Estou convencido
que este texto vai parecer um verdadeiro rosário de confissões de ignorância…
Antes do mais, começo por esclarecer que pouco conheço da obra do escritor
espanhol Rubén Caba. Sei apenas que nasceu na década de trinta e que publicou
poesia, romances, literatura de viagens e ensaios históricos, tendo obtido
alguns prémios locais e regionais. Sei também que é filho de outro escritor, Pedro
Caba Landa, um intelectual muito respeitado em toda a Espanha, em especial na
Andaluzia e na Estremadura, pela sua produção poética, narrativa, mas
principalmente ensaística, que sofreu sérias perseguições políticas por parte
do regime franquista, em consequência de um ensaio, publicado no início dos
anos trinta, intitulado Andalucia, su Comunismo y su Canto Jondo.
Mas devo a Rubén
Caba o facto de me ter chamado a atenção, através do seu ensaio histórico La
Odisea de Cabeza de Vaca (escrito em colaboração com Eloísa
Gomez-Lucena), para a extraordinária figura do séc. XVI espanhol que é Alvar
Nuñez Cabeza de Vaca.
Interrogo-me por
que motivos não tomei conhecimento desta personagem até aos dias de hoje. Não
só pela minha formação de base (sou licenciado em História), como por me ter
passado despercebida a edição portuguesa da sua obra Naufrágios, publicada, em
1992, pela Teorema, numa segura tradução de José Colaço Barreiros (e que só
agora li).
De facto, hoje
sei que existe inúmera historiografia em espanhol e em inglês sobre Cabeza de
Vaca, assim como bastante informação na web. Em português, desconheço a
existência de qualquer estudo ou trabalho. Mas, mais uma vez, isso será,
provavelmente, culpa minha…
Para que o
leitor possa compreender algumas das razões do meu fascínio por esta figura e
na eventualidade que haja alguém, como eu, que nunca tenha ouvido falar dela,
vou expor algumas das principais peripécias da sua vida.
Cabeza de Vaca
nasce nos finais do séc. XV, numa família da pequena nobreza, e, ainda bastante
novo (talvez por se encontrar órfão), alista-se no exército espanhol,
participando em diversas campanhas militares e pelejando em várias batalhas
(por exemplo, na batalha de Ravena, integrando as forças da Liga Santa,
organizada pelo papa Júlio II, que enfrentam os exércitos franceses de Luís XII,
até os expulsarem dos territórios italianos).
Mas o que se
destaca nesta vida atribulada é a sua participação na expedição marítima de
Pánfilo de Narváez à Florida. Este, nomeado por Carlos I como “Adelantado” e
Governador das terras a descobrir, vai encabeçar uma expedição, em 1527, em que
Cabeza de Vaca participa como tesoureiro e “alguacil mayor”. Ora, esta
expedição salda-se por um mortífero fiasco.
Constituída por
cinco barcos e seiscentos homens, logo no fim da travessia atlântica, mais de
cento e cinquenta deles abandonam a expedição e ficam em São Domingos. Depois,
nas costas de Cuba, a frota sofre inúmeras tempestades e furacões, destroçando
os navios e matando mais umas largas dezenas de homens. Mesmo assim, o
comandante da expedição decide continuar e, cerca de um ano depois da sua
partida, chega às costas da Flórida (na zona de Tampa Bay). Aí, a saga de
desgraças continua.
Perante a
hostilidade dos indígenas, o mau tempo e uma costa de difícil acesso (cheia de pântanos,
rios e enseadas onde era difícil aportar), Pánfilo de Narváez, contra a opinião
de Cabeza de Vaca e de outros oficiais, toma várias decisões erradas e, entre
elas, a de dividir as forças expedicionárias, enviando homens para terra para
operações de reconhecimento e em busca de eventuais aliados e deixando outros à
guarda dos navios. Começa então o seu absurdo martírio. A pouco e pouco, por
doença, fome e ataques dos índios, os que foram para terra vão morrendo. Os que
ficaram nos barcos, ou são destroçados contra a costa pelos temporais ou tragados
em mar alto pela intempérie (foi o que sucedeu a Pánfilo de Narváez). Os que
sobraram em terra, procuram improvisar a construção de outras embarcações e
inventar armas. Mortos e comidos os cavalos que levavam, alimentam-se de raízes
e frutos, quando os encontram, ou até de lagartos e cobras. Por fim, começam
até a comer os cadáveres dos companheiros.
