segunda-feira, 22 de abril de 2024

UMA ESCOLA DE VIRTUDES ou “FAUT-IL BRÛLER SADE?”

 


Reforçar Os Pilares Da Ponte – 2

 

É também este o percurso, pelos mesmos motivos, que se impôs no domínio do audiovisual. Na rádio, para além de vagas excepções, a actividade literária só tem presença em um dos canais públicos que, desde sempre, não está sujeito ao objectivo imperial da dimensão das audiências. Nesse canal (RDP 2), é regular e diário os programas, alguns deles francamente meritórios, onde se divulga poesia, se debate e analisa algumas das obras recentemente publicadas, se entrevista escritores, e, por último, se efectua algum trabalho de promoção das literacias.

Quanto à televisão, os poucos programas existentes, também apenas nos canais públicos, são, quase sempre, apresentados tarde e a más horas ou, pelo menos, em períodos de fraca audiência, e limitam-se, quase exclusivamente, a promover, com franciscanos meios de produção, as obras que se vão publicando, sem nenhum debate ou qualquer tipo de confrontação de ideias e estéticas, apenas com o fruto da leitura, algumas vezes informada, dos apresentadores e/ou das equipas que os assessoram, acompanhada da inevitável entrevista ao autor. Este modelo, utilizado até à exaustão, gera no consumidor um desinteresse crescente, pois começa a encará-lo como uma mera acção de marketingÉ certo que, por vezes, aparecem, também nos canais públicos, alguns documentários interessantes, sobre escritores e obras, tanto de origem internacional como portuguesa; mas, na generalidade dos casos, não são nem divulgados convenientemente nem estão integrados de forma regular na sua programação, originando que, mesmo no caso do público já interessado por questões literárias, os desconheça ou só venha a tomar conhecimento deles após a sua transmissão.

Porém, não vale a pena apontar o dedo ou diabolizar os empresários e gestores, os directores de programas e os chefes de redacção: quando se procura viabilizar uma empresa de comunicação, seja escrita ou audiovisual, o critério prioritário é, inevitavelmente, o aumento da audiência (o famoso “share”), pois é ele que garante as receitas de publicidade necessárias a essa viabilização, e não tanto um padrão de mérito cultural; e, por conseguinte, a literatura, dada a irrelevância do seu público, torna-se insignificante para alcançar esse objectivo.

Na presente conjuntura, e dadas algumas características com longa duração da nossa sociedade (falta de poder de compra, frágil formação cultural, hábitos enraizados de ocupação dos tempos livres longe da fruição de bens culturais), apenas é possível tentar contrariar (sem grande expectativas) a actual situação de invisibilidade da actividade literária na comunicação social generalista. Por isso, talvez seja mais útil que os poderes públicos, com responsabilidades estratégicas nas promoções das literacias e da literatura, estejam atentos e apoiem (com critérios objectivos e que não assentem em exclusivo na dimensão do público receptor) as iniciativas existentes (em particular as revistas especializadas) e que aproveitem os media estatais para melhor presenciarem a actividade literária no domínio audiovisual, estimulando a inovação e a criatividade na concepção da programação.

Desconheço a autoria da foto.


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