terça-feira, 6 de outubro de 2020

DAVID WAGNER

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

22ª Vinheta




DAVID WAGNER

 

David Wagner (1971-) é um escritor alemão que já publicou, desde o início deste século, três romances, uma colectânea de contos, um livro de poesia e diversas obras de um género indefinido, a que aqui chamaremos de narrativas. É neste género, bem característico e generalizado na literatura alemã contemporânea, que o autor se tem distinguido, unanimemente elogiado pela crítica e obtendo vários galardões, onde se destaca o Prémio Literário da Feira do Livro de Leipzig, com a sua obra “Leben”.

Estas obras de “narrativa” caracterizam-se por serem trabalhos reflexivos sobre situações concretas vividas pelo narrador, num registo muito próximo da autoficção. O que distingue estes livros de David Wagner, no conjunto da produção narrativa similar alemã, é a originalidade e profundidade dessa reflexão, associada a uma inegável capacidade de descrição e observação, numa prosa de indiscutível qualidade estética em termos estilísticos. Saliente-se ainda que, na nossa opinião, estas características são generalizáveis às obras subtítuladas como “romances”, pois, no essencial, não se distinguem das restantes obras “narrativas” do autor.

O foco em que se centra estas obras é muito variado: desde as mutações que a cidade de Berlim sofreu ao longo dos tempos e que o narrador vai descobrindo com as suas deambulações (“In Berlin”, “Welche Farbe hat Berlin?”, “Mauer Park” e “Drüben und drüben”, este em co-autoria com Jochen Schmidt, onde se confronta as infâncias dos autores ocorridas em Berlim Ocidental e Oriental); ou as suas leituras, que o narrador considera que efectuam um todo com o lugar em que as fez (“Sich verlieben hilft”); ou a análise minuciosa e interpretativa da vida própria dos quartos de hotel (“Ein Zimmer im Hotel”); ou a estadia num país “estranho”, a Roménia, para escrever um romance, que não consegue produzir, mas que leva o narrador a reflectir sobre esse absorvente quotidiano do lugar onde se encontra (“Romania”); ou ainda a relação que o narrador estabelece com o pai, gradualmente demente e incapacitado, e que o leva a cuidar com o afecto de se tornar “substituto” da memória dele, dando-lhe a felicidade e a alegria que já se lhe tornavam impossíveis sem esse apoio (“Der vergessliche Rise”).

Da mesma forma, como já referi, os romances e o livro de contos, no essencial, assumem o mesmo registo das narrativas. Assim, em “Meine nachtblaue Hose”, a sua primeira obra, a personagem principal rememora, em tom melancólico e desencantado, a sua vida, feita de pequenos nadas, vazios e alguns amores, referenciando-os a objectos do quotidiano, como umas calças “azul meia-noite”; ou “Spricht das Kind”, onde se reflecte sobre a infância, os seus constantes rituais, que aparecem em todas as gerações, e, por conseguinte, como o seu entendimento está interligado com o estatuto de pai; ou “Vier Äpfel”, em que a personagem principal, a partir de um acto banal num supermercado, sente necessidade, de súbito, de reflectir sobre a passagem do tempo, as formas de consumir e os amores passados; ou ainda, por último, a colectânea “Was alles fehlt”, provavelmente o seu livro menos conseguido, onde as breves situações encenadas aparecem como fruto de reminiscências do passado das personagens, num registo lacónico e elíptico muito próximo de Raymond Carver.

 Mas não há dúvida que é “Leben”, a narrativa que obteve o Prémio Literário da Feira do Livro de Leipzig, a sua obra mais relevante. A obra desencadeia-se quando o narrador recebe o telefonema do hospital a avisá-lo que em breve será internado para efetuar uma operação de transplante de fígado, momento que há algum tempo aguardava. É este acontecimento que o leva a reflectir sobre o significado da vida, o sentido da morte do Outro para que ele possa ter uma extensão da sua, o papel da doença, os motivos que o levam a enfrentar uma “segunda vida”, o papel do corpo, físico e orgânico, na existência, etc. No seu leito do hospital, enquanto espera pela sua operação, o narrador vai observando em redor o comportamento dos outros pacientes, ouvindo as suas histórias e confissões, tentando perceber o que os motiva a estar ali numa expectativa de uma sobrevivência que lhes permita perceber o que viveram, ao mesmo tempo que vai rememorando o seu passado e os seus afectos.

Há obras de David Wagner traduzidas para francês e espanhol. “Leben” está traduzido e editado, com o título “En vie”, em França, e “Welche Farbe hat Berlin?”, com o título De qué color es Berlín”, e “Spricht das Kind”, com o título Cosas de Niños”, em Espanha.

 

Outubro de 2020

Foto do autor de Horst Galuschka.



 


Sem comentários:

Enviar um comentário