A Vontade de
Ler: Um Autor, Uma Obra
22. Giovanni
Di Iacovo (1975-)
É um
escritor italiano que, até hoje, já publicou cinco romances, um livro
indefinível sobre a cultura pop gótica, alguns contos em antologias, e diversos
ensaios sobre a literatura italiana contemporânea e de crítica literária
comparada, fruto do seu trabalho como professor e investigador na Universidade
Gabriele d’Annunzio de Pescara, sua cidade natal. Durante algum tempo
dedicou-se também à gestão administrativa local, é organizador e programador de
um festival literário, guionista de programas de televisão e de filmes, e
integrou uma banda musical electropop italo-alemã chamada Anticorpi.
Há, na sua obra
narrativa, uma fortíssima dimensão lúdica, fantasista até, em que se joga e
mescla a iconologia pop e televisiva com os arquétipos da tradição literária e
judaico-cristã. Mas essa estratégia narrativa está focada na realidade
quotidiana, analisando e satirizando os comportamentos sociais (e culturais)
contemporâneos. E os temas podem ir desde os níveis diversos de sofrimento e
dor e o efeito anestesiante da televisão (aproveitando, como contexto, a guerra
da Bósnia, como é o caso do seu primeiro romance, “Sushi Bar Sarajevo”, 2006),
a actual obsessão consumista e hedonista (“Tutti i poveri devono morire”,
2010), a violência sexual, a prostituição e o HIV (“La sindrome dell’ira di
Dio”, 2013), ou ainda os modelos românticos, constantemente renovados, das
relações amorosas, como sucede em “Confessioni di uno Zero”, 2018.
Provavelmente,
o romance mais interessante seja “Tutti i poveri devono morire”. O romance
centra-se numa “comunidade” internacional da alta burguesia, conhecida pelo
nome de “Cenacolo di Caino”, que se dedica, por simples prazer, a todo o tipo
de crimes e de violência sobre as classes mais pobres e desfavorecidas. A
questão nevrálgica desta “seita” está em criar todo o tipo de relações e de
códigos que permitam a impunidade e a continuidade do massacre. Para narrar
esta trama, tão absurda como complexa, de banalização do assassínio, o autor reencaminha-a
para “tournures” bem rocambolescas, num estilo sarcástico e delirante, com
personagens com comportamentos pretensamente racionais dentro da sua irracionalidade
ética. Por último, mas não menos
importante, o romance revela-se como uma espécie de sinuosa e macabra parábola
sobre a actual sociedade mercantil e sobre o estatuto de consumidores (ou de
consumíveis) que todos temos.
Junho de
2022.
Desconheço a
autoria da foto do escritor.


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