A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
É um
escritor brasileiro que já publicou mais de uma dezena de livros, na sua grande
maioria de crónicas e contos. Fundamentalmente jornalista e cronista, o autor
começou a sua actividade profissional no Recife, mas logo transitou para os
órgãos de comunicação social escrita de cobertura nacional, onde obtiveram
notoriedade as suas investigações jornalísticas sobre o caso “Collorgate”. Ao
longo da sua carreira, ganhou os mais importantes prémios de jornalismo do seu
país. Em complemento ou por consequência, tornou-se presença regular em
diversos programas de televisão, aumentando assim de forma significativa a sua
popularidade.
No
essencial, o sucesso de Xico Sá deve-se à fortíssima carga de humor (há quem o
considere, de forma pejorativa, “apenas” um “humorista”) das suas crónicas, que
publica regularmente, e aos temas predominantes a que se dedica: o futebol e o
comportamento masculino nas relações amorosas. Os títulos das suas colectâneas
de crónicas revelam bem este “programa”: “Modos de Macho, Modinhas de Fêmea: A
Educação Sentimental do Homem”, 2003, “Chabadabadá: Aventuras e desventuras do
macho perdido e da fêmea que se acha”, 2010, “O Livro das Mulheres
Extraordinárias”, 2014, “Os machões dançaram: Crônicas de amor e sexo em tempos
de homens vacilões”, 2015, “A Pátria Em Sandálias da Humildade”, 2016. Mas
também é autor de “Nova Geografia da Fome”, 2004, onde, numa homenagem ao
“Geografia da Fome” de Josué de Castro, percorre o nordeste brasileiro,
retratando a situação de miséria, ou de “Divina Comédia da Fama”,2004, onde
satiriza a obsessiva necessidade de sucesso mediático de muitos dos seus
conterrâneos.
Nestas crónicas, sempre polémicas e
provocatórias, é de assinalar, para além do humor, o seu registo coloquial, o
uso constante do calão e de neologismos, muitos deles oriundos da cultura
popular, musical e televisiva, o que lhe dá uma expressiva vivacidade na
satirização de situações e comportamentos. No entanto, a crítica brasileira
assinala também, em paralelo à qualidade expressiva da sua escrita, que, por
vezes, a sua caracterização caricatural dos comportamentos atinge as raias do
mau-gosto.
Deve-se
ainda salientar, para perceber a figura pública de Xico Sá e a sua actividade
jornalística, que este sempre defendeu o direito do jornalista de manifestar as
suas opções políticas, não se ocultando sob o manto de um pretenso neutralismo;
daí que tenha tornado bem explicito, nas suas crónicas, o seu apoio ao PT e a
sua defesa intransigente dos ex-Presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff, o
que lhe trouxe alguns dissabores profissionais e roturas “bombásticas” com as
direcções de alguns jornais e revistas.
O romance é
uma memória assumidamente ficcionada da infância do autor, narrando as suas
descobertas, enquanto “pendura” do pai, quando este trabalhava com uma
camioneta para limpar fossas, o “Big Jato”, na sua cidade natal no interior do
Ceará. É a partir daquele lugar que o narrador vai entendendo o mundo que o
rodeia, percebendo o carácter das pessoas, perante as alegrias e a miséria, vendo
como tudo se transforma, em particular nas relações familiares, e encontra os
“primeiros amores”, em que se destaca a música popular e o rock. E se a figura
paterna aparece como modelo, com os seus silêncios e o seu sarcasmo perante as
fragilidades dos outros, também se destaca, como outro modelo que se contrapõe,
a figura mais ausente, mais fugidia e fascinante, do seu tio, irmão gémeo do
pai, boémio e mal-amado. Há, por isso, na escrita deste romance, para lá do
habitual humor do autor, uma forte carga emotiva, nostálgica, até mesmo lírica,
que envolve como uma aura todas as personagens e situações, e que a distingue
da sua prosa de cronista.
Abril de
2022
Desconheço a
autoria da foto do escritor.


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