segunda-feira, 15 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 

III

 O Ofício de Escrever - 1

Como já referi, é absolutamente indiscutível que o criador literário, como produtor de um bem, seja remunerado pela sua produção. A questão está em saber se, na sua qualidade de produtor de um bem de valor objectivamente minoritário em termos sociais, esta remuneração lhe dá condições para garantir a sua subsistência e, por conseguinte, para que possa perspectivar a sua profissionalização.

Ora, como já se percebeu, as possibilidades de um escritor se profissionalizar são muito difíceis, fortuitas e excepcionais. E, no nosso país, com um mercado pequeno e com uma literacia diminuta e pouco enraizada, essas hipóteses são ainda mais árduas e complexas.

Perante este cenário, os escritores estão condicionados a seguir três alternativas possíveis como forma de subsistência: ou aceitam esta situação como uma inevitabilidade e procuram outra fonte alternativa de rendimento, isto é, a entenderem a sua actividade primordial como complementar e/ou marginal, assumindo-a num registo mais ou menos amadorístico (dedicando-lhe apenas os seus tempos livres, e aproveitando, paralelamente, o seu “background” cultural, resultante da sua paixão pela literatura, para outras actividades profissionais); ou procuram aproveitar as competências que desenvolveram com esta paixão e orientam-nas para outras tarefas e áreas de criação em complemento da sua produção mais estritamente literária; ou, por último, buscam, de forma mais ou menos criativa, aproximar-se do seu possível leitor, optando por “soluções” que perspectivam que sejam do seu agrado, tentando dessa forma expressar a sua visão do mundo através de “modelos” mais consentâneos com os gostos estéticos e literários dominantes.  

Em resumo: a ambição, inteiramente legítima, dos escritores se profissionalizarem voltou a colocar em primeiro plano, como problemática incontornável, a matriz dual da criação literária (e artística) que inicialmente se referiu: a tensão existente entre o acto artístico, entendido, na concepção de Georges Bataille, como soberano e livre, e a sua função comunicacional.

Saliente-se que estas alternativas na forma de estar no “negócio dos livros”, como diria Roberto Bolaño, têm sido, na generalidade, opções distintas conforme a actividade literária dos autores: pela primeira alternativa, orientam-se principalmente os que se dedicam à poesia, ao ensaísmo, ou à produção de obras que procuram a fusão de géneros e que têm uma dimensão mais experimental, já que, por opção voluntária, ou “empurrados” pelas circunstâncias, tiveram de se adaptar e aceitar esta situação; pelas restantes alternativas, optam principalmente os narradores.

Tendo em consideração esta distinção, percebe-se assim certas características da presente actividade literária.

Por um lado, compreende-se melhor por que existe a ideia generalizada (eu diria mesmo o lugar-comum) de que certa produção literária, em particular a poesia, tem um estatuto mais “nobre”, visto que é encarada consensualmente como não estando dependente da busca de resultados materiais e que, por isso mesmo, está mais próxima da matriz da criação artística. Por outro, permite perceber o “enfeudamento”, há várias décadas, dos cultores destas expressões literárias às actividades académicas. De facto, a maior parte dos produtores destes textos literários são hoje professores nos diversos graus de ensino, e, só excepcionalmente, têm outras profissões, como, por exemplo, a diplomacia ou as actividades liberais (medicina, advocacia, etc.), que lhes dão maiores possibilidades de gestão do tempo, ou se dedicam a tarefas editoriais e livreiras, como se a sua paixão pela literatura os obrigasse a viver em órbita dos livros. Esta relação profissional com o ensino das humanidades e da literatura trouxe evidentes benefícios para a produção literária, em particular para a poética, principalmente devido ao conhecimento mais profundo, exaustivo e sistemático, dos “materiais” literários e integrantes da língua (fonológicos, semânticos, etc.), produzindo indiscutíveis resultados em complexidade e densidade; no entanto, há também quem considere que esta relação talvez tenha contribuído para que a poesia se tenha afastado da sua tradição oral, perdendo dessa forma a sua dimensão mais popular.

