segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

MARGUERITE DURAS

 
 

A DENSIDADE DA ESPUMA DOS DIAS

 
Comecei a ler Outside com uma atitude preconceituada, confesso-o. Temo sempre os livros de autores, em termos sociais, excessivamente amados, que são feitos de textos de circunstância, de “repescagens”. Parece-me que isso deriva sempre de um “culto” que é ignominioso para o leitor…e para o autor. Receava, portanto, que este livro fosse, na verdade, qualquer coisa de sórdido e pouco recomendável.

 
Abri-o, por isso, a receio, tacteando-o, antes de o começar. Mas a premência da leitura empurrou-me. E o resultado foi de um relativo espanto.

 
É evidente que se reconhece nestes textos o “tom” de Marguerite Duras. Textos, de facto, ocasionais (ela própria o diz no prefácio), resultado de propostas de trabalho, ou da necessidade de compensar o esforço “interior” de oito horas diárias de escrita, ou, ainda, de dar ressonância e eco a qualquer assunto de quotidiano, opressivo em excesso.

 
Textos muito diversos, que vão desde o comentário ao “fait-divers”, à entrevista a Georges Bataille ou a um director literário, à análise de um facto cultural, considerado pela autora como relevante, ou até à descoberta íntima de certas ofuscantes actrizes. Comum, têm o de serem textos à margem de uma obra que noutro lugar se fazia, textos feitos na premência de intervir na cultura e na sociedade francesa.

 
No entanto, estes textos revelam, como em “flash”, certas constâncias e preocupações de base na obra de Marguerite Duras. Todos respiram uma espécie de “acto de amor” que, à partida, é difícil de classificar, mas que lhes permite uma “proximidade” ao facto, uma “intensidade” no acontecer, liberta de mediações, que nos faz lembrar os preceitos que Leiris precisou no início de L’Âge de l’Homme em relação à literatura e à própria vida. É como se a autora recusasse ler os “destinos” e as figuras que retrata com outros instrumentos que não fossem os abertos por eles próprios.

 
Não se quer dizer com isto que estes textos de Marguerite Duras derivem de qualquer tipo de “neutralismo”, de um "grau zero de escrita" ou de um “vazio teórico”. É notório, em todos eles, que a autora não acredita nisso. Existe, de facto, uma metodologia de análise, uma posição teórica que nos faz lembrar a história de mosca num dos contos de Cortázar: revela-se, primeiro, “por dentro” o acontecimento, para entendê-lo tal como é, descobrindo-se assim como o meio (o sistema) está totalmente às avessas em relação a ele. Como, em resumo, não é a mosca que voa de pernas para o ar, mas sim o mundo que está, todo ele, de pernas para o ar em relação à mosca.

 
Este método faz-nos, parece, “ver” aquilo que todos nós já víamos; e, portanto, seria fácil classificar estes textos como resultantes de uma “retórica” do conhecido. Simplesmente, a grande diferença está no desvio de posicionamento em relação ao acontecimento. O que caracteriza, no essencial, o “tom” de Marguerite Duras é essa mudança de lugar, situando-se noutro, próprio, inqualificável. E o seu estilo não é mais do que a energia emanante, estruturada, desse lugar.

 
Deseja-se, antes do mais, com um vivo clamor, assinalar que o destino de uma vida, mais anónima e “animal” que aparentemente seja, tem a sua soberania, de tal ordem imponente, que qualquer juízo, vindo dos códigos sociais, só a reduz. O que sobressai, é que todo o destino tem um estilo, uma forma de o corpo se movimentar e de se entregar aos percursos que lhe criaram, digno do mais profundo amor, digno dessa silenciosa veneração - que é o único modo possível de encarar a esplendorosa criação divina:seja uma mulher analfabeta que revela todo o medo que a cidade lhe produz, com os seus sobranceiros códigos, mas que se encanta com a beleza gráfica da palavra “Lilaz”; ou a velha marginal, de setenta e um anos, que continua, até ao fim, a roubar e a ser presa, por não ter outra alternativa e por amar tanto viver que nem sequer imagina um fim deliberado; ou o assassino que, cumprindo a lógica de um destino e de um desejo, caminha para a mais brutal destruição, apagando o rasto de uma vida que assim o quis; ou a paixão de um homem por uma criança de doze anos que a incompreensão social obriga, por dignidade e terror, ao suicídio; ou a obstinação de uma mulher que, para satisfazer a noite dilacerante de desejo do seu amante, mata, renunciando-se até à mudez; etc., etc..

 
É o movimento subterrâneo, que está para lá da afirmação social de um rosto, aquilo que verdadeiramente o desenha, que interessa a Marguerite Duras. Escrever, como aparece na badana do livro, que estes textos têm origem numa sensibilidade de mulher, parece bastante irrelevante e supérfluo. O que importa salientar, é a tremenda força amorosa que é necessária para esta posição num sistema cultural que nos pretende transmitir uma Razão com ambição totalizante, e que, no fundo, apenas nos cria “culpabilizações”, “terrores”, por aquilo que fica de fora, pelo resíduo constante com que a Natureza se afirma.

 
Talvez, por isso, estes textos sejam, neste momento, contra a História, contra a ordem com que ela procura acompanhar o tempo. E, como tal, tão surdamente subversivos. Mas também tão generosos e fraternos para quem se sente, como Marguerite Duras, cada vez mais num desespero solidário com o destino dos outros (que, no fundo, é sempre o seu…).

 
 
 
Publicado na revista Plural em 1983.

 

Título: Outside
Autor: Marguerite Duras
Tradução: Maria Filomena Duarte
Editor: Difel
Ano: 1983
280 págs., 12,72 €
 
 




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