segunda-feira, 22 de junho de 2015

ASCÊNCIO DE FREITAS


 
 
 
 
Por circunstâncias que não são para aqui chamadas, raramente tenho escrito sobre obras e autores portugueses.
 
Mas, como não há regra sem excepção, hoje escrevo sobre Ascêncio de Freitas.
 
Existem algumas biografias dele na web. Mas gostava de referir alguns, poucos, dados.
 
Nasceu há perto de noventa anos. Na Gafanha da Nazaré. Com pouco mais de vinte anos, em 1948, partiu para Moçambique e durante mais de trinta anos lá viveu. Fez de tudo (literalmente de tudo) nesta sua terra de vida. Colaborou nalguns jornais e em 1959 publica o seu primeiro livro de contos: Cães da Mesma Ninhada. Depois esteve cerca de vinte anos sem publicar. Quando regressou a Portugal, em 1978, publicou o seu segundo livro (Ontem Era a Madrugada) e, de seguida, várias colectâneas de contos e romances, alguns deles premiados (é o caso de O Canto da Sangardata, com o Prémio PEN Clube Português).
 
Como é natural, grande parte da sua narrativa tem, como ambiência, Moçambique. No essencial, Ascêncio de Freitas é um narrador português que escreve sobre a realidade moçambicana.
 
Confesso que não li a maior parte dos seus livros. Mas a ideia que tenho, acreditando em quem leu, é que a sua obra é empenhada, estilisticamente cuidada, com personagens bem construídas e que procuram personificar várias dimensões da existência. A comprová-lo, estão não só os Prémios que recebeu, mas algumas recensões (recordo um prefácio de Eugénio Lisboa, por exemplo), com elogiosas referências ao seu estilo e à complexa arquitectura das suas obras.
 
Acabei de ler o seu romance A Paz Enfurecida. A primeira nota que gostava de apresentar é que é um livro arriscado. Arriscado, porque coloca como narrador um moçambicano que utiliza o “seu” português, assente numa transcrição da sua própria oralidade. Para um leitor de Portugal torna-se uma leitura árdua, mesmo difícil, pelo menos até adquirir-se alguma habituação. Mas percebe-se que existe, em Ascêncio de Freitas, uma intenção respeitável: o romance é escrito para o leitor médio moçambicano, talvez mesmo para o “povo”, e, por isso, escreve na sua língua, utilizando não só a sua morfologia e sintaxe peculiares, mas também os seus termos e o seu “calão”. É evidente que esta ambição é um pouco irrealista, pelo menos a médio prazo; por isso, pressente-se que há uma disposição em deixar um testemunho que não se confina aos nossos dias.
 
A trama decorre ao longo de trinta anos da história recente de Moçambique. A personagem principal é um português que assume lutar ao lado da Frelimo contra o colonialismo. É então que conhece o seu melhor amigo, um comandante guerrilheiro, que aparece como uma homem íntegro e obcecadamente empenhado nos objectivos da independência. Quando esta é conquistada, os dois, de forma fraterna mas distinta, iniciam o seu processo de desencanto. De facto, aos poucos e poucos, vão percebendo que o novo governo, muitas vezes fruto da sua inexperiência e da sua impreparação técnica (mas também de maus conselhos), cai no inferno da autocracia, brutalizando a população e os seus necessários aliados, com uma repressão em geral arbitrária, e provocando o afastamento gradual do povo que diz servir. E – o que é mais grave – propiciando o aparecimento da Renamo (em parte, também instigado pelos vizinhos rodesianos e sul-africanos) e da guerra civil. Com ela, agrava-se a situação de miséria e de fome que, como um mancha de óleo alastrando na estrada, se espalha por todo o Moçambique, mas, muito em particular, nos campos e na floresta, onde o Estado não consegue chegar. A população camponesa, principal bastião da Frelimo, que por ela sacrificou vidas e bens, foi, assim, entregue à sua sorte: fome e mais fome, associada a brutalidade de quem, nas cidades, procura só saciar a sua avidez de poder e dinheiro.
 
O retrato que A Paz Enfurecida transmite do poder resultante da independência é devastador: a clique, que domina em Maputo, é constituída por incompetentes, corruptos e assassinos que vai deixar Moçambique numa situação ainda mais desgraçada do que o colonialismo. Mesmo a liberdade, tão sonhada, parece morrer às mãos de algozes que violentam a população por tudo e por nada, que perseguem quem se manifesta contra os poderes instituídos, prendendo-a e encarcerando-a em “campos de reeducação”.
 
