DESEJO DE LER
(5): HANNAH BAT-SHAHAR
Correndo o risco
de me chamarem retrógrado, gostaria de afirmar que sempre senti algum fascínio pelas comunidades que, por motivos religiosos e ideológicos, procuram resistir à
passagem do tempo. Em particular, aquelas que repudiam qualquer tecnologia ou
qualquer tipo de instituição democrática com o objectivo de afastar do seu
horizonte os sinais da modernidade.
Este meu fascínio não está relacionado com os
parâmetros religiosos ou ideológicos que cimentam estas comunidades, mas muito
mais com os comportamentos e o quotidiano de gentes com padrões éticos muito
austeros e ao modo como gerem no dia-a-dia o repúdio das solicitações
“sedutoras” que os novos tempos trazem. Ou por outras palavras: o que me fascina
é a dimensão inglória dessa luta contra
o tempo e o tremendo sacrifício inútil para que arrasta gerações e gerações…
É o caso da comunidade
haredi, nas suas diversas vertentes e grupos. Saliente-se que o termo haredi (os
“tementes de Deus”, em hebreu) é aquele em que ela própria se reconhece, porque
do exterior é conhecida por comunidade judaica ultra-ortodoxa (definição que,
obviamente, não aceita).
Os haredi estão
principalmente sediados em Israel; mas existem também grupos nos Estados
Unidos, em Inglaterra, na Bélgica e em França. Hoje, em todo o mundo, devem ser
cerca de um milhão de almas, residindo, mais de metade, em Israel.
Não vou estar
aqui a rememorar os seus principais princípios. Mas gostaria de recordar que os
haredi têm enormes reticências ao sionismo e ao Estado de Israel (porque este
só deveria ser criado após a chegada do Messias e, por conseguinte, a sua
criação pelos homens é um terrível pecado, pois contraria a vontade divina que
determinou a diáspora judaica) e que esse é um dos motivos do seu afastamento
da comunidade ortodoxa. E que, por diversas razões, desejam viver em “guetos”,
ou melhor, em bairros e povoações separados dos judeus ortodoxos, dos judeus laicos
e dos gentios. Aliás, note-se, por vezes são mais hostis e violentos com os
restantes judeus do que até com os gentios (incluindo os árabes; alguns dos
seus rabinos mais radicais, no exterior, são aliados dos Palestinianos e do
Irão contra o Estado de Israel).
Com tanto
isolamento, é natural, portanto, que a literatura israelita não se tenha
debruçado sobre esta realidade. Nem a geração dos patronos (Shmuel Yossef Agnon),
nem a dos escritores que publicaram a partir dos anos sessenta – isto é, já
nascidos em Israel ou que lá viveram a maior parte da sua vida – como Abraham
B. Yehoshua, David Shahar, Amos Oz, David Grossman e Aharon Appelfeld, para só
referir os mais conhecidos (a maioria dos seus romances e contos estão
contextualizados em ambientes de judeus laicos). E o mesmo sucede, como é
natural, com a maioria das narradoras israelitas, como é o caso, por exemplo,
de Orly Castel-Bloom, Mira Mágen, Amalia Kahana-Carmon e Ruth Almog (segundo me
informei, só Mira Mágen aborda as práticas sociais e o comportamento da
comunidade ortodoxa, em particular no seu condicionamento de género).
A referência
aqui à narrativa de origem feminina não vem por acaso: é sabido que os haredi,
na longínqua tradição judaica e semita, organizam-se num modelo de enorme
severidade patriarcal, empurrando as mulheres para um estatuto particularmente
asfixiante, subjugando a sua sexualidade (e até a sua sociabilidade) a um padrão
familiar tirânico. Aliás, basta dizer que o saber lhes está vedado (o estudo da
Palavra e a sua interpretação é privilégio dos homens) e que, por isso, devem dedicar-se,
no essencial, a cumprir a orientação bíblica da multiplicação (os casais têm,
em media, sete a dez filhos).
Num contexto tão rarefeito de referências
literárias actuais (só vi alusões de que o escritor Haim Be’er se tenha
debruçado por esta realidade), percebe-se, por isso, o meu particular interesse
em conhecer a obra de Hannah Bat-Shahar.
Esta escritora,
nascida em 1944, originária da comunidade ultra-ortodoxa, começou a publicar, a
partir da década de oitenta, já com mais de quarenta anos, colectâneas de
contos e, já neste século, alguns romances. Os títulos mais relevantes da sua
obra, numa tradução literal para inglês, são “ Calling the Bats”, “Look, the
Fishing Boats” e “Shadows in the Mirror”.
Segundo sei, a
sua obra centra-se no estatuto da mulher entre os haredi, em particular na
falência dos seus afectos e no confronto entre as suas difusas fantasias
amorosas e eróticas e os condicionalismos desta sociedade patriarcal, que as
leva a construir universos “compensatórios” das frustrações que a vida lhes provoca.
Assim, as suas personagens femininas revelam-se como seres complexos, procurando
apenas a satisfação física, a que a manifestação da sua feminilidade fica
sujeita, mas subjugadas por um sentimento de culpabilidade resultante de uma obsessão
edipiana, fruto, por sua vez, da sua necessidade de afecto.
Hoje, em Israel,
Hannah Bat-Shahar é reconhecida como uma das principais escritoras da sua
geração.
Infelizmente, não
existe nenhuma obra sua publicada em língua que eu possa ler…

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