segunda-feira, 6 de junho de 2022

JEAN-FRANÇOIS HAAS

 


A Vontade de Ler: Um Autor, uma Obra

20. Jean-François Haas (1952-)

É um escritor suíço, de expressão francesa, que começou a publicar romances já tardiamente (com 55 anos), tendo já publicado seis romances e uma colectânea de contos, e obtendo, com essas obras, diversos prémios nacionais (em particular, com o seu primeiro livro, “Dans la gueule de la baleine guerre”,2007).

Os seus romances, sempre focados na realidade contemporânea (a Segunda Guerra Mundial, a exploração económica, os emigrantes e os refugiados, por exemplo), são, antes do mais, complexas parábolas que utilizam diversos registos estilísticos (incluindo o próprio calão), reflectindo sobre a violência e a presença do mal ao longo da história de hoje. Partindo de um confessado humanismo assente em valores judaico-cristãos, a obra de Jean-François Haas parte do pressuposto de que o Mal (assim como, obviamente, a busca do Bem) faz parte da própria natureza humana e, por conseguinte, torna-se determinante compreender como esta “pulsão”, chamemos-lhe assim, pode ser atenuada ou, favoravelmente, reencaminhada para o Bem. Segundo o autor, claramente expresso por diversos meios, é fundamentalmente através do amor (em todas as suas manifestações) e do perdão. Para este “percurso”, é decisivo o papel da narrativa e da ficção, como forma estruturante de situar o homem e compreender a história (que aparece, por vezes, ao nível pessoal, como um factor condicionante desse percurso), e o sentido do belo (ou, por outras palavras, da criação artística) como “farol” para o reposicionar (e até redimir).

Esta doutrina, aparentemente simples, depois contextualizada, em termos romanescos, através de diversos focos e temas, coloca todas as suas obras no mesmo patamar, ainda que os modelos narrativos, com a sua componente experimental, os contextos, as personagens e as situações variem substancialmente.

Mesmo tendo uma similitude estrutural (o fio condutor é a rememoração da existência de um homem) com o seu primeiro romance, o já referido “Dans la gueule de la baleine guerre”,2007, a obra que me chama mais a atenção é a última, “Tu écriras mon nom sur les eaux”, 2019. Deve-se, no entanto, assinalar, nem que seja por mera curiosidade “nacional”, a sua colectânea de contos “Le Testament d’Adam”, 2017, pois, num deles, uma das personagens é um jovem de origem portuguesa, um “secondo”, que se confronta com um professor suíço num exame oral em torno do Tratado de Tordesilhas…

Este romance é uma dupla saga, em redor de dois emigrantes: um suíço, com uma infância de maus-tratos, e outro, um judeu ucraniano, de Odessa, que perdeu os seus, nas escadarias, quando da revolta do Potemkin. Encontram-se em Colónia, e juntos, vão, durante sete anos, na década de vinte do século passado, procurar sobreviver, realizando todo o tipo de trabalhos, mas, principalmente, aproveitar-se dos seus ofícios (um alfaiate, outro sapateiro), para conseguirem economizar e realizar o seu sonho de emigrar, pagando a passagem para os Estados Unidos. Aqui chegados, vão de novo realizar todos os trabalhos que aparecem, até se estabelecerem e constituírem uma empresa. Tudo isto é narrado por um sobrinho-neto do primeiro, que lhe descreveu as inúmeras e dolorosas dificuldades que os dois emigrantes passaram, assim como as suas famílias, envolvidas nas atrocidades e conflitos que atravessaram a Europa e os Estados Unidos durante todo o século XX.

Junho de 2022.

 

Foto do autor de Charles Ellena.




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