Entretanto, procurando
regiões onde os indígenas fossem mais conciliadores ou potenciais aliados, vão
subindo pela costa da Flórida até à foz do Mississipi. Rapidamente são feitos
escravos dos índios (os Apalaches e outras tribos). Os poucos que restam são
separados e levados por diversas tribos. Cabeza de Vaca, ao princípio, é
maltratado, passa fome, várias vezes fica à beira da morte, vive nu, até que,
por fim, habitua-se a viver como os indígenas. Depois de muitas peripécias, fixa-se
com uma tribo na ilha de Galveston, na costa do Texas. Durante seis anos, vive
como escravo. Na melhor fase desta estadia, torna-se mercador dos próprios índios,
comerciando com outras tribos, ao serviço daquela que o cativa e mantem. Faz
então várias incursões no interior da América do Norte. Procura não perder o
contato com alguns dos sobreviventes da expedição. Através dos indígenas, de
quem vai aprendendo as línguas, fica a saber que poucos homens resistiram.
Um deles, a
certo passo, consegue curar um índio ferido com uma flecha e que estava a beira
da morte. Tal feito transforma a sua situação da noite para o dia. Os indígenas
decidem trazer-lhes outros doentes e, através de orações e do que conhecem da
anatomia humana (nenhum deles tinha qualquer estudo de medicina), vão curando
moribundos, passando a ser encarados como curandeiros e xamãs. Começam a ser
bem tratados, até adulados, e conseguem juntar-se na ilha de Galveston. Com Cabeza
de Vaca, restam ao todo quatro sobreviventes. Um deles é o negro Estebanico, de
Azamor, que é considerado como o primeiro negro que pisou o território do
futuro Estados Unidos.
Juntos, conseguem
convencer os índios a deixarem-nos sair (sempre com muitos entraves, pois as
diversas tribos resistiam a que eles as abandonassem) e iniciam uma longa
viagem em busca de comunidades espanholas que os recolhessem. Receando, no
entanto, algumas tribos mais aguerridas da costa, decidem começar a subir o Rio
Bravo, procurando fugir delas. Fazem assim uma longa incursão no sul do actual
Estados Unidos, através, segundo se crê, o território do Texas (onde veem pela
primeira vez bisontes), do Novo México e do Arizona, contactando com diversas
tribos e sendo verdadeiramente idolatrados. Agora são diversas comunidades índias
que os seguem, por vezes em conflito. Resolvem então começar a descer, a
caminho do actual México, até que chegam ao rio Sinaloa, entrando em contato
com exploradores espanhóis que os trazem para o “asentamiento” de Culiacán, já
na costa do Pacífico. Atrás deles, segue uma autêntica chusma de indígenas que
os venera.
São levados para
a cidade do México e aí são recebidos com admiração e afecto pelo Governador e
por Hernan Cortés. Entretanto, Cabeza de Vaca decide regressar a Espanha (os
outros ficaram), onde chega, depois de mais algumas peripécias, em 1537. Tinham
passado dez anos de imenso sofrimento e extrema provações desde que partira.
Toda esta
odisseia, o próprio Cabeza de Vaca relata na sua obra Naufrágios, que escreveu
e publicou no final da vida. Esta obra, para além de indiscutíveis qualidades
literárias e narrativas, já que consegue exprimir de uma forma vibrante o
calvário que foi esta expedição e as dolorosas dificuldades por que passou
enquanto escravo dos indígenas, é um importantíssimo documento histórico. Basta
dizer que é a primeira narrativa a descrever o território do actual Estados
Unidos e as suas populações índias (Cabeza de Vaca fascinou-se com os costumes
destas tribos e resolveu, por isso, anotá-los de uma forma detalhada ao longo da
obra). Hoje, há ainda sérias dificuldades em perceber os locais onde realmente
Cabeza de Vaca esteve (é esse um dos principais objetivos do livro de Rubén
Caba, que resolveu “perseguir” e confirmar os locais onde ele andou), mas, de
qualquer forma, é indiscutível que percorreu, com os seus companheiros, boa
parte do Sul e do Sudoeste do actual Estados Unidos.
