DESEJO DE LER(3):
CARLOS MOORE
No caso deste
autor, a aproximação não foi tanto pela sua obra, mas pela sua biografia,
porque há vidas que se tornam sintomáticas dos tempos (e é necessário entender
o lado trágico e banal desta afirmação), de tal forma a História pesa sobre o
destino pessoal.
Carlos Moore
nasceu em Cuba e ainda adolescente, apanhado pela guerra civil que levou os
castristas ao poder, fugiu com a família para os Estados Unidos. Aqui, o facto
de ser negro levou-o a aproximar-se da comunidade afro-americana, da escritora
Maya Angelou e do Harlem Writers Guild. Estes contactos permitiram-lhe
descobrir a acção e o pensamento dos intelectuais americanos contra a
segregação racial e a necessidade de estruturar uma “visão” que dignificasse a
condição de negro. Convencido que a revolução castrista defenderia esses
valores, decidiu regressar a Cuba.
Mas enganou-se.
O problema da raça e da segregação racial não integrava os quadros do
pensamento marxista e o novo poder não o reconhecia como uma temática com
relevância social. E pagou o seu erro com a prisão e o exílio: em 1963 foi
obrigado a abandonar definitivamente a ilha.
Mas esta
situação traçou-lhe o destino. No exílio, passou a dedicar-se ao estudo dos
fenómenos raciais nas sociedades contemporâneas (doutorou-se em França, na
Universidade Paris VII, e tem dado aulas, em redor desta temática, em diversas
universidades dos dois lados do Atlântico) e, de forma militante, à causa do
pensamento sobre a condição negra (pan-africanismo, negritude, etc.),
divulgando o papel dos activistas e dos intelectuais mais relevantes que
combatem a descriminação racial.
Publicou, por
isso, importantes ensaios que visam compreender a formação dos fenómenos
racistas mas actuais sociedades ocidentais e sobre o papel “oculto” da
população de origem africana no mundo contemporâneo.
E foram esses
estudos que o encaminharam para uma nova causa militante, acompanhada, como
sempre, de mais investigação etnográfica e social: a situação das populações aborígenes
que, ainda presentemente, continuam a ser perseguidas e marginalizadas, em
particular no Sudoeste Asiático e na Austrália.
Mas as obras que
lhe deram mais notoriedade pública não foram, naturalmente, os estudos, mas a
sua autobiografia e a biografia de Fela Kuti, um músico rock nigeriano. A sua
autobiografia, intitulada “Pichón: Race and Revolution in Castro’s Cuba”,
descreve e analisa os seus confrontos com o poder castrista; a biografia,
intitulada “Fela, Fela: This Bitch of a Life”, retrata a figura muito peculiar
(e malograda) de Fela Kuti, um músico nigeriano, criador do afrobeat, e um
radical opositor da corrupta clique governamental nigeriana doa anos setenta e
oitenta que o vai procurar destruir, a ele e ao movimento que, entretanto,
criou, através de uma brutal violência policial e militar.
O exílio de
Carlos Moore, por razões de militância e ensino, tem-se revelado de um
constante nomadismo: já viveu em França, no Senegal, na Nigéria, no Egito, nos
Estados Unidos, nas Antilhas, etc. Até que descobriu o Brasil: hoje vive em
Salvador e não pensa abandonar a cidade e o país.
Em Portugal,
como se sabe, a problemática tratada pela obra de Carlos Moore é irrelevante
(desculpem a ironia); talvez, por isso, o autor seja cá, de todo, desconhecido.



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