Em Casa dos Outros
É evidente que os esforços públicos
no domínio literário não se têm limitado à promoção das literacias. Nem devem.
Mesmo no caso português, como um
pouco por todo o lado, o Estado apoia as iniciativas das associações da
sociedade civil que agregam escritores e incentiva a existência de prémios que
reconheçam o mérito do seu trabalho. Mas esses prémios, dada a situação remuneratória
em que a maioria dos escritores se encontra, tornaram-se, mais do que uma forma
de reconhecimento do mérito de obras e de autores, num meio de sobrevivência,
pervertendo o seu sentido, como já se referiu. Em muitos casos, dadas as
diminutas tiragens actualmente existentes, a fronteira entre o sucesso ou o
fiasco de uma obra em termos financeiros, está mais entre ela conseguir ou não
obter um prémio literário, principalmente se este for de algum montante
pecuniário significativo, do que nas vendas de exemplares que conseguiu
atingir. Imagine-se, por conseguinte, a pressão que este facto gera sobre as
entidades e os júris que os concedem e como esta situação pode perverter a sua
existência…
Uma forma de intervenção do Estado,
que já tem mais relevância directa na situação financeira dos autores, é o
apoio à tradução e à internacionalização das suas obras.
De facto, presentemente, o(s)
investimento(s) necessário(s) para efectuar traduções (em particular, de ou
para línguas com um mercado literário de menor dimensão, isto é, de obras que
sejam oriundas de um espaço exterior ao universo anglo-saxónico, espanhol ou
francês) leva a que sejam encaradas pelas empresas de edição como projectos
quase impossíveis, tendo em conta o número muito reduzido de tradutores
qualificados, as perspectivas do mercado potencial e as consequentes pequenas
tiragens: basta imaginar os custos de tradução de uma obra, por exemplo, de
português para dinamarquês ou vice-versa, para perceber como é difícil obter o
retorno comercial que compense a sua edição.
Já por diversas vezes referi a
dimensão nefasta desta situação em termos civilizacionais: continuo a crer que
a literatura (bom, sejamos generosos, também o cinema) é a melhor via para dar
a conhecer (e a compreender) uma cultura e o seu respectivo povo, em todas as
suas vertentes, e como a inexistência de traduções literárias pode ser (e é)
motivo para o aparecimento de sentimentos xenófobos e racistas, geradores de
exclusões sociais e de incompreensões que potencializam todo o tipo de
conflitos.
Compreende-se assim os motivos por
que, quase por todo o mundo, os Estados decidiram apoiar as traduções das obras
geradas nos seus países e a internacionalização das suas literaturas, criando
programas que compensem, pelo menos parcialmente, os custos de tradução e de
edição, e intervindo em complemento da acção contínua dos agentes literários
(quando os há, o que é raro no nosso país).
Mas estes programas, para utilizar um
jargão economicista, intervém apenas ao nível da oferta e, mais uma vez, isto
só não chega: é fundamental a constituição de públicos nos diferentes países ou
universos idiomáticos, curiosos e interessados em conhecer e ler obras das
distintas literaturas nacionais, para que os editores se sintam estimulados à realização
de traduções e edições.
Daí que estes programas sejam, em
complemento, acompanhados por acções e iniciativas que divulguem autores, obras
e literaturas nos diversos países, em geral resultantes de parcerias com
agentes locais (onde se destacam os editores e as associações de editores, mas
não só). Também, mais uma vez, a comunicação social joga nestas iniciativas um
importante papel, dada a repercussão que poderá obter a presença de um certo
autor ou a representação de uma literatura num determinado público leitor.
Muitas dessas iniciativas passam pela
participação em eventos, tais como em feiras do livro e certos festivais
literários, que já alcançaram, em resultado da sua periodicidade regular e do
seu histórico, uma relevância e uma notoriedade que naturalmente atraem a
comunicação social do seu país e até internacional. Por isso mesmo, a presença
de autores ou de uma determinada literatura nesses eventos poderão ser uma
mais-valia promocional indiscutível e com resultados facilmente comprováveis.
Simplesmente, a participação nessas
iniciativas, principalmente de “embaixadas” representativas de uma literatura,
tem custos muito elevados. Necessitam, por conseguinte, de ser muito bem
ponderadas, perspectivando com rigor a sua utilidade estratégica e eliminando
quaisquer interesses particulares que as motive. Além disso, deve
compreender-se, dado os investimentos avultados que exigem, que o seu interesse
não se limite apenas aos objectivos promocionais de uma literatura, e que se
ambicione, com estas participações, não só a dar visibilidade a uma literatura,
mas ao país no seu todo, de modo a que estas iniciativas promocionais alcancem
benefícios para um conjunto alargado de actividades económicas e sociais e não
apenas literárias. No fundo, deseja-se, a reboque da literatura, atingir outros
resultados (turísticos, comerciais, de captação de investimentos, etc.), com o
intuito de que esses benefícios tenham repercussões globais a nível nacional.
Também é compreensível que se encare
com desdém e que se encare censurável este aproveitamento economicista da
actividade literária. Mas, mesmo considerando a imensa relevância simbólica da
projecção internacional de uma literatura nacional, tem de se aceitar que se
possa achar como um despesismo excessivo estas “embaixadas” internacionais,
dados os investimentos necessários, se elas não contribuírem para a imagem de
prestígio do país no seu todo, no contexto onde se realizam, e não consigam,
deste modo, obter resultados que tenham repercussões positivas para um leque
alargado de actividades económicas e sociais.
Repare-se, no entanto, como, nestas
circunstâncias, já se está longe da criação literária como acto individual e
soberano, e, pelo contrário, se transfigurou num bem com um alcance claramente extraliterário,
envolvendo até agentes económicos e sociais que, possivelmente, nada têm a ver
com o seu universo. Aqui a literatura transformou-se numa marca simbólica de um
povo ou de um país, representando a sua cultura e o seu modo de estar.
É evidente que a importância para um
povo do seu património literário está muito para além destas situações
concretas de representação nacional. Mas deve ser também compreensível que os
escritores, assim como os restantes agentes do sector do Livro, desejem ver
reconhecido, tal como sucede com outras actividades artísticas, sociais e
económicas, por parte do Estado e da sociedade em geral, em atenção e apoio,
este seu papel, uma vez que os benefícios destas participações se expandem por
toda a comunidade.

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