O Ofício de Escrever - 2
Mas esta divisão, para além do
confronto estético e literário, está também a ter cada vez mais reflexos na
produção editorial e no comércio livreiro. Como se compreende, os autores, que
dão menos importância aos resultados remuneratórios do seu trabalho, têm
propiciado e estimulado (e até defendido) uma produção editorial mais
artesanal, favorecida com o aparecimento de novas tecnologias; os que se
preocupam com a remuneração, e perspectivam mesmo uma profissionalização,
preferem um universo editorial mais fortemente empresarial que dê continuidade,
e se possível com maior eficácia e impacto social, ao modelo já existente. O
primeiro campo criou condições para que aparecessem estruturas editoriais mais
leves, de pequena dimensão, produtoras de baixas tiragens e orientadas para um
circuito comercial restrito e mais adequado aos seus potenciais destinatários.
O outro, para estruturas empresariais cada vez mais sólidas e consistentes (daí
o crescente fenómeno da fusão de editoras), orientadas para um universo
comercial cada vez mais amplo e que ultrapasse até o espaço das livrarias
convencionais.
Estas constatações permitem perceber
que a literatura, fruto da evolução histórica que foi assumindo durante os
últimos dois séculos, transformou-se, malgré tout, numa realidade cada vez mais
complexa e que a imagem romântica do autor isolado, completamente à margem da
sociedade e da realidade material, procurando, de forma soberana e livre, criar
a sua obra, sem ter, como preocupação primeira, a sua receptividade social e o
seu destinatário, e que ainda hoje se vê muitas vezes difundida, se tornou
muito circunscrita e invulgar. Pelo contrário, o desejo de “ser escritor”
transformou os autores em “artesãos da escrita”, isto é, obrigados a uma actividade
polimorfa, desdobrada em múltiplas vertentes criativas, o que pressupõe a
existência de uma estrutura de suporte, feita de conexões com inúmeras pessoas
e entidades, que garanta ao autor concretizar a sua dimensão criadora de uma
forma mais ou menos harmoniosa e coerente e que possibilite aproximar a sua
obra do maior número de leitores. O desejo de “ser escritor” transformou os
autores em “produtores de conteúdos” (se considerarem, como é o meu caso, esta expressão
horrorosa e obscena, mas que permite perceber naquilo que se transformou este
“ofício”, poderão sempre substitui-la por uma expressão francesa, que tem o
mesmo sentido, de “scripteur”) que, em complemento da produção de obras
concebidas e orientadas directamente para o mercado livreiro, se dedicam a
inúmeras tarefas e funções redactoriais e narrativas para diversos canais de
comunicação.
Convém, no entanto, entender, que
esta divisão, que sempre existiu, está presentemente a agravar-se nas suas
consequências editoriais e livreiras, encaminhando a produção literária para um
impasse que só lhe pode gerar uma maior fragilidade. Porque, de facto, é de
todo impensável, como sucede sistematicamente com a primeira opção editorial, a
existência de um universo literário sem que os criadores recebam uma
remuneração digna pelo seu trabalho; mas também parece acentuadamente
contraproducente que a produção literária esteja inteiramente sujeita às leis
do mercado, dado que esta situação, como já se referiu, asfixiará a sua
dimensão de confronto com os valores estéticos e éticos dominantes, como está a
suceder com a segunda.
Ora, em países, como é o caso do
nosso, em que os fracos hábitos de leitura (entre outras razões) geram um débil
consumo de livros, as diferenças de resultados (em dimensão das tiragens e de
numero de livros vendidos) entre a produção literária dos dois campos são pouco
relevantes, ficando-se com a ideia de que os seus distintos objectivos
estéticos, literários e sociais se tornaram, pelos piores motivos, promíscuos,
e generalizando-se a sensação de que a literatura se transformou numa
manifestação artística informe, destinada a um grupo social diminuto e, por
isso mesmo, cada vez mais anacrónica.
Por isso, pode afirmar-se que, para
além das motivações subjectivas (ou mais pessoais…) de interacção com o mundo,
parece que aquilo que hoje move os autores no seu ofício é mais o
reconhecimento do seu trabalho nesse grupo social diminuto (a dita
“visibilidade” que referia António Guerreiro, numa das suas recentes crónicas
no jornal Público), com o consequente prestígio e as possibilidades de receber
propostas e/ou abraçar projectos melhor remunerados, do que o que recebem como
resultado da venda no mercado livreiro das suas obras estritamente literárias.
Daí que se compreenda como é cada vez
mais vital para os escritores, em termos remuneratórios, a venda de direitos
das suas obras para outros mercados, através de contratos de tradução e/ou
edição, ou a obtenção de um prémio literário de alguma relevância financeira (o
que talvez explique a sua proliferação, para além, obviamente, do prestígio
social que dá aos promotores a sua existência): sem conseguir atingir nenhum
destes objectivos, qualquer obra, seja qual for o seu mérito literário, está
confinada a um relativo insucesso financeiro para o autor, mesmo que obtenha
alguma dimensão de vendas.
É, por isso, forçoso constatar que
este conjunto de situações condicionantes, que os escritores foram mais ou
menos forçados a procurar, para poder sobreviver e profissionalizar-se, levou
inevitavelmente à escassez da matéria-prima fundamental para uma qualificada
produção literária (tempo) e desmotiva, pela dificuldade de penetrar num
universo muito fechado e com relações tentaculares (e ao mesmo tempo muito
rarefeito), qualquer “jovem” criador a desejar nele afirmar-se.
Neste estrito sentido, pode dizer-se que a acentuada bipolaridade em que se
encontra actualmente a criação literária, com as suas inevitáveis consequências
editoriais e comerciais, está a provocar uma gradual asfixia ao universo
literário e o seu empobrecimento.
Por último, é importante também
reafirmar que não se pretende com estas considerações prognosticar qualquer
apocalíptico fim da literatura. A literatura faz parte do equilíbrio do mundo.
Contar histórias e cantar a beleza e o encanto é parte integrante da natureza
humana. As motivações da sua origem mantêm-se, obviamente, e estarão, pelo
contrário, cada vez mais prementes e intensas. Nem creio que seja sequer
admissível acreditar que o “império da imagem” vá silenciar o verbo (como
explicou um filósofo bem conhecido, Fernando Savater: a imagem sem a palavra
não passa de um “puro ornamento ou truque ilusionista”). Só que é fundamental
descobrir soluções que permitam que o desejo de ter direito à palavra e à
leitura se mantenha e reforce, e que caminho deve seguir a literatura, num
esforço sem tréguas nem lamentações inúteis. Ou por outras palavras: como é que
a literatura poderá chegar ao seu natural destinatário, o leitor, mantendo a
sua dinâmica criativa e o seu papel de questionamento do mundo e permitindo, ao
mesmo tempo, que os seus criadores tenham uma remuneração digna pelo seu
trabalho sem que as suas obras estejam completamente sujeitas ao mercado?
Foto de Eamonn McCabe do escritório de Graham Swift.

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