quinta-feira, 9 de abril de 2015

BÉATRIX BECK

 
 
 
 
 

Béatrix Beck nasceu na Suíça, em 1914, filha de um poeta belga (Christian Beck) que morreu tinha ela dois anos. A mãe, sozinha, educou-a com enormes dificuldades, trabalhando durante o dia como bibliotecária e à noite como atriz. Com pouco mais de vinte anos, Béatrix Beck casou-se com um judeu apátrida, e no mesmo ano, nasceu a sua única filha e a sua mãe suicida-se. Em 1940, o seu marido morre na II Grande Guerra e ela encontra-se, tal como a mãe, muita nova, viúva e com uma filha pequena na mais estrita pobreza. Para a criar, procura desesperadamente qualquer forma de subsistência, aceitando todo o tipo de trabalhos. Nas horas vagas, escreve e conclui o original do seu primeiro romance, Barny, que consegue dar a ler a Albert Camus. O escritor, entusiasmado com o livro, apresenta-o na Gallimard, que o publica. Não obteve um grande sucesso, mas permitiu-lhe alcançar uma situação profissional mais confortável: André Gide, que tinha conhecido o pai de Béatrix Beck, contrata-a como secretária.

 
Ao seu terceiro romance, no entanto, tudo muda: Léon Morin, prêtre ganha o Goncourt em 1952. Com este prémio, Béatrix Beck resolve os seus problemas financeiros (compra um andar num imóvel onde vive também Sartre, mas que ficará destruído quase por completo, quando a OAS resolve colocar uma bomba na residência deste em 1962), participa na vida literária parisiense e continua a publicar com regularidade, terminando um ciclo de obras de cariz autobiográfico com Le Muet. Aproximou-se, então, do “nouveau roman” e Nathalie Sarraute elogiou-lhe os seus dotes estilísticos, a sua “música”. Mas, em 1966, a sua vida sofre uma nova inflexão: insatisfeita com os mesquinhos jogos palacianos do universo intelectual da “Cidade-Luz”, decide partir para os Estados Unidos e para o Canadá, onde, durante mais de dez anos, dá aulas de literatura em universidades (em Berkeley, Califórnia, na Virgínia, no Québec e em Ontário). É também a altura em que, depois do insucesso de Cou coupé court toujours, a Gallimard se recusa a publicar a sua produção literária, ficando, por isso, sem editor.

 
Profundamente deprimida, resolve regressar a França em 1977 e tentar arranjar um novo editor para as suas narrativas. Com algum esforço, Béatrix Beck consegue publicar Noli e La Décharge numa pequena editora, tendo obtido de novo o reconhecimento crítico. Passa então a publicar na Grasset (que será a sua editora até ao final da vida), onde, com uma regularidade quase anual, vai editando a sua obra (em particular, colectâneas de novelas e contos, pois “especializou-se” em narrativas curtas nesta fase da sua vida literária).

 
Em 2000, já com 87 anos, após a morte da filha, desistiu de publicar. Mas não de escrever. Quando morreu, em 2008, tinha o quarto da casa de repouso, onde passou os últimos anos, repleto de papéis, de todo o tipo, “escrevinhados” com jogos de palavras, invenções vocabulares, pequenas histórias, fábulas, etc.

 
Hoje, está bastante esquecida. Em França, país de que obteve a nacionalidade, depois de quase vinte anos de esforços burocráticos e judiciais, poucos já se lembram dela no ano do centenário do seu nascimento. 

 
Poucos leitores lhe restam. E, por isso, parece que a sua vida se consumiu em palavras, deixando um rasto muito ténue. No fundo, sucedeu-lhe o mesmo que a milhares e milhares de autores que povoam a história da literatura.

 
Alguns detractores da literatura, costumam usar estes autores e estes destinos como exemplos, fazendo um olhar condoído, como se fossem uns pobres “doentes” que optaram por desistir de viver, pois, por incapacidade de agir, se confinaram a transpor em palavras aquilo que não viveram. E que, por fim, parece que essa opção se consumiu em cinza.

 
Sempre achei que esse “olhar” revelava uma tremenda insensibilidade e um abissal erro e que era, isso sim, míope e infantil. Béatrix Beck é um caso exemplar de destino que se focalizou sempre em escrever e em ser escritora. Pelos altos e baixos da sua existência, só procurou escrever e encontrar leitores. No final da vida, pareceu-lhe irrelevante a segunda parte desta premissa. Mas a necessidade de escrever tinha-lhe ficado. No fundo, para além dos acidentes que condicionaram os seus dias, viveu a fazer o que sempre quis.

 
Lá onde ela se encontra, será que ainda achará importante ter leitores? Provavelmente sim. É importante sempre ter leitores. Mas nós, os leitores que a esquecemos e a abandonámos, não devemos lamentar o seu destino: só a arrogância, repito, nos cega ao ponto de não percebermos que viveu com a sua “música”, compondo palavras e frases, e que foi ela que sempre embalou os seus dias, encantando-a com a íntima plenitude da criação.   

 
Não terá sido isso o mais importante?

 
 

  

 



Sem comentários:

Enviar um comentário