre de um
“culto” que é ignominioso para o leitor…e para o autor. Receava, portanto, que
este livro fosse, na verdade, qualquer coisa de sórdido e pouco recomendável.
Abri-o,
por isso, a receio, tacteando-o, antes de o começar. Mas a premência da leitura empurrou-me.
E o resultado foi de um relativo espanto.
É
evidente que se reconhece nestes textos o “tom” de Marguerite Duras. Textos, de
facto, ocasionais (ela própria o diz no prefácio), resultado de propostas de
trabalho, ou da necessidade de compensar o esforço “interior” de oito horas diárias
de escrita, ou, ainda, de dar ressonância e eco a qualquer assunto de quotidiano,
opressivo em excesso.
Textos
muito diversos, que vão desde o comentário ao “fait-divers”, à entrevista a
Georges Bataille ou a um director literário, à análise de um facto cultural, considerado
pela autora como relevante, ou até à descoberta íntima de certas ofuscantes
actrizes. Comum, têm o de serem textos à margem de uma obra que noutro lugar se
fazia, textos feitos na premência de intervir na cultura e na sociedade
francesa.
No
entanto, estes textos revelam, como em “flash”, certas constâncias e preocupações
de base na obra de Marguerite Duras. Todos respiram uma espécie de “acto de
amor” que, à partida, é difícil de classificar, mas que lhes permite uma
“proximidade” ao facto, uma “intensidade” no acontecer, liberta de mediações,
que nos faz lembrar os preceitos que Leiris precisou no início de L’Âge
de l’Homme em relação à literatura e à própria vida. É como se a autora
recusasse ler os “destinos” e as figuras que retrata com outros instrumentos
que não fossem os abertos por eles próprios.
Não se
quer dizer com isto que estes textos de Marguerite Duras derivem de qualquer
tipo de “neutralismo”, de um "grau zero de escrita" ou de um “vazio teórico”. É notório, em todos eles, que a
autora não acredita nisso. Existe, de facto, uma metodologia de análise, uma
posição teórica que nos faz lembrar a história de mosca num dos contos de Cortázar:
revela-se, primeiro, “por dentro” o acontecimento, para entendê-lo tal como é,
descobrindo-se assim como o meio (o sistema) está totalmente às avessas em relação
a ele. Como, em resumo, não é a mosca que voa de pernas para o ar, mas sim o
mundo que está, todo ele, de pernas para o ar em relação à mosca.
Este método
faz-nos, parece, “ver” aquilo que todos nós já víamos; e, portanto, seria fácil
classificar estes textos como resultantes de uma “retórica” do conhecido.
Simplesmente, a grande diferença está no desvio de posicionamento em relação ao
acontecimento. O que caracteriza, no essencial, o “tom” de Marguerite Duras é
essa mudança de lugar, situando-se noutro, próprio, inqualificável. E o seu
estilo não é mais do que a energia emanante, estruturada, desse lugar.
Deseja-se,
antes do mais, com um vivo clamor, assinalar que o destino de uma vida, mais
anónima e “animal” que aparentemente seja, tem a sua soberania, de tal ordem
imponente, que qualquer juízo, vindo dos códigos sociais, só a reduz. O que
sobressai, é que todo o destino tem um estilo, uma forma de o corpo se
movimentar e de se entregar aos percursos que lhe criaram, digno do mais
profundo amor, digno dessa silenciosa veneração - que é o único modo possível de
encarar a esplendorosa criação divina:seja uma mulher analfabeta que revela
todo o medo que a cidade lhe produz, com os seus sobranceiros códigos, mas que
se encanta com a beleza gráfica da palavra “Lilaz”; ou a velha marginal, de setenta
e um anos, que continua, até ao fim, a roubar e a ser presa, por não ter outra
alternativa e por amar tanto viver que nem sequer imagina um fim deliberado; ou
o assassino que, cumprindo a lógica de um destino e de um desejo, caminha para
a mais brutal destruição, apagando o rasto de uma vida que assim o quis; ou a
paixão de um homem por uma criança de doze anos que a incompreensão social obriga,
por dignidade e terror, ao suicídio; ou a obstinação de uma mulher que, para
satisfazer a noite dilacerante de desejo do seu amante, mata, renunciando-se até
à mudez; etc., etc..
É o
movimento subterrâneo, que está para lá da afirmação social de um rosto, aquilo
que verdadeiramente o desenha, que interessa a Marguerite Duras. Escrever, como
aparece na badana do livro, que estes textos têm origem numa sensibilidade de
mulher, parece bastante irrelevante e supérfluo. O que importa salientar, é a
tremenda força amorosa que é necessária para esta posição num sistema cultural que
nos pretende transmitir uma Razão com ambição totalizante, e que, no fundo, apenas
nos cria “culpabilizações”, “terrores”, por aquilo que fica de fora, pelo resíduo
constante com que a Natureza se afirma.
Talvez,
por isso, estes textos sejam, neste momento, contra a História, contra a ordem
com que ela procura acompanhar o tempo. E, como tal, tão surdamente
subversivos. Mas também tão generosos e fraternos para quem se sente, como
Marguerite Duras, cada vez mais num desespero solidário com o destino dos
outros (que, no fundo, é sempre o seu…).
Publicado na revista Plural em 1983.
Título: Outside
Autor: Marguerite Duras
Tradução: Maria Filomena Duarte
Editor: Difel
Ano: 1983
280 págs., 12,72 €


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