terça-feira, 22 de setembro de 2020

OKSANA ZABUZHKO

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

 

21ª Vinheta



OKSANA ZABUZHKO

  

“Language — any language — that’s what I would call the capital love of my life: nothing else has the power to synthesize music and myth, two things without which the world would be a totally unlivable place.” — Oksana Zabuzhko

 

Oksana Zabuzhko, ou Oksana Zaboujko, na transliteração para francês, ou Oksana Sabuschko, para alemão (1960-), é uma escritora ucraniana que é reconhecida como uma das mais importantes intelectuais do seu país, desde que este se tornou independente da União Soviética. Poeta, ensaísta e romancista, tem-se destacado em todos estes géneros literários, obtendo vários prémios, sendo de destacar o Prémio Angelus, considerado um dos mais importantes galardões concedido a obras literárias oriundas do Centro e Leste europeu. Académica, ensinou em diversas universidades americanas e é actualmente professora na Universidade de Kiev, dando aulas sobre literatura ucraniana e filosofia.

É opinião generalizada que escreveu provavelmente algumas das obras mais relevantes da literatura ucraniana contemporânea, gerando enorme polémica entre os críticos, mas com uma enorme receptividade por parte do público leitor. As suas obras que mais se destacaram são o ensaio Notre Dame d’Ukraine: Українка в конфлікті міфологій  (em inglês: Notre Dame d'Ukraine: Ukrayinka in the Conflict of Mythologies), 2007, e dois dos três romances de sua autoria: Польові дослідження з українського сексу (em inglês: Fieldwork in Ukrainian Sex), 1996, e Музей покинутих секретів (em inglês: The Museum of Abandoned Secrets), 2009. 

Centrando-se estas obras nos temas do género e da identidade nacional, percebe-se que as obras de Oksana Zabuzhko, assim como a sua intervenção pública, não sejam consensuais. Recordo, sem muitos pormenores, que, se é indiscutível que a Ucrânia tem uma vincada identidade nacional, com fundamentos culturais seculares (é esse o tema do ensaio acima referido), a sua independência política, ao longo dos tempos, têm-se revelado muito frágil e complexa, resultante das dificuldades em afirmá-la entre os dois grandes Blocos, por integrar uma percentagem importante da sua população que é pró-russa, em termos culturais e políticos, e por existirem grandes discrepâncias económicas na população (com uma classe oligárquica cujo poder económico e político assenta em grande parte nos interesses e nos negócios que mantem com a Rússia). Além disso, tal como sucede nos restantes países do Leste da Europa com uma forte presença do cristianismo ortodoxo e com um longo passado feudal e agrário, é uma sociedade marcadamente patriarcal, com a consequente subjugação sexual e social da mulher, mas onde esta vem, gradualmente, a assumir um maior protagonismo cultural, económico e político.  

Grande parte do ascendente da obra de Oksana Zabuzhko deriva de ter introduzido, nas letras e na cultura ucranianas, a reflexão resultante dos estudos de género e a perspectiva pós-colonialista na análise da situação da mulher e da sujeição do seu país à Rússia. Essa posição, numa cultura ainda muito fechada e sob a influência da cultura russa, definiu claramente que a autora se colocava do “lado” das forças sociais e políticas que defendiam a independência nacional e uma aproximação ao Ocidente; mas, sendo este “lado” acentuadamente dominado por posições nacionalistas e xenófobas, levou a que Oksana Zabuzhko se demarcasse destas posições, procurando afirmar-se como uma voz independente.

Da obra narrativa da autora, constituída por três romances e algumas colectâneas de contos, só estão traduzidos dois romances e um livro de contos (com o título em inglês de “Your Ad Could Go Here”) para inglês, francês e alemão (neste última língua, também estão traduzidos alguns ensaios).

“The Museum of Abandoned Secrets”, o seu último romance, é uma ampla saga histórica, com ingredientes do género policial, que se desenrola ao longo da história contemporânea da Ucrânia desde o fim da II Guerra Mundial às vésperas da chamada “Revolução Laranja”. A protagonista, uma jornalista que investiga alguns factos que lhe permitam perceber melhor os antecedentes da independência política ucraniana, descobre a foto de uma militante do Exercito Insurrecional Ucraniano que foi assassinada pela polícia política de Estaline (esclareça-se que aquela entidade é uma organização militar independentista, activa nos anos quarenta e cinquenta, com um percurso muito obscuro, pois ainda hoje é acusada de crimes de genocídio por parte dos polacos e dos russos, que combateu os exércitos nazi e Vermelho e que foi dizimada pelo último). A partir deste documento, a jornalista vai desvendar uma história complexa, feita de corrupção, lutas pelo poder, paixões e assassínios, que se desenrola por várias gerações, envolvendo a vida pessoal e pública de várias mulheres, até aos inícios do presente século. Mas o romance apresenta outros protagonistas que vão transmitir uma imagem poliédrica da história recente da Ucrânia, revelando a dimensão épica da luta, quase sempre clandestina e subliminar, dos militantes independentistas ucranianos contra o domínio soviético. 

Mas não há nenhuma dúvida que a obra mais importante de Oksana Zabuzhko até hoje é “Fieldwork in Ukrainian Sex”. Basta apenas assinalar que, desde que foi publicado, se tornou o romance mais vendido na Ucrânia (estatuto que manteve durante mais de dez anos) e que ainda hoje é considerado como uma das obras mais determinantes da cultura ucraniana desde a independência política. O romance é um longo monólogo de uma poetisa e professora convidada na Univ. de Harvard (um explícito alter-ego da autora), sobre a sua condição de mulher e sobre a sua relação amorosa com um pintor ucraniano. Ao longo dele, a narradora vai dissecando o comportamento abusivo do seu amante, a violência intelectual e física que exerce sobre ela, ao mesmo tempo que analisa os motivos que a levam a sentir-se atraída por ele e a aceitar a sua dominação. De forma inevitável, é também levada a efectuar uma analogia entre o seu estatuto de mulher aviltada (uma não existência) e a própria identidade nacional, também ela condicionada a não-existir ou a subjugar-se à vontade soberana da Rússia.

Este monólogo, acompanhando o fluir do pensamento, não só dilui as referências de tempo e espaço, como é feito na primeira, na segunda e na terceira pessoa do singular (conforme as situações narradas e o efeito que se pretende criar no leitor), transformando-se num “continuum” sinuoso e complexo, entre o registo poético e reflexivo, onde, a partir da sua experiência pessoal, se alarga ao estatuto de todas as mulheres ucranianas, demonstrando como o seu temor à repressão e aos códigos masculinos, a levou a não poder fruir do seu corpo e a ser eliminada sistematicamente da sociedade e da História. No fundo, o mesmo que sucedeu ao seu país ao longo dos tempos, motivando a que o povo ucraniano questionasse a sua identidade, ao ponto de se seduzir, como forma de reacção e afirmação, por movimentos xenófobos e nacionalistas.

Setembro de 2020

Desconheço a autoria da foto da escritora.




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