quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

CARLOS MOORE

 
DESEJO DE LER(3): CARLOS MOORE
 
No caso deste autor, a aproximação não foi tanto pela sua obra, mas pela sua biografia, porque há vidas que se tornam sintomáticas dos tempos (e é necessário entender o lado trágico e banal desta afirmação), de tal forma a História pesa sobre o destino pessoal.
Carlos Moore nasceu em Cuba e ainda adolescente, apanhado pela guerra civil que levou os castristas ao poder, fugiu com a família para os Estados Unidos. Aqui, o facto de ser negro levou-o a aproximar-se da comunidade afro-americana, da escritora Maya Angelou e do Harlem Writers Guild. Estes contactos permitiram-lhe descobrir a acção e o pensamento dos intelectuais americanos contra a segregação racial e a necessidade de estruturar uma “visão” que dignificasse a condição de negro. Convencido que a revolução castrista defenderia esses valores, decidiu regressar a Cuba.
Mas enganou-se. O problema da raça e da segregação racial não integrava os quadros do pensamento marxista e o novo poder não o reconhecia como uma temática com relevância social. E pagou o seu erro com a prisão e o exílio: em 1963 foi obrigado a abandonar definitivamente a ilha.
Mas esta situação traçou-lhe o destino. No exílio, passou a dedicar-se ao estudo dos fenómenos raciais nas sociedades contemporâneas (doutorou-se em França, na Universidade Paris VII, e tem dado aulas, em redor desta temática, em diversas universidades dos dois lados do Atlântico) e, de forma militante, à causa do pensamento sobre a condição negra (pan-africanismo, negritude, etc.), divulgando o papel dos activistas e dos intelectuais mais relevantes que combatem a descriminação racial.
Publicou, por isso, importantes ensaios que visam compreender a formação dos fenómenos racistas mas actuais sociedades ocidentais e sobre o papel “oculto” da população de origem africana no mundo contemporâneo.
E foram esses estudos que o encaminharam para uma nova causa militante, acompanhada, como sempre, de mais investigação etnográfica e social: a situação das populações aborígenes que, ainda presentemente, continuam a ser perseguidas e marginalizadas, em particular no Sudoeste Asiático e na Austrália. 
Mas as obras que lhe deram mais notoriedade pública não foram, naturalmente, os estudos, mas a sua autobiografia e a biografia de Fela Kuti, um músico rock nigeriano. A sua autobiografia, intitulada “Pichón: Race and Revolution in Castro’s Cuba”, descreve e analisa os seus confrontos com o poder castrista; a biografia, intitulada “Fela, Fela: This Bitch of a Life”, retrata a figura muito peculiar (e malograda) de Fela Kuti, um músico nigeriano, criador do afrobeat, e um radical opositor da corrupta clique governamental nigeriana doa anos setenta e oitenta que o vai procurar destruir, a ele e ao movimento que, entretanto, criou, através de uma brutal violência policial e militar.
O exílio de Carlos Moore, por razões de militância e ensino, tem-se revelado de um constante nomadismo: já viveu em França, no Senegal, na Nigéria, no Egito, nos Estados Unidos, nas Antilhas, etc. Até que descobriu o Brasil: hoje vive em Salvador e não pensa abandonar a cidade e o país.
Em Portugal, como se sabe, a problemática tratada pela obra de Carlos Moore é irrelevante (desculpem a ironia); talvez, por isso, o autor seja cá, de todo, desconhecido.
 

 

 



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