sexta-feira, 10 de junho de 2022

MICHAEL KAAN

 


A Vontade Ler: Um Autor, Uma Obra

21. Michael Kaan (1969-)

É um autor canadiano, filho de um pai de Hong Kong e de uma mãe canadiana, que publicou um único romance, “The Water Beetles”, 2017, com que foi finalista do Governor General’s Award (o mais importante prémio literário canadiano) para língua inglesa e ganhou o Books in Canada First Novel Award. Profissionalmente, é administrador hospitalar em Manitoba, sua cidade natal.

O romance (inspirado pelas memórias do pai do autor, que a mãe lhe entregou após a sua morte) inicia-se com um jovem de doze anos, filho de uma muito próspera família de Hong Kong, que, de súbito, vê a sua vida totalmente transformada com a conquista da cidade pelos japoneses em 1941. Depois de uma fase inicial, em que a família se barrica no seu palacete, temendo a violência que corria pelas ruas, os pais optaram, dada a escassez de víveres, dividir a família e “empurrar” os dois filhos mais novos (que inclui o protagonista) e outros familiares para fora de casa, para procurarem no interior da China formas de sobrevivência. Passado algum tempo, o protagonista é capturado pelos japoneses, e retido num campo de concentração, durante dois anos; até que, finalmente, consegue fugir, com o seu irmão, esquivando-se aos seus carcereiros, e regressar a sua casa. Durante a “fuga”, o jovem vê-se mergulhado nos horrores da guerra, constata a fome e a violência das aldeias chinesas, passa maus-tratos nas prisões japonesas e uma atroz fome.

Mas, no capítulo seguinte, constatamos que este protagonista é agora um velho médico, a viver em Kuala Lumpur, sofrendo as dificuldades da sua idade e com a sua incapacidade e inépcia para se adaptar as circunstâncias do tempo presente.

Entrecruzando capítulos entre o passado e o presente da personagem principal, percebe-se que “The Water Beetles”  não é, propriamente dito, um romance sobre os horrores da guerra (à parte, como é evidente, esses horrores estarem bem presentes), mas sim sobre a memória e sobre a forma como, ao longo da vida, os sobreviventes conseguem gerir as feridas silenciadas desse passado. Segundo a crítica, numa escrita contida, mas, ao mesmo tempo, introspectiva e poética, e revelando grande domínio das técnicas narrativas, o romance é, no essencial, uma reflexão ficcionada sobre a gestão da memória, sobre aquilo que ela emudece e recria, e como essa gestão determina, inevitavelmente, a forma de encarar a vida, a relação com os outros e até o próprio luto e a morte.

Junho de 2022.

Desconheço a autoria da foto do escritor.



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