A Vontade
Ler: Um Autor, Uma Obra
21. Michael
Kaan (1969-)
É um autor
canadiano, filho de um pai de Hong Kong e de uma mãe canadiana, que publicou um
único romance, “The Water Beetles”, 2017, com que foi finalista do Governor
General’s Award (o mais importante prémio literário canadiano) para língua
inglesa e ganhou o Books in Canada First Novel Award. Profissionalmente, é
administrador hospitalar em Manitoba, sua cidade natal.
O romance (inspirado
pelas memórias do pai do autor, que a mãe lhe entregou após a sua morte)
inicia-se com um jovem de doze anos, filho de uma muito próspera família de
Hong Kong, que, de súbito, vê a sua vida totalmente transformada com a
conquista da cidade pelos japoneses em 1941. Depois de uma fase inicial, em que
a família se barrica no seu palacete, temendo a violência que corria pelas
ruas, os pais optaram, dada a escassez de víveres, dividir a família e
“empurrar” os dois filhos mais novos (que inclui o protagonista) e outros
familiares para fora de casa, para procurarem no interior da China formas de
sobrevivência. Passado algum tempo, o protagonista é capturado pelos japoneses,
e retido num campo de concentração, durante dois anos; até que, finalmente,
consegue fugir, com o seu irmão, esquivando-se aos seus carcereiros, e regressar
a sua casa. Durante a “fuga”, o jovem vê-se mergulhado nos horrores da guerra,
constata a fome e a violência das aldeias chinesas, passa maus-tratos nas
prisões japonesas e uma atroz fome.
Mas, no
capítulo seguinte, constatamos que este protagonista é agora um velho médico, a
viver em Kuala Lumpur, sofrendo as dificuldades da sua idade e com a sua
incapacidade e inépcia para se adaptar as circunstâncias do tempo presente.
Entrecruzando
capítulos entre o passado e o presente da personagem principal, percebe-se que “The
Water Beetles” não é, propriamente dito,
um romance sobre os horrores da guerra (à parte, como é evidente, esses
horrores estarem bem presentes), mas sim sobre a memória e sobre a forma como,
ao longo da vida, os sobreviventes conseguem gerir as feridas silenciadas desse
passado. Segundo a crítica, numa escrita contida, mas, ao mesmo tempo,
introspectiva e poética, e revelando grande domínio das técnicas narrativas, o
romance é, no essencial, uma reflexão ficcionada sobre a gestão da memória, sobre
aquilo que ela emudece e recria, e como essa gestão determina, inevitavelmente,
a forma de encarar a vida, a relação com os outros e até o próprio luto e a
morte.
Junho de
2022.
Desconheço a
autoria da foto do escritor.


Sem comentários:
Enviar um comentário