A Vontade de
Ler: Um Autor, uma Obra
20. Jean-François
Haas (1952-)
É um
escritor suíço, de expressão francesa, que começou a publicar romances já
tardiamente (com 55 anos), tendo já publicado seis romances e uma colectânea de
contos, e obtendo, com essas obras, diversos prémios nacionais (em particular,
com o seu primeiro livro, “Dans la gueule de la baleine guerre”,2007).
Os seus
romances, sempre focados na realidade contemporânea (a Segunda Guerra Mundial,
a exploração económica, os emigrantes e os refugiados, por exemplo), são, antes
do mais, complexas parábolas que utilizam diversos registos estilísticos
(incluindo o próprio calão), reflectindo sobre a violência e a presença do mal ao
longo da história de hoje. Partindo de um confessado humanismo assente em
valores judaico-cristãos, a obra de Jean-François Haas parte do pressuposto de
que o Mal (assim como, obviamente, a busca do Bem) faz parte da própria
natureza humana e, por conseguinte, torna-se determinante compreender como esta
“pulsão”, chamemos-lhe assim, pode ser atenuada ou, favoravelmente, reencaminhada
para o Bem. Segundo o autor, claramente expresso por diversos meios, é
fundamentalmente através do amor (em todas as suas manifestações) e do perdão. Para
este “percurso”, é decisivo o papel da narrativa e da ficção, como forma
estruturante de situar o homem e compreender a história (que aparece, por
vezes, ao nível pessoal, como um factor condicionante desse percurso), e o
sentido do belo (ou, por outras palavras, da criação artística) como “farol”
para o reposicionar (e até redimir).
Esta
doutrina, aparentemente simples, depois contextualizada, em termos romanescos,
através de diversos focos e temas, coloca todas as suas obras no mesmo patamar,
ainda que os modelos narrativos, com a sua componente experimental, os
contextos, as personagens e as situações variem substancialmente.
Mesmo tendo
uma similitude estrutural (o fio condutor é a rememoração da existência de um
homem) com o seu primeiro romance, o já referido “Dans la gueule de la baleine
guerre”,2007, a obra que me chama mais a atenção é a última, “Tu écriras mon
nom sur les eaux”, 2019. Deve-se, no entanto, assinalar, nem que seja por mera
curiosidade “nacional”, a sua colectânea de contos “Le Testament d’Adam”, 2017,
pois, num deles, uma das personagens é um jovem de origem portuguesa, um “secondo”,
que se confronta com um professor suíço num exame oral em torno do Tratado de
Tordesilhas…
Este romance
é uma dupla saga, em redor de dois emigrantes: um suíço, com uma infância de
maus-tratos, e outro, um judeu ucraniano, de Odessa, que perdeu os seus, nas
escadarias, quando da revolta do Potemkin. Encontram-se em Colónia, e juntos,
vão, durante sete anos, na década de vinte do século passado, procurar sobreviver,
realizando todo o tipo de trabalhos, mas, principalmente, aproveitar-se dos
seus ofícios (um alfaiate, outro sapateiro), para conseguirem economizar e
realizar o seu sonho de emigrar, pagando a passagem para os Estados Unidos.
Aqui chegados, vão de novo realizar todos os trabalhos que aparecem, até se
estabelecerem e constituírem uma empresa. Tudo isto é narrado por um
sobrinho-neto do primeiro, que lhe descreveu as inúmeras e dolorosas
dificuldades que os dois emigrantes passaram, assim como as suas famílias,
envolvidas nas atrocidades e conflitos que atravessaram a Europa e os Estados
Unidos durante todo o século XX.
Junho de
2022.
Foto do
autor de Charles Ellena.


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