A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
3. Benjamin
Maack (1978-)
É um
escritor alemão que já publicou uma colectânea de poemas, dois livros de contos
e uma narrativa longa de cariz biográfico. Um dos seus contos foi galardoado no
Ingeborg-Bachmann-Preis e a revista Frankfurter Allgemeinen Sonntagszeitung
englobou-o, em 2012, no conjunto dos vinte autores mais promissores da
literatura alemã. É também jornalista.
Este
reconhecimento crítico deve-se aos seus contos e, fundamentalmente, às duas
colectâneas que publicou, com os títulos “Die Welt ist ein Parkplatz und endet
vor Disneyland” (este delicioso título pode ser traduzido, literalmente, por “O
Mundo É Um Parque de Estacionamento e Termina À Frente da Disneylandia”), 2007,
e “Monster” (“Monstro”), 2012. A comunicação social salientava, em particular,
o humor, o sentido crítico e o aparente nonsense realista das situações com
personagens centrais comuns (e a chamarem-se todas Benjamin), incapazes de
controlar certos momentos, banais mas decisivos, das suas vidas. Muito circunstanciados e
inconclusivos, onde o humor não consegue desvanecer a ambiência opressiva,
estes contos têm, como substracto, o tema da morte, que, nas suas diversas
formas, está sempre presente.
Sucede que
este prometedor percurso literário foi, de súbito, interrompido por um colapso
nervoso e uma grave depressão. Durante vários anos, envolvendo prolongados internamentos
e tratamento com psicotrópicos, Benjamin Maack foi obrigado a abandonar a sua
vida habitual. Procurou então, através da escrita, “salvar-se”, registando, no
seu segundo internamento, tudo o que vivia. Foi assim que nasceu “Wenn das noch
geht, kann es nicht so schlimm sein” (em tradução literal, “Se Isto Ainda É
Possível, Não Pode Ser Tão Mau”), o livro de 2020, em que, quase diariamente, anotou
e reflectiu sobre a situação psicológica e física por que estava a passar.
Segundo a
crítica, a narrativa descreve, de forma implacável e sem subterfúgios, todos
esses momentos, desde a propensão suicida às euforias absurdas, desde o total
bloqueio para pensar, resultante das drogas tomadas, ao quotidiano quase
infantil na ala psiquiátrica, assim como os sentimentos de culpa por se tornar
um peso para a família ou em que se convencia que nada mais poderia fazer com a
sua vida. Para isso, teve que inventar uma linguagem fragmentária, com hiatos,
que procurasse expressar essas emoções e estados físicos. Foi assim que o livro
ultrapassou literariamente o mero relatório “clínico”, transformando-se num
testemunho radical de uma doença que é ainda um tabu social. É essa dimensão de
busca em expressar situações, que vão desde o quase vegetativo ao desespero
total, e a utilização constante de uma certa ironia trágica, além de uma
exigente e dolorosa sinceridade, como forma de análise catártica, que conferem
a “Wenn das noch geht, kann es nicht so schlimm sein” uma assinalada qualidade literária.
Abril de
2022
Foto do
autor de Heike Steinweg.

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