ROGER VAILLAND ou O FIM DO ILUMINISMO
I
Mesmo que não me recorde dele muitas
vezes, tenho que reconhecer que Roger Vailland foi um dos meus “maîtres à penser”.
De facto, para mim, como para toda uma geração, este comunista e libertino,
apaixonado pela escrita e, em particular, pelo romance, hoje já muito esquecido
e até estigmatizado, impregnou o nosso (sub)consciente com alguns conceitos e
valores que, quer se goste ou não, determinaram comportamentos e modos de
estar.
Um desses conceitos – talvez o mais
importante – foi o de soberania. E de como a soberania era fundamental para a
existência de uma efectiva liberdade ao nível individual e colectivo.
E note-se: quando aqui se fala em
soberania não se está a colocá-la num registo “stricto sensu” político. Mas
como um valor determinante ao nível do comportamento e, por conseguinte,
afectando também o campo pessoal e privado.
Hoje, sabemos todos, este conceito
pode parecer perigoso e limitado. Mas como fugir a ele?
II
Se, há uns vinte anos atrás, me dissessem
que o papel da sedução apareceria manchado ou empalidecido, acharia que toda a
gente teria enlouquecido.
É certo que, quando se fala em
sedução, se está a referir a um poder de atracção, isto é, de sujeição
voluntária do outro a esse poder.
A sedução cega. Subjuga a vontade do Outro;
elimina o sentido crítico, coloca um Outro na órbita condicionada de um Sujeito.
De facto, goste-se ou não, está a
estabelecer-se uma hierarquia quando se seduz o Outro. Mas será isso
inevitavelmente mau?
III
Uma das “descobertas” que a obra de
Roger Vailland iluminava é a de que existem relações de poder em qualquer
esfera do registo social. E era tão brutal essa revelação que eliminava
qualquer ideia romântica ou adolescente de haver a possibilidade de se
estabelecer qualquer tipo de relacionamento, mesmo o mais íntimo, sem uma
hierarquia.
É certo que provava que essa relação
de poder não era estática, mas dinâmica, e que, a qualquer momento, se poderia
inverter os papéis da relação. E que, por isso, existia uma contínua
dialéctica. Mas isso, mais uma vez provava, que ela nunca seria uma equação.
Porém, não há dúvida que esta
realidade há-de ser sempre questionada. Todas as gerações, umas a seguir às
outras, continuarão a tentar forçá-la, a tentar esmigalhar essa realidade-pedra.
Será isto inevitável? Não sei. Mas
estou em crer que sim. Veja-se o próprio Roger Vailland e “Le Grand Jeu” e a
aproximação aos surrealistas. Todos crescemos a ter uma concepção ideal das
relações amorosas e de uma sociedade igualitária, sem escravos nem amos,
comunista. Todos temos qualquer coisa
de Keats.
Ora, Roger Vailland durante algum
tempo, consciente do determinismo destas relações de poder, ainda acreditou que
esse comunismo desejado (a transformação dessa tal realidade-pedra em areia) fosse
mais possível de atingir, se, por bons motivos (isto é, por motivos
progressistas e igualitários), através de um forte e autoritário poder,
invertesse a relação secularmente estabelecida. Daí que tenha defendido e
apoiado Estaline.
Mas rapidamente compreendeu que o
poder degrada e perverte. Sempre. O que o levou a questionar todo o seu quadro
pessoal. A razão, como instrumento soberano, tinha-o traído. E, por isso,
abandonou o PC francês.
E isolou-se. Abandonou os jornais e a
militância de toda uma vida. Debaixo da protecção da sua mulher amada
(Elisabeth Vailland), vai continuar apenas com a sua paixão de sempre:
escrever, escrever, pensar e construir histórias.
Os seus últimos romances (“La Loi”,
“La Fête” e “La Truite”), os mais interessantes na minha opinião, colocam a
questão da soberania num registo individual. Mas, como se percebe em “Le Regard
froid”, Roger Vailland tinha consciência de que estava amputado de uma dimensão
essencial: era impossível entender a questão da soberania como uma estrita
questão privada.
Restava-lhe apenas viver, pois
gostava demasiado da vida para lhe pôr fim.
Até que o câncro o levou.
Novembro de 2020.
Foto do autor de Marc Garanger.





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