segunda-feira, 18 de abril de 2022

XICO SÁ


 

A Vontade de Ler: Um Autor, Uma Obra

 6. Xico Sá (1962-)

É um escritor brasileiro que já publicou mais de uma dezena de livros, na sua grande maioria de crónicas e contos. Fundamentalmente jornalista e cronista, o autor começou a sua actividade profissional no Recife, mas logo transitou para os órgãos de comunicação social escrita de cobertura nacional, onde obtiveram notoriedade as suas investigações jornalísticas sobre o caso “Collorgate”. Ao longo da sua carreira, ganhou os mais importantes prémios de jornalismo do seu país. Em complemento ou por consequência, tornou-se presença regular em diversos programas de televisão, aumentando assim de forma significativa a sua popularidade.

No essencial, o sucesso de Xico Sá deve-se à fortíssima carga de humor (há quem o considere, de forma pejorativa, “apenas” um “humorista”) das suas crónicas, que publica regularmente, e aos temas predominantes a que se dedica: o futebol e o comportamento masculino nas relações amorosas. Os títulos das suas colectâneas de crónicas revelam bem este “programa”: “Modos de Macho, Modinhas de Fêmea: A Educação Sentimental do Homem”, 2003, “Chabadabadá: Aventuras e desventuras do macho perdido e da fêmea que se acha”, 2010, “O Livro das Mulheres Extraordinárias”, 2014, “Os machões dançaram: Crônicas de amor e sexo em tempos de homens vacilões”, 2015, “A Pátria Em Sandálias da Humildade”, 2016. Mas também é autor de “Nova Geografia da Fome”, 2004, onde, numa homenagem ao “Geografia da Fome” de Josué de Castro, percorre o nordeste brasileiro, retratando a situação de miséria, ou de “Divina Comédia da Fama”,2004, onde satiriza a obsessiva necessidade de sucesso mediático de muitos dos seus conterrâneos.

 Nestas crónicas, sempre polémicas e provocatórias, é de assinalar, para além do humor, o seu registo coloquial, o uso constante do calão e de neologismos, muitos deles oriundos da cultura popular, musical e televisiva, o que lhe dá uma expressiva vivacidade na satirização de situações e comportamentos. No entanto, a crítica brasileira assinala também, em paralelo à qualidade expressiva da sua escrita, que, por vezes, a sua caracterização caricatural dos comportamentos atinge as raias do mau-gosto.

Deve-se ainda salientar, para perceber a figura pública de Xico Sá e a sua actividade jornalística, que este sempre defendeu o direito do jornalista de manifestar as suas opções políticas, não se ocultando sob o manto de um pretenso neutralismo; daí que tenha tornado bem explicito, nas suas crónicas, o seu apoio ao PT e a sua defesa intransigente dos ex-Presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff, o que lhe trouxe alguns dissabores profissionais e roturas “bombásticas” com as direcções de alguns jornais e revistas.

 Mas o seu papel como cronista e jornalista não deveria fazer esquecer que Xico Sá é também romancista. Talvez por isso, na minha opinião, o seu livro mais interessante é o romance “Big Jato”, 2012 (finalista do Prémio São Paulo de Literatura e de que já foi feito um filme).

O romance é uma memória assumidamente ficcionada da infância do autor, narrando as suas descobertas, enquanto “pendura” do pai, quando este trabalhava com uma camioneta para limpar fossas, o “Big Jato”, na sua cidade natal no interior do Ceará. É a partir daquele lugar que o narrador vai entendendo o mundo que o rodeia, percebendo o carácter das pessoas, perante as alegrias e a miséria, vendo como tudo se transforma, em particular nas relações familiares, e encontra os “primeiros amores”, em que se destaca a música popular e o rock. E se a figura paterna aparece como modelo, com os seus silêncios e o seu sarcasmo perante as fragilidades dos outros, também se destaca, como outro modelo que se contrapõe, a figura mais ausente, mais fugidia e fascinante, do seu tio, irmão gémeo do pai, boémio e mal-amado. Há, por isso, na escrita deste romance, para lá do habitual humor do autor, uma forte carga emotiva, nostálgica, até mesmo lírica, que envolve como uma aura todas as personagens e situações, e que a distingue da sua prosa de cronista.

 

Abril de 2022

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 


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