Por circunstâncias que
não são para aqui chamadas, raramente tenho escrito sobre obras e autores
portugueses.
Mas, como não há regra sem excepção, hoje escrevo sobre Ascêncio de Freitas.
Existem algumas
biografias dele na web. Mas gostava de referir alguns, poucos, dados.
Nasceu há perto de
noventa anos. Na Gafanha da Nazaré. Com pouco mais de vinte anos, em 1948,
partiu para Moçambique e durante mais de trinta anos lá viveu. Fez de tudo
(literalmente de tudo) nesta sua terra de vida. Colaborou nalguns jornais e em 1959
publica o seu primeiro livro de contos: Cães
da Mesma Ninhada. Depois esteve cerca de vinte anos sem publicar. Quando
regressou a Portugal, em 1978, publicou o seu segundo livro (Ontem Era a Madrugada) e, de seguida,
várias colectâneas de contos e romances, alguns deles premiados (é o caso de O Canto da Sangardata, com o Prémio PEN
Clube Português).
Como é natural, grande
parte da sua narrativa tem, como ambiência, Moçambique. No essencial, Ascêncio
de Freitas é um narrador português que escreve sobre a realidade moçambicana.
Confesso que não li a
maior parte dos seus livros. Mas a ideia que tenho, acreditando em quem leu, é
que a sua obra é empenhada, estilisticamente cuidada, com personagens bem
construídas e que procuram personificar várias dimensões da existência. A
comprová-lo, estão não só os Prémios que recebeu, mas algumas recensões
(recordo um prefácio de Eugénio Lisboa, por exemplo), com elogiosas referências
ao seu estilo e à complexa arquitectura das suas obras.
Acabei de ler o seu
romance A Paz Enfurecida. A primeira
nota que gostava de apresentar é que é um livro arriscado. Arriscado, porque
coloca como narrador um moçambicano que utiliza o “seu” português, assente numa
transcrição da sua própria oralidade. Para um leitor de Portugal torna-se uma
leitura árdua, mesmo difícil, pelo menos até adquirir-se alguma habituação. Mas
percebe-se que existe, em Ascêncio de Freitas, uma intenção respeitável: o
romance é escrito para o leitor médio moçambicano, talvez mesmo para o “povo”,
e, por isso, escreve na sua língua, utilizando não só a sua morfologia e
sintaxe peculiares, mas também os seus termos e o seu “calão”. É evidente que
esta ambição é um pouco irrealista, pelo menos a médio prazo; por isso, pressente-se
que há uma disposição em deixar um testemunho que não se confina aos nossos
dias.
A trama decorre ao longo de
trinta anos da história recente de Moçambique. A personagem principal é um
português que assume lutar ao lado da Frelimo contra o colonialismo. É então
que conhece o seu melhor amigo, um comandante guerrilheiro, que aparece como
uma homem íntegro e obcecadamente empenhado nos objectivos da independência. Quando
esta é conquistada, os dois, de forma fraterna mas distinta, iniciam o seu
processo de desencanto. De facto, aos poucos e poucos, vão percebendo que o
novo governo, muitas vezes fruto da sua inexperiência e da sua impreparação
técnica (mas também de maus conselhos), cai no inferno da autocracia,
brutalizando a população e os seus necessários aliados, com uma repressão em
geral arbitrária, e provocando o afastamento gradual do povo que diz servir. E
– o que é mais grave – propiciando o aparecimento da Renamo (em parte, também instigado
pelos vizinhos rodesianos e sul-africanos) e da guerra civil. Com ela, agrava-se
a situação de miséria e de fome que, como um mancha de óleo alastrando na
estrada, se espalha por todo o Moçambique, mas, muito em particular, nos campos
e na floresta, onde o Estado não consegue chegar. A população camponesa,
principal bastião da Frelimo, que por ela sacrificou vidas e bens, foi, assim, entregue
à sua sorte: fome e mais fome, associada a brutalidade de quem, nas cidades,
procura só saciar a sua avidez de poder e dinheiro.
O retrato que A Paz Enfurecida transmite do poder
resultante da independência é devastador: a clique, que domina em Maputo, é
constituída por incompetentes, corruptos e assassinos que vai deixar Moçambique
numa situação ainda mais desgraçada do que o colonialismo. Mesmo a liberdade,
tão sonhada, parece morrer às mãos de algozes que violentam a população por
tudo e por nada, que perseguem quem se manifesta contra os poderes instituídos,
prendendo-a e encarcerando-a em “campos de reeducação”.
