OUTRAS
LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
21ª Vinheta
OKSANA ZABUZHKO
“Language — any language — that’s
what I would call the capital love of my life: nothing else has the power to
synthesize music and myth, two things without which the world would be a
totally unlivable place.” — Oksana Zabuzhko
Oksana Zabuzhko, ou Oksana Zaboujko,
na transliteração para francês, ou Oksana Sabuschko, para alemão (1960-), é uma
escritora ucraniana que é reconhecida como uma das mais importantes
intelectuais do seu país, desde que este se tornou independente da União
Soviética. Poeta, ensaísta e romancista, tem-se destacado em todos estes
géneros literários, obtendo vários prémios, sendo de destacar o Prémio Angelus,
considerado
um dos mais importantes galardões concedido a obras literárias oriundas do Centro
e Leste europeu. Académica, ensinou em
diversas universidades americanas e é actualmente professora na Universidade de
Kiev, dando aulas sobre literatura ucraniana e filosofia.
É opinião generalizada que escreveu
provavelmente algumas das obras mais relevantes da literatura ucraniana
contemporânea, gerando enorme polémica entre os críticos, mas com uma enorme
receptividade por parte do público leitor. As suas obras que mais se destacaram
são o ensaio Notre Dame d’Ukraine: Українка в конфлікті міфологій (em inglês: Notre Dame d'Ukraine: Ukrayinka in the Conflict
of Mythologies), 2007, e dois dos três romances de sua autoria: Польові дослідження з українського сексу (em inglês: Fieldwork in Ukrainian Sex),
1996, e Музей
покинутих секретів (em inglês: The Museum of Abandoned
Secrets), 2009.
Centrando-se estas obras nos temas do género e da
identidade nacional, percebe-se que as obras de Oksana Zabuzhko, assim como
a sua intervenção pública, não sejam consensuais. Recordo, sem muitos
pormenores, que, se é indiscutível que a Ucrânia tem uma vincada identidade
nacional, com fundamentos culturais seculares (é esse o tema do ensaio acima
referido), a sua independência política, ao longo dos tempos, têm-se revelado
muito frágil e complexa, resultante das dificuldades em afirmá-la entre os dois
grandes Blocos, por integrar uma percentagem importante da sua população que é
pró-russa, em termos culturais e políticos, e por existirem grandes
discrepâncias económicas na população (com uma classe oligárquica cujo poder
económico e político assenta em grande parte nos interesses e nos negócios que
mantem com a Rússia). Além disso, tal como sucede nos restantes países do Leste
da Europa com uma forte presença do cristianismo ortodoxo e com um longo
passado feudal e agrário, é uma sociedade marcadamente patriarcal, com a consequente
subjugação sexual e social da mulher, mas onde esta vem, gradualmente, a
assumir um maior protagonismo cultural, económico e político.
Grande parte do ascendente da obra de Oksana Zabuzhko deriva de ter introduzido, nas letras e na cultura
ucranianas, a reflexão resultante dos estudos de género e a perspectiva
pós-colonialista na análise da situação da mulher e da sujeição do seu país à
Rússia. Essa posição, numa cultura ainda muito fechada e sob a influência da
cultura russa, definiu claramente que a autora se colocava do “lado” das forças
sociais e políticas que defendiam a independência nacional e uma aproximação ao
Ocidente; mas, sendo este “lado” acentuadamente dominado por posições
nacionalistas e xenófobas, levou a que Oksana Zabuzhko se demarcasse destas
posições, procurando afirmar-se como uma voz independente.
Da obra narrativa da autora,
constituída por três romances e algumas colectâneas de contos, só estão traduzidos
dois romances e um livro de contos (com o título em inglês de “Your Ad Could Go
Here”) para inglês, francês e alemão (neste última língua, também estão
traduzidos alguns ensaios).
“The Museum of Abandoned Secrets”, o seu último
romance, é uma ampla saga histórica, com ingredientes do género policial, que
se desenrola ao longo da história contemporânea da Ucrânia desde o fim da II
Guerra Mundial às vésperas da chamada “Revolução Laranja”. A protagonista, uma
jornalista que investiga alguns factos que lhe permitam perceber melhor os
antecedentes da independência política ucraniana, descobre a foto de uma
militante do Exercito Insurrecional Ucraniano que foi assassinada pela polícia
política de Estaline (esclareça-se que aquela entidade é uma organização
militar independentista, activa nos anos quarenta e cinquenta, com um percurso
muito obscuro, pois ainda hoje é acusada de crimes de genocídio por parte dos polacos
e dos russos, que combateu os exércitos nazi e Vermelho e que foi dizimada pelo
último). A partir deste documento, a jornalista vai desvendar uma história
complexa, feita de corrupção, lutas pelo poder, paixões e assassínios, que se
desenrola por várias gerações, envolvendo a vida pessoal e pública de várias
mulheres, até aos inícios do presente século. Mas o romance apresenta outros
protagonistas que vão transmitir uma imagem poliédrica da história recente da
Ucrânia, revelando a dimensão épica da luta, quase sempre clandestina e
subliminar, dos militantes independentistas ucranianos contra o domínio
soviético.
Mas não há nenhuma dúvida
que a obra mais importante de Oksana Zabuzhko até hoje é “Fieldwork in Ukrainian
Sex”. Basta apenas assinalar que, desde que foi publicado, se tornou o romance
mais vendido na Ucrânia (estatuto que manteve durante mais de dez anos) e que
ainda hoje é considerado como uma das obras mais determinantes da cultura
ucraniana desde a independência política. O romance é um longo monólogo de uma
poetisa e professora convidada na Univ. de Harvard (um explícito alter-ego da
autora), sobre a sua condição de mulher e sobre a sua relação amorosa com um
pintor ucraniano. Ao longo dele, a narradora vai dissecando o comportamento
abusivo do seu amante, a violência intelectual e física que exerce sobre ela,
ao mesmo tempo que analisa os motivos que a levam a sentir-se atraída por ele e
a aceitar a sua dominação. De forma inevitável, é também levada a efectuar uma
analogia entre o seu estatuto de mulher aviltada (uma não existência) e a
própria identidade nacional, também ela condicionada a não-existir ou a
subjugar-se à vontade soberana da Rússia.
Este monólogo, acompanhando o fluir do pensamento, não
só dilui as referências de tempo e espaço, como é feito na primeira, na segunda
e na terceira pessoa do singular (conforme as situações narradas e o efeito que
se pretende criar no leitor), transformando-se num “continuum” sinuoso e
complexo, entre o registo poético e reflexivo, onde, a partir da sua
experiência pessoal, se alarga ao estatuto de todas as mulheres ucranianas, demonstrando
como o seu temor à repressão e aos códigos masculinos, a levou a não poder
fruir do seu corpo e a ser eliminada sistematicamente da sociedade e da
História. No fundo, o mesmo que sucedeu ao seu país ao longo dos tempos, motivando
a que o povo ucraniano questionasse a sua identidade, ao ponto de se seduzir,
como forma de reacção e afirmação, por movimentos xenófobos e nacionalistas.
Setembro de 2020
Desconheço a autoria da foto da escritora.


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