OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
23ª Vinheta
VÉRONIQUE TADJO
Véronique Tadjo (1955-) é uma
importante escritora da Costa do Marfim, que, desde os finais da década de
oitenta, escreveu e publicou vários livros de poesia, romances e obras para a
infância e juventude. Formada na Sorbonne, com uma tese sobre cultura
americana, viveu em diversos países europeus e africanos. Já venceu, entre
outros, o Grand Prix littéraire d’Afrique noire, com o romance “Reine Pokou”,
em 2005. No domínio dos livros para a infância e juventude, área a que
Véronique Tadjo tem dedicado intensamente a sua capacidade criativa como
escritora e ilustradora, as suas obras têm obtido um significativo sucesso,
pois foram traduzidas para diversas línguas e estão editadas em vários países
europeus e africanos.
Para além de três livros de poesia e
dos já referidos livros para a infância e juventude, Véronique Tadjo publicou
seis romances, todos centrados em temáticas muito distintas e recorrendo, quase
sempre, à mitologia e à tradição cultural africana. A recriação destas fontes,
através de uma linguagem com fortes conotações líricas, é principalmente notório
nos seus primeiros romances, em particular, no conjunto de narrativas
fragmentárias de “À vol d’oiseau”, 1992, do “apocalíptico” “Le Royaume
aveugle”, 1991, e em “Reine Pokou, concerto pour un sacrífice”, 2005, onde
recorre a uma lenda para perceber não só a origem do seu país, mas também a
violência que o domina na actualidade. Depois, mudando de registo, os seus
romances seguintes orientam-se para as relações familiares, em “Loin de mon
père”, 2010, e para a incomunicabilidade amorosa, em “Champ de bataille et
d’amour”, 2006. Por fim, há ainda os seus romances que se debruçam sobre
algumas das tragédias que recentemente assolaram o continente africano, como o
genocídio dos tutsi no Ruanda, em “L’Ombre d’Imana”, 2001, ou a epidemia do Ébola,
em “En compagnie des hommes”, 2017.
Por fim, deve assinalar-se que uma
das características da obra da autora é que as suas narrativas decorrem sempre
à partir de um “olhar” interior que vai reflectindo sobre as situações
descritas, procurando retirar delas uma certa forma de sabedoria que consiga
conciliar a vida mesmo com os factos mais terríveis. Quer isto dizer, que os
seus romances diluem os contextos situacionais a breves anotações, sem muitos
pormenores, centrando-se, no essencial, nos “efeitos” que produziram nos
narradores ou personagens principais. Daí que a sua obra tenho um forte registo
poético e monológico, em que os mitos e as lendas tradicionais africanas
aparecem como “background” dos narradores e personagens.
Não há dúvida, porém, que, no
conjunto da obra de Véronique Tadjo, se destaca o romance “L’Ombre d’Imana”.
Com o objectivo de melhor compreender o genocídio no Ruanda, a autora aceitou participar
numa residência literária neste país, e, em parte para redimir pela criação e
pela afirmação da vida a presença avassaladora da morte, decidiu escrever este
romance. Nele, tenta entender como é que a “sombra de Deus” (os Ruandeses acreditam
que a “sombra de Deus", a que chamam Imana, “cobre” o seu país) desapareceu
durante (e após) o genocídio, deixando os homens à mercê dos seus impulsos mais
brutais e criminosos, o que provocou não só um rastro de morte como deixou
marcas indeléveis na memória dos sobreviventes e até na própria realidade
concreta que os rodeia (recordo que uma das “chagas” vivas destes
acontecimentos foram os “filhos de guerra”, isto é crianças geradas com as
violações que ocorreram durante o genocídio).
Recorrendo a três personagens femininas, à sua própria experiência e ao
confronto com a experiência dos outros, no seu estilo já característico, em que
concilia géneros com os modelos narrativos assentes na fragmentação e na
elipse, Véronique Tadjo vai dar voz neste romance às vítimas e aos carrascos,
recolhendo depoimentos e testemunhos presenciais, procurando entender como conseguiram
superar aquele colossal trauma, em particular quando aqueles papéis muitas
vezes se inverteram. De facto, a autora parte do pressuposto que aqueles
acontecimentos imanam da própria condição humana, capaz, conforme as
circunstâncias, tanto do Bem como do Mal. Por isso, não procura efectivamente
exorcizar o impossível, mas, em particular, compreender como a sobrevivência e
a necessidade de reconstruir a vida se foi sobrepondo à referida presença da
morte num penoso caminho em que a memória procura libertar-se, possibilitando a
continuidade da vida e apaziguando o ódio, dos sinais que, em seu redor, registam
uma violência abjecta.
Os romances de Véronique Tadjo estão
traduzidos para inglês, alguns para espanhol e italiano, e foram editados em
vários países europeus e africanos, o mesmo sucedendo, ainda com maior
destaque, com as suas obras para a infância e juventude.
Apenas tenho conhecimento da edição
de um título de uma obra sua para a infância e juventude no nosso país. No
entanto, recolhi a informação de que “L’Ombre d’Imana” foi traduzida para
português por Francisco Guesdes, e editada em Angola, com o título “A Sombra de
Imana”. Não conheço esta edição.
Outubro de 2020.
Direitos da foto da autora
pertencentes à RAMA


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