Mas se esta
expedição e o seu testemunho já seriam mais do que suficientes para perceber a
relevância desta figura histórica, o seu papel na construção do Império
espanhol não ficou por aqui.
À chegada a
Espanha, Cabeza de Vaca é recebido por Carlos V, e, em 1540, é nomeado, pelo
rei, Capitão-geral, Governador e “Adelantado” do Rio de Prata, em substituição
de Pedro de Mendonza, que, entretanto, morrera. Cabeza de Vaca, tremendamente ambicioso,
parece que se esqueceu de tudo o que passara, pois continua obcecado, como uma
boa parte dos seus conterrâneos, em enriquecer no El Dorado que era para eles o
Novo Mundo.
Inicia, então, a
sua segunda expedição ao Continente Americano, agora na América do Sul. Parte
de Cádis, em 1540, chegando em poucos meses à ilha de Santa Catarina, no actual
Brasil.
É já aqui que
tomou conhecimento da fundação de Assunção, junto do rio Paraguai. Decide então
dividir as suas forças: com duas centenas e meia de homens prosseguirá por
terra até aquela povoação, enquanto a sua frota irá até o Rio de Prata e a
Buenos Aires e, a partir daí, subirá o rio até se juntar a eles em Assunção.
Através de
florestas inóspitas, Cabeza de Vaca chega ao rio Iguaçu e, de seguida, aos rios
Uba e Paquiri. Exploradas estas regiões, volta de novo ao rio Iguaçu e aí divide
os seus homens: ele segue pelo rio, enquanto o outro grupo irá por terra até ao
rio Paraná. Foi assim que descobre as gigantescas cataratas de Iguaçu, e,
passando inúmeras vicissitudes, dada a correnteza do rio, lá chegam ao Paraná e
se juntam aos que foram por terra. Decide então que os muitos doentes, que já
existiam, fossem pelo rio Paraguai até Assunção, com jangadas que manda
construir, enquanto seguirá por terra, através do rio Monday.
É assim que, em
1542, chega a Assunção, assumindo as funções de Governador, recebidas de Domingos
de Irala, que tinha governado em regime de substituição, após a morte de Pedro
de Mendonza.
Sem sombra de
dúvidas, Cabeza de Vaca não foi tão bom Governador como explorador. Em
particular, porque nunca conseguiu demover as resistências dos “senhores”
espanhóis da região, já cativados pelo governo de Domingos de Irala. De facto,
face aos índios mais hostis, o novo governador vacila entre as tentativas de
apaziguamento e uma repressão feroz, não agradando, nem com uma atitude nem com
outra, aos colonos instalados.
Além disso, a
enorme ambição de Cabeza de Vaca leva-o a continuar as suas expedições. O seu
objetivo agora era chegar ao Perú por terra, inebriado com relatos de riquezas
nessas regiões. Inicialmente, envia o anterior governador numa expedição que
chega à Ilha de los Orejones (incluída na zona do Pantanal): aí ouvem falar de
peças trabalhadas em ouro e prata e é essa informação que Domingos de Irala
trouxe a Cabeza de Vaca.
Não admira, por
isso, que Cabeza de Vaca tenha organizado uma nova expedição, agora chefiada por
ele, para a região, procurando uma famigerada passagem até ao Perú.
Chegados, de
novo, à já referida ilha, parte significativa dos expedicionários querem ali
ficar (a ilha era tão sedutora que Cabeza de Vaca chamou-a Ilha do Paraíso) e
fundar uma povoação. Mas o Governador recusa-se, já que o seu objectivo ainda
não estava alcançado. Procura continuar a subir os diversos afluentes, tentando
encontrar o tal caminho, sem o conseguir. Deve salientar-se que os
lugares-tenentes de Cabeza de Vaca eram os seus principais rivais no domínio
daquelas regiões (Domingos de Irala, Gonzalo de Mendonza, etc.) e, por isso, estes
vão, naturalmente, conspirando contra ele.
