Reforçar Os Pilares Da Ponte – 2
É também este o percurso, pelos
mesmos motivos, que se impôs no domínio do audiovisual. Na rádio, para além de
vagas excepções, a actividade literária só tem presença em um dos canais
públicos que, desde sempre, não está sujeito ao objectivo imperial da dimensão
das audiências. Nesse canal (RDP 2), é regular e diário os programas, alguns
deles francamente meritórios, onde se divulga poesia, se debate e analisa
algumas das obras recentemente publicadas, se entrevista escritores, e, por
último, se efectua algum trabalho de promoção das literacias.
Quanto à televisão, os poucos
programas existentes, também apenas nos canais públicos, são, quase sempre,
apresentados tarde e a más horas ou, pelo menos, em períodos de fraca
audiência, e limitam-se, quase exclusivamente, a promover, com franciscanos
meios de produção, as obras que se vão publicando, sem nenhum debate ou
qualquer tipo de confrontação de ideias e estéticas, apenas com o fruto da
leitura, algumas vezes informada, dos apresentadores e/ou das equipas que os
assessoram, acompanhada da inevitável entrevista ao autor. Este modelo,
utilizado até à exaustão, gera no consumidor um desinteresse crescente, pois
começa a encará-lo como uma mera acção de marketing… É certo que, por vezes, aparecem, também nos canais públicos,
alguns documentários interessantes, sobre escritores e obras, tanto de origem
internacional como portuguesa; mas, na generalidade dos casos, não são nem
divulgados convenientemente nem estão integrados de forma regular na sua
programação, originando que, mesmo no caso do público já interessado por
questões literárias, os desconheça ou só venha a tomar conhecimento deles após
a sua transmissão.
Porém, não vale a pena apontar o dedo
ou diabolizar os empresários e gestores, os directores de programas e os chefes
de redacção: quando se procura viabilizar uma empresa de comunicação, seja
escrita ou audiovisual, o critério prioritário é, inevitavelmente, o aumento da
audiência (o famoso “share”), pois é ele que garante as receitas de publicidade
necessárias a essa viabilização, e não tanto um padrão de mérito cultural; e,
por conseguinte, a literatura, dada a irrelevância do seu público, torna-se
insignificante para alcançar esse objectivo.
Na presente conjuntura, e dadas
algumas características com longa duração da nossa sociedade (falta de poder de
compra, frágil formação cultural, hábitos enraizados de ocupação dos tempos
livres longe da fruição de bens culturais), apenas é possível tentar contrariar
(sem grande expectativas) a actual situação de invisibilidade da actividade
literária na comunicação social generalista. Por isso, talvez seja mais útil
que os poderes públicos, com responsabilidades estratégicas nas promoções das
literacias e da literatura, estejam atentos e apoiem (com critérios objectivos
e que não assentem em exclusivo na dimensão do público receptor) as iniciativas
existentes (em particular as revistas especializadas) e que aproveitem os media estatais para melhor presenciarem a
actividade literária no domínio audiovisual, estimulando a inovação e a
criatividade na concepção da programação.
Desconheço a autoria da foto.

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