III
O Ofício de Escrever - 1
Como já referi, é absolutamente indiscutível
que o criador literário, como produtor de um bem, seja remunerado pela sua
produção. A questão está em saber se, na sua qualidade de produtor de um bem de
valor objectivamente minoritário em termos sociais, esta remuneração lhe dá
condições para garantir a sua subsistência e, por conseguinte, para que possa perspectivar
a sua profissionalização.
Ora, como já se percebeu, as
possibilidades de um escritor se profissionalizar são muito difíceis, fortuitas
e excepcionais. E, no nosso país, com um mercado pequeno e com uma literacia
diminuta e pouco enraizada, essas hipóteses são ainda mais árduas e complexas.
Perante este cenário, os escritores
estão condicionados a seguir três alternativas possíveis como forma de
subsistência: ou aceitam esta situação como uma inevitabilidade e procuram
outra fonte alternativa de rendimento, isto é, a entenderem a sua actividade
primordial como complementar e/ou marginal, assumindo-a num registo mais ou
menos amadorístico (dedicando-lhe apenas os seus tempos livres, e aproveitando,
paralelamente, o seu “background” cultural, resultante da sua paixão pela
literatura, para outras actividades profissionais); ou procuram aproveitar as
competências que desenvolveram com esta paixão e orientam-nas para outras tarefas
e áreas de criação em complemento da sua produção mais estritamente literária;
ou, por último, buscam, de forma mais ou menos criativa, aproximar-se do seu
possível leitor, optando por “soluções” que perspectivam que sejam do seu
agrado, tentando dessa forma expressar a sua visão do mundo através de
“modelos” mais consentâneos com os gostos estéticos e literários dominantes.
Em resumo: a ambição, inteiramente
legítima, dos escritores se profissionalizarem voltou a colocar em primeiro
plano, como problemática incontornável, a matriz dual da criação literária (e artística)
que inicialmente se referiu: a tensão existente entre o acto artístico,
entendido, na concepção de Georges Bataille, como soberano e livre, e a sua
função comunicacional.
Saliente-se que estas alternativas na
forma de estar no “negócio dos livros”, como diria Roberto Bolaño, têm sido, na
generalidade, opções distintas conforme a actividade literária dos autores:
pela primeira alternativa, orientam-se principalmente os que se dedicam à
poesia, ao ensaísmo, ou à produção de obras que procuram a fusão de géneros e
que têm uma dimensão mais experimental, já que, por opção voluntária, ou
“empurrados” pelas circunstâncias, tiveram de se adaptar e aceitar esta
situação; pelas restantes alternativas, optam principalmente os narradores.
Tendo em consideração esta distinção,
percebe-se assim certas características da presente actividade literária.
Por um lado, compreende-se melhor por
que existe a ideia generalizada (eu diria mesmo o lugar-comum) de que certa
produção literária, em particular a poesia, tem um estatuto mais “nobre”, visto
que é encarada consensualmente como não estando dependente da busca de
resultados materiais e que, por isso mesmo, está mais próxima da matriz da
criação artística. Por outro, permite perceber o “enfeudamento”, há várias
décadas, dos cultores destas expressões literárias às actividades académicas. De
facto, a maior parte dos produtores destes textos literários são hoje
professores nos diversos graus de ensino, e, só excepcionalmente, têm outras profissões,
como, por exemplo, a diplomacia ou as actividades liberais (medicina, advocacia,
etc.), que lhes dão maiores possibilidades de gestão do tempo, ou se dedicam a
tarefas editoriais e livreiras, como se a sua paixão pela literatura os
obrigasse a viver em órbita dos livros. Esta relação profissional com o ensino
das humanidades e da literatura trouxe evidentes benefícios para a produção
literária, em particular para a poética, principalmente devido ao conhecimento
mais profundo, exaustivo e sistemático, dos “materiais” literários e
integrantes da língua (fonológicos, semânticos, etc.), produzindo indiscutíveis
resultados em complexidade e densidade; no entanto, há também quem considere
que esta relação talvez tenha contribuído para que a poesia se tenha afastado
da sua tradição oral, perdendo dessa forma a sua dimensão mais popular.