Não admira, por
isso, que, depois de largos meses mergulhados no Chaco Boreal (o Gran Chaco da
guerra entre a Bolívia e o Paraguai no séc. XX), enfrentando a selva e índios
hostis, com falta de géneros e de bens de subsistência, os exploradores se
revoltem contra a persistência de Cabeza de Vaca em continuar a expedição. Aliás,
o próprio sente-se doente, febril e enfraquecido. Por isso, acata a decisão da
maioria de regressar a Assunção.
Termina aqui a
vida de explorador de Cabeza de Vaca, iniciando-se uma outra fase dramática da
sua existência. Doente, sem capacidade de se defender, é alvo de uma “junta”
dos habitantes de Assunção que resolvem depô-lo e prendê-lo. Tiram-no, de sua
casa, algemado e é encarcerado. Os fundamentos da prisão alternam entre abuso
de poder e tibieza com os índios. E nomeiam, em substituição, Domingos de Irala
como Governador.
Fica então preso
durante onze meses, até que, em 1545, o embarcam para Espanha. Aqui, o Conselho
das Índias confirma a condenação e desterra-o em Oran. Mais tarde, já em 1552,
recorre da sentença e é parcialmente reconhecida a sua inocência, uma vez que
lhe retiram a pena de desterro, continuando, no entanto, proibido de regressar
às Américas.
A partir daqui,
pouco se sabe dele. Especula-se sobre o destino dos seus últimos dias (terá ido
para monge?) e nem a data ao certo se sabe da sua morte (1557?, 1560?).
Foi durante este
período que escreveu a obra acima referida e uma outra, intitulada Comentários,
onde descreve o que lhe sucedeu na sua segunda aventura americana. Mais uma
vez, com inúmeras anotações e observações sobre os costumes indígenas.
Parece-me que é
compreensível, por esta compacta biografia, porque é que considero Alvar Nuñez
Cabeza de Vaca uma figura ímpar da História de Espanha. De facto, de um modo
exemplar, ele representa todas as vertentes que assumiram a terrível aventura
que foi a Conquista da América no séc. XVI, corporizando o “Siglo de Oro”
espanhol em termos culturais e civilizacionais.
Ainda hoje se
especula muito sobre a veracidade dos factos narrados, comparando-se, por isso,
as suas obras com a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. Como já referi, foi essa a
motivação da obra de Rubén Caba: comprovar “in loco” a narrativa de Cabeza de
Vaca. Porém, cada vez mais os historiadores reconhecem que, com um grau
variável de ficção, Naufrágios e Comentários descrevem “grosso modo”
as peripécias por que a sua vida passou. Por isso, é hoje inquestionável que,
aliado ao valor documental destas obras, há que destacar a sua enorme relevância
literária e o papel que desempenham na história da narrativa espanhola.
Creio que se percebe que o motivo do meu fascínio por Cabeza de Vaca se relaciona com a
sua vivência tão extrema, em particular se confrontada com a minha acomodada existência
(que não difere muito da de todos os meus amigos e conhecidos…). Até que ponto
posso “conhecer” esta personagem, para além de toda a informação que ele
próprio (e os investigadores posteriores) nos deixou? Porque aquilo que possa
imaginar da sua vida não só me é fisicamente inaceitável como, em consequência
disso, fica bem aquém do que de facto sucedeu. Realmente, parece que o meu
próprio corpo não consegue admitir a experiência porque passou Cabeza de Vaca,
que rejeita compreendê-la. Há como que uma rejeição física, orgânica, em
admitir tamanhas provações e que isso origina uma efectiva incapacidade para as
compreender.
Sendo assim, o
que intriga nesta(s) sua(s) odisseia(s) é a força anímica que o levou a superar
circunstâncias que o (nosso) corpo já não consegue admitir (nem assimilar). E esta rejeição física transfigura a força
anímica de Cabeza de Vaca, fazendo com que ela me pareça quase mítica.
Por isso, pergunto: que “homens” são estes que
conseguiram sobreviver a tão severas condições?
