terça-feira, 10 de janeiro de 2017

HANNAH BAT-SHAHAR

 
 
 
 
 
DESEJO DE LER (5): HANNAH BAT-SHAHAR
 
Correndo o risco de me chamarem retrógrado, gostaria de afirmar que sempre senti algum fascínio pelas comunidades que, por motivos religiosos e ideológicos, procuram resistir à passagem do tempo. Em particular, aquelas que repudiam qualquer tecnologia ou qualquer tipo de instituição democrática com o objectivo de afastar do seu horizonte os sinais da modernidade.
 Este meu fascínio não está relacionado com os parâmetros religiosos ou ideológicos que cimentam estas comunidades, mas muito mais com os comportamentos e o quotidiano de gentes com padrões éticos muito austeros e ao modo como gerem no dia-a-dia o repúdio das solicitações “sedutoras” que os novos tempos trazem. Ou por outras palavras: o que me fascina é a dimensão inglória dessa luta contra o tempo e o tremendo sacrifício inútil para que arrasta gerações e gerações…
É o caso da comunidade haredi, nas suas diversas vertentes e grupos. Saliente-se que o termo haredi (os “tementes de Deus”, em hebreu) é aquele em que ela própria se reconhece, porque do exterior é conhecida por comunidade judaica ultra-ortodoxa (definição que, obviamente, não aceita).
Os haredi estão principalmente sediados em Israel; mas existem também grupos nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Bélgica e em França. Hoje, em todo o mundo, devem ser cerca de um milhão de almas, residindo, mais de metade, em Israel.
Não vou estar aqui a rememorar os seus principais princípios. Mas gostaria de recordar que os haredi têm enormes reticências ao sionismo e ao Estado de Israel (porque este só deveria ser criado após a chegada do Messias e, por conseguinte, a sua criação pelos homens é um terrível pecado, pois contraria a vontade divina que determinou a diáspora judaica) e que esse é um dos motivos do seu afastamento da comunidade ortodoxa. E que, por diversas razões, desejam viver em “guetos”, ou melhor, em bairros e povoações separados dos judeus ortodoxos, dos judeus laicos e dos gentios. Aliás, note-se, por vezes são mais hostis e violentos com os restantes judeus do que até com os gentios (incluindo os árabes; alguns dos seus rabinos mais radicais, no exterior, são aliados dos Palestinianos e do Irão contra o Estado de Israel).
Com tanto isolamento, é natural, portanto, que a literatura israelita não se tenha debruçado sobre esta realidade. Nem a geração dos patronos (Shmuel Yossef Agnon), nem a dos escritores que publicaram a partir dos anos sessenta – isto é, já nascidos em Israel ou que lá viveram a maior parte da sua vida – como Abraham B. Yehoshua, David Shahar, Amos Oz, David Grossman e Aharon Appelfeld, para só referir os mais conhecidos (a maioria dos seus romances e contos estão contextualizados em ambientes de judeus laicos). E o mesmo sucede, como é natural, com a maioria das narradoras israelitas, como é o caso, por exemplo, de Orly Castel-Bloom, Mira Mágen, Amalia Kahana-Carmon e Ruth Almog (segundo me informei, só Mira Mágen aborda as práticas sociais e o comportamento da comunidade ortodoxa, em particular no seu condicionamento de género).
A referência aqui à narrativa de origem feminina não vem por acaso: é sabido que os haredi, na longínqua tradição judaica e semita, organizam-se num modelo de enorme severidade patriarcal, empurrando as mulheres para um estatuto particularmente asfixiante, subjugando a sua sexualidade (e até a sua sociabilidade) a um padrão familiar tirânico. Aliás, basta dizer que o saber lhes está vedado (o estudo da Palavra e a sua interpretação é privilégio dos homens) e que, por isso, devem dedicar-se, no essencial, a cumprir a orientação bíblica da multiplicação (os casais têm, em media, sete a dez filhos).   
 Num contexto tão rarefeito de referências literárias actuais (só vi alusões de que o escritor Haim Be’er se tenha debruçado por esta realidade), percebe-se, por isso, o meu particular interesse em conhecer a obra de Hannah Bat-Shahar.
Esta escritora, nascida em 1944, originária da comunidade ultra-ortodoxa, começou a publicar, a partir da década de oitenta, já com mais de quarenta anos, colectâneas de contos e, já neste século, alguns romances. Os títulos mais relevantes da sua obra, numa tradução literal para inglês, são “ Calling the Bats”, “Look, the Fishing Boats” e “Shadows in the Mirror”.
Segundo sei, a sua obra centra-se no estatuto da mulher entre os haredi, em particular na falência dos seus afectos e no confronto entre as suas difusas fantasias amorosas e eróticas e os condicionalismos desta sociedade patriarcal, que as leva a construir universos “compensatórios” das frustrações que a vida lhes provoca. Assim, as suas personagens femininas revelam-se como seres complexos, procurando apenas a satisfação física, a que a manifestação da sua feminilidade fica sujeita, mas subjugadas por um sentimento de culpabilidade resultante de uma obsessão edipiana, fruto, por sua vez, da sua necessidade de afecto.
Hoje, em Israel, Hannah Bat-Shahar é reconhecida como uma das principais escritoras da sua geração.
Infelizmente, não existe nenhuma obra sua publicada em língua que eu possa ler…

 


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