OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
22ª Vinheta
DAVID WAGNER
David Wagner (1971-) é um escritor
alemão que já publicou, desde o início deste século, três romances, uma
colectânea de contos, um livro de poesia e diversas obras de um género
indefinido, a que aqui chamaremos de narrativas. É neste género, bem
característico e generalizado na literatura alemã contemporânea, que o autor se
tem distinguido, unanimemente elogiado pela crítica e obtendo vários galardões,
onde se destaca o Prémio Literário da Feira do Livro de Leipzig, com a sua obra
“Leben”.
Estas obras de “narrativa”
caracterizam-se por serem trabalhos reflexivos sobre situações concretas
vividas pelo narrador, num registo muito próximo da autoficção. O que distingue
estes livros de David Wagner, no conjunto da produção narrativa similar alemã,
é a originalidade e profundidade dessa reflexão, associada a uma inegável
capacidade de descrição e observação, numa prosa de indiscutível qualidade
estética em termos estilísticos. Saliente-se ainda que, na nossa opinião, estas
características são generalizáveis às obras subtítuladas como “romances”, pois,
no essencial, não se distinguem das restantes obras “narrativas” do autor.
O foco em que se centra estas obras é
muito variado: desde as mutações que a cidade de Berlim sofreu ao longo dos
tempos e que o narrador vai descobrindo com as suas deambulações (“In Berlin”,
“Welche Farbe hat Berlin?”, “Mauer Park” e “Drüben und drüben”, este em
co-autoria com Jochen Schmidt, onde se confronta as infâncias dos autores
ocorridas em Berlim Ocidental e Oriental); ou as suas leituras, que o narrador
considera que efectuam um todo com o lugar em que as fez (“Sich verlieben
hilft”); ou a análise minuciosa e interpretativa da vida própria dos quartos de
hotel (“Ein Zimmer im Hotel”); ou a estadia num país “estranho”, a Roménia,
para escrever um romance, que não consegue produzir, mas que leva o narrador a
reflectir sobre esse absorvente quotidiano do lugar onde se encontra (“Romania”);
ou ainda a relação que o narrador estabelece com o pai, gradualmente demente e
incapacitado, e que o leva a cuidar com o afecto de se tornar “substituto” da
memória dele, dando-lhe a felicidade e a alegria que já se lhe tornavam
impossíveis sem esse apoio (“Der vergessliche Rise”).
Da mesma forma, como já referi, os
romances e o livro de contos, no essencial, assumem o mesmo registo das
narrativas. Assim, em “Meine nachtblaue Hose”, a sua primeira obra, a
personagem principal rememora, em tom melancólico e desencantado, a sua vida,
feita de pequenos nadas, vazios e alguns amores, referenciando-os a objectos do
quotidiano, como umas calças “azul meia-noite”; ou “Spricht das Kind”, onde se
reflecte sobre a infância, os seus constantes rituais, que aparecem em todas as
gerações, e, por conseguinte, como o seu entendimento está interligado com o
estatuto de pai; ou “Vier Äpfel”, em que a personagem principal, a partir de um
acto banal num supermercado, sente necessidade, de súbito, de reflectir sobre a
passagem do tempo, as formas de consumir e os amores passados; ou ainda, por
último, a colectânea “Was alles fehlt”, provavelmente o seu livro menos
conseguido, onde as breves situações encenadas aparecem como fruto de
reminiscências do passado das personagens, num registo lacónico e elíptico
muito próximo de Raymond Carver.
Mas não há dúvida que é “Leben”, a narrativa
que obteve o Prémio Literário da Feira do Livro de Leipzig, a sua obra mais
relevante. A obra desencadeia-se quando o narrador recebe o telefonema do
hospital a avisá-lo que em breve será internado para efetuar uma operação de
transplante de fígado, momento que há algum tempo aguardava. É este
acontecimento que o leva a reflectir sobre o significado da vida, o sentido da
morte do Outro para que ele possa ter uma extensão da sua, o papel da doença,
os motivos que o levam a enfrentar uma “segunda vida”, o papel do corpo, físico
e orgânico, na existência, etc. No seu leito do hospital, enquanto espera pela
sua operação, o narrador vai observando em redor o comportamento dos outros
pacientes, ouvindo as suas histórias e confissões, tentando perceber o que os
motiva a estar ali numa expectativa de uma sobrevivência que lhes permita
perceber o que viveram, ao mesmo tempo que vai rememorando o seu passado e os
seus afectos.
Há obras de David Wagner traduzidas
para francês e espanhol. “Leben” está traduzido e editado, com o título “En
vie”, em França, e “Welche Farbe hat Berlin?”, com o título “De qué color
es Berlín”, e “Spricht
das Kind”, com o título “Cosas de Niños”, em Espanha.
Outubro de
2020
Foto do autor de Horst
Galuschka.


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