sábado, 30 de abril de 2022

HOMEIRA QADERI

 


A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

9. Homeira Qaderi (1980-)

É uma escritora afegã que já publicou três romances e uma colectânea de contos. Em complemento, decorrente do seu papel de activista dos direitos humanos e, principalmente, em prol da melhoria da situação das mulheres no seu país, e de especialista em literatura persa e afegã, tem publicado outras obras, de carácter mais indefinido, entre o biográfico e o ensaístico.

Aliás, como seria inevitável, a situação social e política, que o seu país tem vivido nas últimas décadas, teve e tem um papel determinante nas opções literárias da escritora. Nascida sob o domínio soviético, impossibilitada de estudar durante o regime talibã, Homeira Qaderi viu-se obrigada a exilar-se com a família, ainda em criança, no Irão, onde se formou em literatura persa e afegã, tendo-se doutorado na Universidade Jawaharlal Nehru, na India. Ainda no exílio, começou a intervir em diversas conferências e organismos internacionais com o fito de denunciar a situação social das mulheres islâmicas, e em particular no Afeganistão, procurando sensibilizar a opinião pública internacional para a sua degradante condição. Em 2011, já depois da queda do regime talibã, regressou ao seu país e começou a dar aulas na Universidade de Cabul, continuando a manter uma forte intervenção pública em defesa das mulheres. Em 2021, aquando da “reconquista” de Cabul pelos talibãs, viu-se de novo obrigada a exilar-se, agora para os Estados Unidos.

A ficção de Homeira Qaderi, escrita em persa afegão (ou dari, como quiserem), é quase inacessível e pouca informação, lamentavelmente, existe sobre ela: reconhece-se, no entanto, que o seu romance “Noqra, a Girl from Kabul River” (numa tradução literal do título para inglês), 2009, é, com as narrativas de Maryam Mahboob e de Spôjmai Zariâb, uma das mais importantes obras de narrativa literária contemporânea escrita por uma mulher afegã.

Por isso, o nosso interesse vê-se assim quase confinado a uma obra de não-ficção, intitulada na edição inglesa por “Dancing in the Mosque”, 2019. O livro, conforme indica o subtítulo, apresenta-se como uma “carta ao filho” (“An Afghan Mother’s Letter to her Son”) e nele a autora narra a sua experiência pessoal, desde a infância sob o poder soviético, os seus esforços (e riscos) para ensinar outras meninas afegãs na fase do jugo talibã, o casamento com dezassete anos no Irão com um marido islâmico e formatado por uma cultura patriarcal e misógina, a dolorosa epopeia que foi o nascimento do seu filho num hospital público em Cabul, a obstinada decisão em estudar literatura e dedicar-se à criação literária, a irrevogável e dramática opção de se divorciar, quando o seu marido, após doze anos de casamento, a informou de que se queria casar com uma segunda mulher, sabendo que essa resolução lhe iria fazer perder qualquer direito, de acordo com a “sharia” e o direito civil do seu país, de cuidar do filho e até de o contactar.

Mas esta obra não se limita a ser um libelo acusatório contra a humilhante situação das mulheres islâmicas no Afeganistão. Dado o seu carácter não-linear, fragmentário e o seu estilo com matizes que vão desde o lírico (principalmente nas descrições das suas relações com a sua avó, na infância, ou com as suas amigas na mesquita) até um realismo cru, mas expressivo, no retrato que efectua do quotidiano asfixiante e perigoso de Cabul, “Dancing in the Mosque” tem um interesse literário que supera bastante o simples registo de um testemunho.

A autoria da foto da escritora é de Tim Schoon.

Abril de 2022.



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