segunda-feira, 22 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


 A Bastilha Nunca Desmoronará

Não me esqueço, nem perco a consciência, de que o apoio directo do Estado à criação literária é um assunto polémico, ambíguo e… perigoso.

Aliás, note-se, que a defesa da dimensão transgressora do acto literário e a afirmação da necessidade da sua absoluta liberdade têm sido os argumentos mais consistentes dos que defendem que o Estado não deve ter nenhuma intervenção no acto de criação literária, preconizando que o seu papel se deve limitar à divulgação e ao conhecimento alargado em termos sociais do património literário já constituído, através da escola e da instalação de meios que facilitem a alfabetização, a promoção da literacia e o acesso ao livro e a outros meios de criação e de informação.

No entanto, já se torna menos compreensível que esta preocupação se agudize apenas com a literatura e seja menos reconhecida para com outras actividades artísticas e culturais. De facto, nesta perspectiva da liberdade de expressão e de criação artística, torna-se difícil de entender porque é que a sociedade encara como mais consensual o apoio do Estado à produção teatral, por exemplo, do que à actividade literária…

Há também quem defenda que, no respeitante aos apoios à actividade literária, o Estado deveria limitar-se à dinamização do mercado livreiro, porque, afirmam, numa perspectiva bem característica de certo neoliberalismo, o seu crescimento bastaria para resolver o problema do financiamento de toda a cadeia do Livro, incluindo, obviamente, dos autores. 

Com este objectivo, preconizam, em concreto, o reforço do papel do Estado como cliente, de forma a adquirir mais títulos e exemplares que actualizem permanentemente os fundos bibliográficos das suas redes de bibliotecas e outras instituições (escolas, universidades, etc.). Ou então que apoie a própria produção editorial de forma a esbater os seus custos e a diminuir, por consequência, o preço de venda ao público dos livros, alargando assim as suas possibilidades de aquisição a segmentos sociais com menor poder de compra. Ou ainda que reduza ou apoie os custos de estrutura de editoras e livrarias de forma a dar-lhe maior solidez e resistência às flutuações do mercado. Etc., etc.

Saliento, relativamente à “dinamização do mercado livreiro”, que o Estado já há muito procura satisfazer este objectivo com os seus programas de promoção das literacias e que, como já aqui se referiu, por erros estratégicos ou não, os resultados são pouco mais do que sofríveis. A título de exemplo, recordo, que o Plano Nacional de Leitura criou um programa de selecção de obras (o chamado “Ler+”) que os editores e os livreiros bem aproveitam para promover títulos e reforçar as suas vendas. Pela minha parte, como já salientei, considero que a prioridade dos investimentos públicos deve estar na promoção das literacias; mas isso não deve escamotear a necessidade de integrar programas com outras formas de apoio ao livro e à literatura, como as relacionadas com o apoio directo à criação.

É evidente que o Estado pode e deve “reforçar o seu papel como cliente” com o fito de adquirir fundos bibliográficos para as suas bibliotecas. Simplesmente, como se sabe, a rede de bibliotecas públicas foi concebida e estabelecida para ficar sob a dependência do poder local, e por consequência, não existe, no nosso país, nenhuma “central de compras” (nem creio que fosse uma boa solução). Só que, em parte por este facto, também não existe nenhuma informação fidedigna sobre o volume das chamadas “aquisições Institucionais” (ou públicas), não se sabendo ao certo, no conjunto da administração central e local, qual a sua dimensão financeira nem quantos títulos ou exemplares são adquiridos, tornando-se assim, por conseguinte, difícil calcular até que ponto estas aquisições têm relevância na economia do sector. De qualquer modo, se o reforço destas aquisições pode contribuir para uma melhoria da situação editorial, não pode ser entendida, como é evidente, num papel substitutivo do próprio mercado.

É indiscutível, muito que se questione a sua actuação, que as editoras e as livrarias são agentes culturais muito relevantes e que, por isso mesmo, têm um papel social que as demarca das restantes empresas, e, por conseguinte, devem ser apoiadas. Mas, dada a impossibilidade financeira da universalidade desses apoios (nem financeiramente comportável nem benéfica), é necessário uma complexa definição de critérios que, desde que não sejam correctamente aplicados, podem dar origem a situações discriminatórias e arbitrárias que lesam a concorrência e o funcionamento do mercado. Além disso, só contribuem a médio e a longo prazo, de forma muito indirecta, para uma eventual sustentabilidade da actividade literária, o que não é uma boa perspectiva nem desejável.

Relativamente ao apoio directo do Estado à criação literária, quero deixar bem claro que não sou ingénuo ao ponto de considerar que o Estado não tentará condicionar o acto literário, de forma a domesticá-lo em termos morais e padronizá-lo em termos estéticos.