Quanto aos narradores que optaram por
canalizar a sua competência para outras actividades criativas como forma de
subsistência, é importante assinalar que esta opção existe desde que apareceu a
imprensa escrita e se consolidou, mais tarde, o mercado livreiro: boa parte dos
narradores, nos últimos dois séculos e meio, foram também jornalistas,
cronistas ou tradutores e complementaram desta forma os rendimentos que
obtinham com a produção e venda das suas obras literárias orientadas para o
mercado livreiro. Hoje, com o desenvolvimento de inúmeras manifestações
artísticas e lúdicas, onde a competência narrativa dos escritores pode ser
útil, há muito mais possibilidades de obter rendimentos mais proveitosos a
escrever (basta recordar o guionismo para o cinema, para séries e programas de
televisão, para a publicidade, os vídeo-clips ou os jogos electrónicos) sem ser
com a sua produção estritamente literária. Como é evidente, também esta conexão
com outras actividades narrativas foi trazendo, em maior ou menor grau conforme
os autores, fortes “marcas” para a narrativa de cariz literário, alterando-a
(como já foi exaustivamente analisado) em termos estéticos e provocando
mutações indeléveis nos seus actuais modelos.
Por fim, quanto aos narradores que
decidiram (ou tiveram a possibilidade…) de manter as suas competências no campo
estrito da literatura, recordo que foi a sua ambição de profissionalização que os
motivou a criar modelos narrativos que enfatizaram a componente comunicacional
da criação literária, de forma a atingirem um maior número de leitores e a
garantirem assim um rendimento financeiro mais expressivo.
É, por isso, sem sombra de dúvida,
que alguns deles cultivaram e desenvolveram os inúmeros subgéneros narrativos
que complexificaram de uma forma exponencial o universo literário. Hoje,
torna-se difícil (e inútil) não reconhecer a dimensão criativa dos cultores
destes subgéneros narrativos. Os seus autores mais notáveis conseguiram
manifestar a sua visão do mundo através de modelos e formulas já estabelecidos
(e que eles muitas vezes recriaram), e, para isso, basta recordar as obras de
Chandler, Le Carré, Le Guin ou Ende, para apenas referir alguns dos mais
importantes, que conseguiram desbravar caminhos na compreensão da turbulência
do comportamento humano e na forma como se integra e relaciona com a História,
dando novas dimensões ao universo literário.
Em síntese, a ambição dos autores em
se profissionalizarem levou a que a matriz dual da criação literária e
artística funcionasse como dois pólos magnéticos que estruturaram e dividiram o
universo literário em dois campos distintos que, com a sua força de atracção,
obrigaram os escritores e a criação literária a uma deriva dialéctica: por um
lado, o preenchido pelos escritores centrados principalmente na criação
inovadora de formas e modelos literários; por outro, o ocupado pelos autores
que canalizam a sua capacidade criativa para soluções literárias mais
comunicacionais, procurando inovar sem esquecer o seu destinatário - o leitor
(entendendo-se este, como disse Pierre Guyotat, como Figura e não tanto como
entidade concreta e circunstanciada).
Estes dois campos têm, obviamente,
orientações estéticas e literárias não só distintas, mas, muitas vezes,
antagónicas (e conflituosas), levando, genericamente, a que os cultores que
integram um dos campos minimizem (e até desprezem) a capacidade criativa dos do
outro campo.
Mas também é evidente que existe entre
estes dois campos, como não poderia deixar de ser, níveis acentuados de
porosidade e de comunicabilidade. Mais: é minha inteira convicção (quer isto
dizer, que é a minha visão programática em relação à literatura) que a actual
dinâmica do universo literário resulta das tentativas dos mais relevantes dos
seus criadores em mesclar e fundir os contributos inovadores dos autores do
primeiro campo literário com as necessidades, sempre determinantes, de
comunicar e cativar novos públicos dos do segundo.

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