A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
5. Fatima
Daas (1995-)
É uma jovem autora francesa que publicou um único livro em 2020, “La Petite Dernière”, no registo de autoficção. Tanto o seu processo de escrita como a sua publicação foram assumidamente apoiados por Virginie Despentes, o que só por si permite perceber (e enquadrar) qual o registo em que foi escrito.
O seu
romance tem, antes do mais, o valor de um testemunho, dada a sua ambiência
peculiar. De facto, a narradora, assumindo-se inequivocamente como “duplo” da
autora (todos os capítulos, alguns deles muito breves, começam sempre com a
mesma frase: “Eu chamo-me Fatima” ou até “Eu chamo-me Fatima Daas”),
apresenta-se como a filha mais nova (tem duas irmãs) de uma família argelina de
fortes convicções islâmicas, já nascida nos subúrbios de Paris (as irmãs
nasceram na Argélia). Ela própria é crente nesta religião, mas sente que esta
lhe cerceia a sua liberdade, e principalmente a sua felicidade, pois é reconhecidamente
lésbica.
Num estilo
assente em linguagem coloquial, fortemente sincopado e cru, “La Petite
Dernière” vai descrevendo, ao longo da narrativa, os dilemas da
narradora/autora entre as suas raízes magrebinas, que não pretende perder, o
seu fascínio pelo universo ocidental, em particular pela literatura francesa
(Duras, Ernaux), e as suas paixões amorosas que a “colocam em pecado”, segundo
a sua religião; em resumo, um percurso intelectual e emocional em tudo similar a
muitos jovens dos “banlieux” parisienses...
O romance já
foi traduzido para inglês, espanhol, catalão, italiano e alemão.
Abril de
2022
Foto da
escritora de autoria de Dravot.


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