segunda-feira, 22 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


Em Casa dos Outros

É evidente que os esforços públicos no domínio literário não se têm limitado à promoção das literacias. Nem devem.

Mesmo no caso português, como um pouco por todo o lado, o Estado apoia as iniciativas das associações da sociedade civil que agregam escritores e incentiva a existência de prémios que reconheçam o mérito do seu trabalho. Mas esses prémios, dada a situação remuneratória em que a maioria dos escritores se encontra, tornaram-se, mais do que uma forma de reconhecimento do mérito de obras e de autores, num meio de sobrevivência, pervertendo o seu sentido, como já se referiu. Em muitos casos, dadas as diminutas tiragens actualmente existentes, a fronteira entre o sucesso ou o fiasco de uma obra em termos financeiros, está mais entre ela conseguir ou não obter um prémio literário, principalmente se este for de algum montante pecuniário significativo, do que nas vendas de exemplares que conseguiu atingir. Imagine-se, por conseguinte, a pressão que este facto gera sobre as entidades e os júris que os concedem e como esta situação pode perverter a sua existência…

Uma forma de intervenção do Estado, que já tem mais relevância directa na situação financeira dos autores, é o apoio à tradução e à internacionalização das suas obras.

De facto, presentemente, o(s) investimento(s) necessário(s) para efectuar traduções (em particular, de ou para línguas com um mercado literário de menor dimensão, isto é, de obras que sejam oriundas de um espaço exterior ao universo anglo-saxónico, espanhol ou francês) leva a que sejam encaradas pelas empresas de edição como projectos quase impossíveis, tendo em conta o número muito reduzido de tradutores qualificados, as perspectivas do mercado potencial e as consequentes pequenas tiragens: basta imaginar os custos de tradução de uma obra, por exemplo, de português para dinamarquês ou vice-versa, para perceber como é difícil obter o retorno comercial que compense a sua edição.

Já por diversas vezes referi a dimensão nefasta desta situação em termos civilizacionais: continuo a crer que a literatura (bom, sejamos generosos, também o cinema) é a melhor via para dar a conhecer (e a compreender) uma cultura e o seu respectivo povo, em todas as suas vertentes, e como a inexistência de traduções literárias pode ser (e é) motivo para o aparecimento de sentimentos xenófobos e racistas, geradores de exclusões sociais e de incompreensões que potencializam todo o tipo de conflitos. 

Compreende-se assim os motivos por que, quase por todo o mundo, os Estados decidiram apoiar as traduções das obras geradas nos seus países e a internacionalização das suas literaturas, criando programas que compensem, pelo menos parcialmente, os custos de tradução e de edição, e intervindo em complemento da acção contínua dos agentes literários (quando os há, o que é raro no nosso país).

Mas estes programas, para utilizar um jargão economicista, intervém apenas ao nível da oferta e, mais uma vez, isto só não chega: é fundamental a constituição de públicos nos diferentes países ou universos idiomáticos, curiosos e interessados em conhecer e ler obras das distintas literaturas nacionais, para que os editores se sintam estimulados à realização de traduções e edições.

Daí que estes programas sejam, em complemento, acompanhados por acções e iniciativas que divulguem autores, obras e literaturas nos diversos países, em geral resultantes de parcerias com agentes locais (onde se destacam os editores e as associações de editores, mas não só). Também, mais uma vez, a comunicação social joga nestas iniciativas um importante papel, dada a repercussão que poderá obter a presença de um certo autor ou a representação de uma literatura num determinado público leitor.

Muitas dessas iniciativas passam pela participação em eventos, tais como em feiras do livro e certos festivais literários, que já alcançaram, em resultado da sua periodicidade regular e do seu histórico, uma relevância e uma notoriedade que naturalmente atraem a comunicação social do seu país e até internacional. Por isso mesmo, a presença de autores ou de uma determinada literatura nesses eventos poderão ser uma mais-valia promocional indiscutível e com resultados facilmente comprováveis.

Simplesmente, a participação nessas iniciativas, principalmente de “embaixadas” representativas de uma literatura, tem custos muito elevados. Necessitam, por conseguinte, de ser muito bem ponderadas, perspectivando com rigor a sua utilidade estratégica e eliminando quaisquer interesses particulares que as motive. Além disso, deve compreender-se, dado os investimentos avultados que exigem, que o seu interesse não se limite apenas aos objectivos promocionais de uma literatura, e que se ambicione, com estas participações, não só a dar visibilidade a uma literatura, mas ao país no seu todo, de modo a que estas iniciativas promocionais alcancem benefícios para um conjunto alargado de actividades económicas e sociais e não apenas literárias. No fundo, deseja-se, a reboque da literatura, atingir outros resultados (turísticos, comerciais, de captação de investimentos, etc.), com o intuito de que esses benefícios tenham repercussões globais a nível nacional.

Também é compreensível que se encare com desdém e que se encare censurável este aproveitamento economicista da actividade literária. Mas, mesmo considerando a imensa relevância simbólica da projecção internacional de uma literatura nacional, tem de se aceitar que se possa achar como um despesismo excessivo estas “embaixadas” internacionais, dados os investimentos necessários, se elas não contribuírem para a imagem de prestígio do país no seu todo, no contexto onde se realizam, e não consigam, deste modo, obter resultados que tenham repercussões positivas para um leque alargado de actividades económicas e sociais.

Repare-se, no entanto, como, nestas circunstâncias, já se está longe da criação literária como acto individual e soberano, e, pelo contrário, se transfigurou num bem com um alcance claramente extraliterário, envolvendo até agentes económicos e sociais que, possivelmente, nada têm a ver com o seu universo. Aqui a literatura transformou-se numa marca simbólica de um povo ou de um país, representando a sua cultura e o seu modo de estar.

É evidente que a importância para um povo do seu património literário está muito para além destas situações concretas de representação nacional. Mas deve ser também compreensível que os escritores, assim como os restantes agentes do sector do Livro, desejem ver reconhecido, tal como sucede com outras actividades artísticas, sociais e económicas, por parte do Estado e da sociedade em geral, em atenção e apoio, este seu papel, uma vez que os benefícios destas participações se expandem por toda a comunidade.

Capa da edição em dinamarquês de "O Ano da Morte do Ricardo Reis" de José Saramago.

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