OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
6ª Vinheta
ANN-MARIE MACDONALD
Ann-Marie MacDonald (1958-) é uma escritora canadiana que se tem destacado pelo seu trabalho dramatúrgico (obteve vários prémios com esta sua actividade criativa, incluindo o Governor’s General Award com a sua peça “Goodnight Desdemona”), como guionista e actriz, mas também por ter escrito três romances muito bem recebidos pela crítica e pelos leitores (“Fall on Your Knees”, 1996, “The Way the Crow Flies”, 2003, e “Adult Onset”, 2014).
Os romances desta autora centram-se no núcleo familiar e nos conflitos, ocultações, ambiguidades e traumas que se tecem no seu seio. E, assim, Ann-Marie MacDonald tanto se tem debruçado sobre as repercussões dos comportamentos nefastos dos seus membros nas relações intergeracionais, e cujos efeitos podem durar décadas e décadas (“Fall On Your Knees”), ou sobre as conexões difíceis, culpabilizadas e dolorosas que a família mantem com a sua envolvência (“The Way the Crow Flies”) ou ainda sobre o mal-estar gerado entre a maternidade e os projetos pessoais (“Adult Onset”). Mas sempre com estruturas narrativas muito complexas e trabalhadas, com inúmeras recorrências temporais, tramas elaboradas e sinuosas, um grande sentido de observação, diálogos bem contextualizados e peculiares (não fosse esta escritora uma notável dramaturga…), num estilo que concilia dramaticidade, lirismo e um suave fio de humor. Além disso, como as personagens principais são retratadas de uma forma global, incluindo as suas imperfeições e fragilidades, a autora consegue gerar no leitor uma sensação de mal-estar, pois este sente-se constantemente a balançar entre o repúdio e a empatia. Por último, duas notas mais para caracterizar a sua obra: há sempre, nos seus romances, alusões autobiográficas (como se partissem delas as construções romanescas) e uma ambiência que remete, como uma reminiscência, para a obra de Margaret Atwood (em particular, para o magnífico romance “Cat’s Eye”) e para as trilogias de Robertson Davies.
A obra que mais merece ser destacada (até porque hoje já é considerada um clássico da literatura contemporânea canadiana) é “Fall On Your Knees”, o seu primeiro romance, publicado em 1996. Esta obra é um romance histórico (como, de certo modo, também o é o romance seguinte, “The Way the Crow Flies”), que decorre desde o início do séc. XX, em Cape Breton Island (e a paisagem desta ilha, descrita entre o sombrio e o mágico, é determinante para a caracterização das personagens e do enredo romanesco), e os anos vinte e trinta do mesmo século, em Nova York, e que narra o percurso de James Piper, um homem perturbado pelas suas obsessões, e da família que constitui, composta pela sua mulher (que, quando vai viver com ele, é ainda uma criança) e pelas suas três filhas.
No essencial, pode afirmar-se que o romance divide-se em duas partes: uma primeira, em que a entidade determinante é a figura paterna, o referido James Piper, e a sua acção nefasta sobre a mulher e as filhas, até que, depois da sua participação voluntária na I Guerra Mundial e do encadeamento de sucessivas mortes familiares (o falecimento, por parto, da sua primogénita, e da consequente morte, por acidente, de um dos gémeos filhos desta, e, por fim, da sua própria mulher), aquele se transforma numa sombra de si próprio, num espectro, ruído de culpas; uma segunda, em que a acção determinante se estabelece entre as irmãs que sobreviveram, em parte na sua ânsia de redimir e dominar a figura traumática do pai e de um passado que as persegue como uma verdadeira assombração. Pelo meio, num enredo repleto de segredos, mentiras, equívocos e peripécias imprevistas, vão aparecendo situações de relações incestuosas, interraciais, homossexuais, e de prostituição, até que toda a teia destas existências traumatizadas se vai definindo e clarificando, com o papel apaziguador do tempo, terminando o romance, como nas tragédias shakespearianas, com a serenidade possível para as gerações futuras.
A sua obra narrativa está traduzida para francês, espanhol, alemão e italiano.
Fevereiro de 2020
Foto da autora de Arlen Redkop


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