Quanto aos narradores que optaram por canalizar a sua competência para outras actividades criativas como forma de subsistência, é importante assinalar que esta opção existe desde que apareceu a imprensa escrita e se consolidou, mais tarde, o mercado livreiro: boa parte dos narradores, nos últimos dois séculos e meio, foram também jornalistas, cronistas ou tradutores e complementaram desta forma os rendimentos que obtinham com a produção e venda das suas obras literárias orientadas para o mercado livreiro. Hoje, com o desenvolvimento de inúmeras manifestações artísticas e lúdicas, onde a competência narrativa dos escritores pode ser útil, há muito mais possibilidades de obter rendimentos mais proveitosos a escrever (basta recordar o guionismo para o cinema, para séries e programas de televisão, para a publicidade, os vídeo-clips ou os jogos electrónicos) sem ser com a sua produção estritamente literária. Como é evidente, também esta conexão com outras actividades narrativas foi trazendo, em maior ou menor grau conforme os autores, fortes “marcas” para a narrativa de cariz literário, alterando-a (como já foi exaustivamente analisado) em termos estéticos e provocando mutações indeléveis nos seus actuais modelos.

Por fim, quanto aos narradores que decidiram (ou tiveram a possibilidade…) de manter as suas competências no campo estrito da literatura, recordo que foi a sua ambição de profissionalização que os motivou a criar modelos narrativos que enfatizaram a componente comunicacional da criação literária, de forma a atingirem um maior número de leitores e a garantirem assim um rendimento financeiro mais expressivo.

É, por isso, sem sombra de dúvida, que alguns deles cultivaram e desenvolveram os inúmeros subgéneros narrativos que complexificaram de uma forma exponencial o universo literário. Hoje, torna-se difícil (e inútil) não reconhecer a dimensão criativa dos cultores destes subgéneros narrativos. Os seus autores mais notáveis conseguiram manifestar a sua visão do mundo através de modelos e formulas já estabelecidos (e que eles muitas vezes recriaram), e, para isso, basta recordar as obras de Chandler, Le Carré, Le Guin ou Ende, para apenas referir alguns dos mais importantes, que conseguiram desbravar caminhos na compreensão da turbulência do comportamento humano e na forma como se integra e relaciona com a História, dando novas dimensões ao universo literário.

Em síntese, a ambição dos autores em se profissionalizarem levou a que a matriz dual da criação literária e artística funcionasse como dois pólos magnéticos que estruturaram e dividiram o universo literário em dois campos distintos que, com a sua força de atracção, obrigaram os escritores e a criação literária a uma deriva dialéctica: por um lado, o preenchido pelos escritores centrados principalmente na criação inovadora de formas e modelos literários; por outro, o ocupado pelos autores que canalizam a sua capacidade criativa para soluções literárias mais comunicacionais, procurando inovar sem esquecer o seu destinatário - o leitor (entendendo-se este, como disse Pierre Guyotat, como Figura e não tanto como entidade concreta e circunstanciada).

Estes dois campos têm, obviamente, orientações estéticas e literárias não só distintas, mas, muitas vezes, antagónicas (e conflituosas), levando, genericamente, a que os cultores que integram um dos campos minimizem (e até desprezem) a capacidade criativa dos do outro campo.

Mas também é evidente que existe entre estes dois campos, como não poderia deixar de ser, níveis acentuados de porosidade e de comunicabilidade. Mais: é minha inteira convicção (quer isto dizer, que é a minha visão programática em relação à literatura) que a actual dinâmica do universo literário resulta das tentativas dos mais relevantes dos seus criadores em mesclar e fundir os contributos inovadores dos autores do primeiro campo literário com as necessidades, sempre determinantes, de comunicar e cativar novos públicos dos do segundo. 

Direitos de imagem do manuscrito de Stendhal pertencentes à Bibliothèque municipale de Grenoble

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