Convém, no entanto, ter em consideração que, pelo menos nas sociedades democráticas, os Estados nesta matéria são simples executantes da vontade social dominante: é da sociedade, na maior parte das vezes, que “nasce” a vontade de censurar ou de condicionar certas manifestações literárias e que o Estado apenas é, com os meios que tem ao seu dispor, o executante dessa vontade. Neste aspecto, não tenho nenhumas dúvidas sobre este facto.

Por isso mesmo, exige-se que o sistema literário se prepare e organize para esta possibilidade, que, aliás, sempre existiu. É fundamental que o Estado não tenha, nem possa ter, como acima já se percebeu, condições para o fazer. Os criadores literários devem ter, sobre os abusos e prepotências do Estado, uma inquebrável vigilância, individual e colectiva, procurando condicionar os seus julgamentos morais e estéticos. Daí a importância crucial que devem ter as organizações cívicas que congregam os criadores literários em defesa da sua autonomia e na denúncia desses abusos que o Estado perpetre ou pretenda perpetrar, necessitando, para isso, de ter alguma força e relevância social. E a defesa desta autonomia deve ser um bastião que congregue todos os criadores literários, sem falhas nem discussões. Mesmo que algumas das posições dos seus congéneres, expressas nas suas obras, se tornem incómodas, por excesso de independência em relação aos padrões morais e estéticos reconhecidos num determinado momento pela sociedade.

Repare-se que os vários apoios indirectos à criação literária, que o Estado já hoje concede, nunca geraram, que se tenha conhecimento, particulares constrangimentos em relação à autonomia da criação literária, com excepção dos resultantes do facto de os autores e das suas obras já integrarem o sistema literário e, por isso mesmo, já estarem sujeitos a uma consequente avaliação cultural e literária. Mas é indiscutível que a natureza destes apoios é limitada, pois que assentam na fase posterior à criação da obra e visam apenas a sua maior e mais ampla divulgação.

Além disso, também tenho consciência que as entidades da sociedade civil que congregam os escritores serão sempre relativamente frágeis. Essa fragilidade, em grande parte, deriva do simples facto de os escritores não possuírem nenhum estatuto de grupo (ou classe) profissional (não é por acaso que, no nosso país, a entidade com maior relevância e peso social seja a Sociedade Portuguesa dos Autores); mas os escritores, aproveitando a circunstância de a sociedade ainda lhes conceder o estatuto de serem porta-vozes do “sentido cívico”, sempre têm conseguido apontar, pelo menos nas sociedades democráticas, com a sua pena, as situações de prepotência dos podres públicos, em nome da defesa das liberdades e garantias individuais.

Também não tenho dúvidas de que é bastante difícil comprovar factualmente que o Estado teve ou não atitudes discriminatórias, em termos éticos e/ou estéticos, em relação a certos projectos, mesmo que sejam aplicados procedimentos transparentes e critérios rigorosos e objectivos. No quadro de uma matéria inevitavelmente subjectiva, como é a avaliação qualitativa de projectos literários, haverá sempre margem para dúvidas e incertezas.

Como se deve calcular, nem que seja pela minha formação libertária (que muito prezo), estou bem longe de defender uma estatização da actividade literária (assim como de qualquer actividade social e económica). Simplesmente, preconizo um maior e melhor apoio do Estado na presente conjuntura da actividade literária e editorial, desejando que se efectue a curto prazo (e num prazo o mais curto possível). Aliás, nada do que aqui propus está longe do que já está estruturado e organizado em boa parte dos países que assentam a sua vida pública em regimes democráticos.

Haverá, como é evidente, sempre projectos literários (e excelentes, ninguém tenha dúvidas) que não necessitam de nenhum apoio do Estado para que consigam subsistir e sejam até rentáveis, como haverá sempre quem considere que o sistema literário, com maior ou menor participação do Estado, será sempre coercivo e castrador da criatividade individual. Simplesmente, e retomando o problema do princípio, a questão toda está em saber se uma maior intervenção dos podres públicos, criando uma maior sustentabilidade à actividade literária, poderá ou não libertá-la, pelo menos em parte, da tirania do sistema de mercado, possibilitando o aparecimento de uma diversidade de propostas estéticas que não estejam tão sujeitas ao gosto dominante.

Regressando à figura de Sade, gostaria de afirmar que, lamentavelmente, tenho a absoluta certeza que a Bastilha nunca desmoronará, e que o buraco de agulha, por onde passará a fragilidade da criação literária (e artística), será sempre entre a morte (a guilhotina), pelo menos simbólica, e Charendon (a loucura).

A nós, à actual sociedade, ficará apenas a tremenda responsabilidade de saber como é que se consegue levar a carta a Garcia.

A imagem integra a Biblioteca Digital Gallica.

Lisboa, Abril de2021/Fevereiro de 2022

 

José Manuel Cortês


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