Colocada nestes
termos, fica-se inclinado a pensar que a questão é gerada, antes do mais, pela
distância temporal que nos separa e pelas circunstâncias ambientais da sua
vivência (que estão de todo perdidas).
Mas percebe-se,
de imediato, que esta é uma falsa conclusão. Basta recordar situações de tão
extrema radicalidade vivenciadas mais perto de nós. Repare-se, por exemplo, no
caso de Auschwitz. As descrições do sofrimento das vítimas deste campo são uma
afronta tão brutal ao nosso corpo que nos leva a interrogar que homens são
aqueles que conseguiram suportar sevícias tão “inimagináveis”. Não é esse, pelo
menos em parte, o sentido da pergunta que Primo Levi, também ele sobrevivente
de Auschwitz, coloca no seu romance inaugural Se questo è um uomo (na
tradução portuguesa de Simonetta Cabrita Neto, intitulado Se Isto É Um Homem,
publicado pela Teorema)?
Ou recorde-se a
impressionante obra do escritor russo, de família espanhola, Ruben Gonzalez
Gallego que descreve, em White on Black: A Boy’s story
(versão inglesa do original russo que ganhou o Russian Booker Prize de 2003 e
cuja tradução portuguesa só existe no Brasil na edição da Ediouro), a sua
experiência abominavelmente asfixiante, como doente com paralisa cerebral, nos
orfanatos e asilos soviéticos, em que eram encarceradas as crianças com
deficiência física e mental à espera da morte num regime de abandono e maus
tratos.
A esta
distância, confortáveis burgueses que todos somos um pouco (uns mais, outros
menos, é certo), a vida de Cabeza de Vaca parece a de um ser humano distinto de
nós. E isso faz-nos colocar uma questão perigosa: será que pertence àquela
mesma humanidade que, com esforço, procuramos reconhecer como nossa? Não será
isto uma pretensão demencial?
Os nossos
princípios cristãos (lá estão eles!) levam-nos a responder de forma afirmativa.
Mas, ao mesmo tempo, perguntamo-nos: não será uma arrogância estúpida e cega
considerar-se que pertencemos à mesma Humanidade?
Sim, somos todos
homens. É sabido e aceite a enorme maleabilidade da natureza humana e a sua
excessiva (?) capacidade de adaptação à adversidade das situações. Mas sabe-se
também que essa adaptabilidade transforma o homem, muitas vezes, em
“sub-homens”. Ou em seres míticos. Como classificar aqueles duendes perdidos no
pó do deserto, rodeados da família, vivendo a experiência, bem comum a tantas
regiões da África subsaariana, de que estão gradualmente, sem apelo nem agravo,
a morrer de fome? Ainda serão homens? Ou
deuses?
Não, não temos
dúvida nenhuma: o nosso corpo não consegue aceitar tais vivências.
E isso, nos dias
de hoje, coloca-nos também outra questão: como compreender as vivências
daqueles que procuram, de um modo tão desesperado, atravessar, em riscos
dramáticos de vida, o Mediterrâneo, em busca da Europa, não como o El Dorado de
Cabeza de Vaca, mas como terra de sobrevivência?
Porque não basta
toda a informação que em nosso redor circula para compreender estas situações.
A sua racionalização leva-nos a admitir que são originadas por um Mal absoluto
(passe a redundância), telúrico, que ultrapassa os valores com que calibramos
as nossas vidas. Mas isto bastará para as compreendermos na realidade, quando,
até organicamente, se torna abominável enfrentá-las?
É evidente que
não estou a fazer nenhum apelo absurdo para que se regresse ao campo de
Auschwitz dos tempos do III Reich ou que nos transformemos na sombra
existencial daqueles que hoje atravessam o Mediterrâneo em dramáticas condições
como garante absoluto para compreendermos as suas vivências. Mas também devemos
ter a humildade necessária para percebermos que nunca as podemos compreender de
uma forma integral. E reconhecer que esta distinção está, lamentavelmente, na origem
muitas vezes da segregação e da xenofobia.
Não, em
definitivo, não. Não chega toda a massa de informação em que vivemos
mergulhados para nos reconhecermos com pertencentes à mesma humanidade.


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