E não se julgue que o romance transmite da Renamo uma imagem melhor. Pelo contrário, sofre dos mesmos vícios e males e, por isso, aparece como o outro lado do torno que esmaga o povo, deixando-o como uma massa informe e ensanguentada.
 
 Pressente-se, por isso, em A Paz Enfurecida, uma espécie de ajuste de contas. Não tanto com a Frelimo, nem com Moçambique, mas com os próprios ideais do autor, pois que percebe, no final da vida, que desbaratou a maior parte dela na convicção de princípios que só geraram miséria e fome e que os valores da liberdade, que sempre o orientaram, foram rapidamente esquecidos pelos seus parceiros de luta, mal tomaram conta do poder. No fundo, o romance revela a imensa amargura de quem acreditou que estava no lado certo da vida até que os factos e os homens comprovarem o enorme logro em que caiu.
 
Sei que pratico crime de lesa-majestade crítica ao identificar personagem e autor. A Paz Enfurecida não é autobiografia nem auto-ficção. Mas é inevitável pressentir, nos percursos finais da personagem principal e do seu amigo, uma correlação simbólica com o destino de Ascêncio de Freitas (mesmo sabendo, segundo dados que recolhi, mas não confirmados, que regressou a Portugal, a pedido de Samora Machel, para trabalhar na contra-informação, em nome do Estado moçambicano, e antes de alguns acontecimentos narrados no romance).
 
A Paz Enfurecida é, na minha opinião, um romance irregular. Uso este adjetivo com rigor: com aspetos conseguidos e outros menos. Os mais conseguidos relacionam-se com a forma como caracteriza a realidade da guerrilha e o papel da guerra na formação caracterial dos seus intervenientes e como retrata, em pinceladas amplas, o ambiente social pré e pós-independência. Porém, o romance necessita(va) de um significativo trabalho de edição (que retirasse vários trechos repetitivos) e de soluções narrativas que substituíssem diversos diálogos sentenciosos, com largas tiradas ideológicas e filosóficas, e seguramente com dúbia plausibilidade.
 
Conheci, há mais de dez anos, Ascêncio de Freitas e conversei com ele duas ou três vezes. Fiquei com a ideia de que era um homem mergulhado em constringentes dificuldades materiais, mas que procurava usar as forças que lhe restavam para levar com dignidade férrea as últimas etapas da sua vida. Assinalo apenas o facto, sem o considerar relevante para o presente comentário.
 
Confesso, no entanto, que, quando comecei a ler A Paz Enfurecida, julguei que Ascêncio de Freitas já tivesse morrido. Descobri então que vive em Setúbal, afastado dos meios literários. Intrigou-me, por isso, a estranha poeira de silêncio que cobriu o autor e a sua obra. São poucas (e desactualizadas) as referências que se descobrem na web à sua vida. E, em relação a sua obra, há já muito tempo que não aparece (pelo menos, que eu tenha conhecimento) alguma recensão na comunicação social. Porque será? Será que se considera que não merece atenção dos críticos e especialistas? Ou será que a sua obra é vítima do destino singular de Ascêncio de Freitas e que os motivos que originam este sepulcro de silêncio têm uma raíz política e não literária? Como devem calcular, creio que, tendo em conta o ambiente que nos rodeia, existem razões para estas dúvidas.
 
Por tudo isto, uma última nota que me parece ser de toda a justiça.
 
A única edição existente de A Paz Enfurecida foi realizada pela Editorial Caminho. São conhecidas as acusações que se fazem a esta editora de que a sua linha editorial está demasiado próxima (para não dizer dependente) dos princípios ideológicos do Partido Comunista Português. É inquestionável que muitos exemplos podem ser dados a confirmar esta proximidade. Mas sempre entendi que o seu principal responsável, o editor Zeferino Coelho, era um homem de grande solidez intelectual e que, ao contrário do que se dizia à boca pequena pelos corredores da capital, sempre procurou não sacrificar os valores culturais e literários, que uma editora empenhada deve ter, aos dogmatismos ideológicos dos seus compagnons de route. E a edição deste romance é uma prova mais evidente deste facto, pois desconheço outra, de âmbito literário, que seja tão frontal na acusação aos governos da Frelimo, logo após a independência de Moçambique (num período em que procuravam aplicar cegamente a cartilha marxista-leninista), das terríveis calamidades humanitárias que originaram.
 




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