E não se julgue que o
romance transmite da Renamo uma imagem melhor. Pelo contrário, sofre dos mesmos
vícios e males e, por isso, aparece como o outro lado do torno que esmaga o
povo, deixando-o como uma massa informe e ensanguentada.
Pressente-se, por isso, em A Paz Enfurecida, uma espécie de ajuste
de contas. Não tanto com a Frelimo, nem com Moçambique, mas com os próprios
ideais do autor, pois que percebe, no final da vida, que desbaratou a maior parte
dela na convicção de princípios que só geraram miséria e fome e que os valores
da liberdade, que sempre o orientaram, foram rapidamente esquecidos pelos seus
parceiros de luta, mal tomaram conta do poder. No fundo, o romance revela a imensa
amargura de quem acreditou que estava no lado certo da vida até que os factos e
os homens comprovarem o enorme logro em que caiu.
Sei que pratico crime de
lesa-majestade crítica ao identificar personagem e autor. A Paz Enfurecida não é autobiografia nem auto-ficção. Mas é
inevitável pressentir, nos percursos finais da personagem principal e do seu
amigo, uma correlação simbólica com o destino de Ascêncio de Freitas (mesmo
sabendo, segundo dados que recolhi, mas não confirmados, que regressou a
Portugal, a pedido de Samora Machel, para trabalhar na contra-informação, em
nome do Estado moçambicano, e antes de alguns acontecimentos narrados no
romance).
A Paz Enfurecida é, na minha opinião, um romance irregular. Uso este adjetivo com rigor:
com aspetos conseguidos e outros menos. Os mais conseguidos relacionam-se com a
forma como caracteriza a realidade da guerrilha e o papel da guerra na formação
caracterial dos seus intervenientes e como retrata, em pinceladas amplas, o
ambiente social pré e pós-independência. Porém, o romance necessita(va) de um
significativo trabalho de edição (que retirasse vários trechos repetitivos) e
de soluções narrativas que substituíssem diversos diálogos sentenciosos, com
largas tiradas ideológicas e filosóficas, e seguramente com dúbia plausibilidade.
Conheci, há mais de dez
anos, Ascêncio de Freitas e conversei com ele duas ou três vezes. Fiquei com a
ideia de que era um homem mergulhado em constringentes dificuldades materiais,
mas que procurava usar as forças que lhe restavam para levar com dignidade
férrea as últimas etapas da sua vida. Assinalo apenas o facto, sem o considerar
relevante para o presente comentário.
Confesso, no entanto,
que, quando comecei a ler A Paz
Enfurecida, julguei que Ascêncio de Freitas já tivesse morrido. Descobri
então que vive em Setúbal, afastado dos meios literários. Intrigou-me, por isso,
a estranha poeira de silêncio que cobriu o autor e a sua obra. São poucas (e
desactualizadas) as referências que se descobrem na web à sua vida. E, em
relação a sua obra, há já muito tempo que não aparece (pelo menos, que eu tenha
conhecimento) alguma recensão na comunicação social. Porque será? Será que se
considera que não merece atenção dos críticos e especialistas? Ou será que a
sua obra é vítima do destino singular de Ascêncio de Freitas e que os motivos
que originam este sepulcro de silêncio têm uma raíz política e não literária?
Como devem calcular, creio que, tendo em conta o ambiente que nos rodeia,
existem razões para estas dúvidas.
Por tudo isto, uma última
nota que me parece ser de toda a justiça.
A única edição existente
de A Paz Enfurecida foi realizada
pela Editorial Caminho. São conhecidas as acusações que se fazem a esta editora
de que a sua linha editorial está demasiado próxima (para não dizer dependente)
dos princípios ideológicos do Partido Comunista Português. É inquestionável que
muitos exemplos podem ser dados a confirmar esta proximidade. Mas sempre entendi
que o seu principal responsável, o editor Zeferino Coelho, era um homem de grande
solidez intelectual e que, ao contrário do que se dizia à boca pequena pelos
corredores da capital, sempre procurou não sacrificar os valores culturais e
literários, que uma editora empenhada deve ter, aos dogmatismos ideológicos dos
seus compagnons de route. E a edição deste romance é uma prova mais evidente
deste facto, pois desconheço outra, de âmbito literário, que seja tão frontal
na acusação aos governos da Frelimo, logo após a independência de Moçambique
(num período em que procuravam aplicar cegamente a cartilha
marxista-leninista), das terríveis calamidades humanitárias que originaram.

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