segunda-feira, 7 de setembro de 2020

STIG DAGERMAN

 

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

19ª Vinheta



STIG DAGERMAN

 

Stig Dagerman (1923-1954) é indiscutivelmente um dos mais prestigiados escritores suecos do séc. XX. Mas a sua breve existência e o seu curto período de efectiva produtividade literária não levavam a crer, quando morreu, que a sua obra viesse a ter a actual projecção. É certo que Stig Dagerman, desde a edição do primeiro livro, obteve logo a aprovação dos críticos (e dos seus pares) e ainda do público leitor. Mas, mesmo assim, nada faria prever a consagração que esta obra obteve após a morte do autor e principalmente o seu reconhecimento internacional.

Creio que a obra e a personalidade de Stig Dagerman permite evidenciar um lugar-comum que muitas vezes é esquecido: a de que, para lá da técnica e da competência estética e literária adquirida, o que efectivamente distingue os criadores literários é a sua sensibilidade e a forma como apreendem o mundo.

Na generalidade dos casos, os estudiosos da obra de Stig Dagerman costumam assinalar dois factos decisivos para a formação da sua personalidade. O primeiro, foi ter sido abandonado pela mãe (que era solteira) pouco depois de ter nascido, deixando-o aos cuidados dos avôs paternos na sua fazenda rural (o pai tinha migrado para Estocolmo), vindo apenas a reencontrá-la depois de adulto. Segundo se crê, esta situação foi determinante para lhe provocar uma instabilidade emocional que o iria acompanhar ao longo da sua curta vida e que seria um dos factores que mais pesariam para o seu caracter depressivo e para a sua propensão para o suicídio. O segundo, foi ter sido introduzido pelo pai (com quem veio viver aos onze anos) no meio sindical, onde tomou contacto com os princípios libertários e anarquistas. Recorde-se que estamos a referir-nos à década de trinta do século passado, quando pela Europa estão em ascensão os movimentos fascista e nazi e, por outro lado, ocorre a Guerra Civil de Espanha. Foi neste meio sindical que Stig Dagerman conseguiu revelar as suas capacidades de escrita, ao trabalhar na imprensa operária e obtendo um rápido prestígio e reconhecimento, e que vem a conhecer a sua primeira mulher, filha de anarco-sindicalistas alemães. Esta família, que tinha fugido da Alemanha de Hitler e que, depois de ter participado activamente na Guerra Civil de Espanha, se refugiou, após a derrota das forças republicanas, na Suécia, vai-lhe propiciar tomar conhecimento dos grandes debates ideológicos e políticos que então atravessam a Europa, levando Stig Dagerman a acolher em definitivo o ideal libertário.     

De facto, foi este contexto que o estimulou a escrever o seu primeiro romance “Ormen” (“A Serpente”; na medida em que todas as obras narrativas deste autor estão traduzidas e editadas no nosso país, apresentaremos apenas os títulos na língua original e na sua tradução portuguesa), 1945, que publica quando ainda tem apenas vinte e dois anos, e que obtém um imediato reconhecimento crítico. A partir daqui, tudo ocorre a uma velocidade vertiginosa na vida de Stig Dagerman: no ano seguinte, publica um segundo romance e convence o seu jornal a permitir-lhe efectuar uma reportagem na Alemanha, para perceber em que estado ficou este país e a sua população após a derrota nazi, e que publica no ano seguinte. É nessa altura que se introduz no meio teatral, o que o leva a escrever várias peças de teatro, e vem a conhecer a segunda mulher, uma jovem actriz já com algum sucesso, com quem de imediato se casa. Publica logo de seguida, um livro de contos e um novo romance, mas começa a sentir dificuldades financeiras, resultantes da necessidade de sustentar os filhos do primeiro casamento e uma filha que nasce deste segundo relacionamento. É esta situação, associada a uma propensão clara para a depressão e um enorme cepticismo em relação ao seu lugar no mundo e ao futuro, e ainda a uma obsessiva crise de inspiração, que o leva a suicidar-se. Pelo caminho, em apenas cinco anos, ficaram quatro romances, um livro de contos, uma grande reportagem, várias peças de teatro, inúmeros poemas satíricos que publicou diariamente no jornal onde trabalhou e alguns textos dispersos que deram origem a uma colectânea póstuma (“Tusen år hos Gud”), de onde se extraiu algumas das páginas mais conhecidas do autor e foram intituladas no nosso país por “A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer”.

Por comodidade, é costume associar a obra de Stig Dagerman à filosofia existencialista de que, de facto, é coeva. Mas creio que será mais adequado enquadrá-la no clima social e político da época, em particular na situação de guerra, que, de diversas formas, contribuiu decisivamente para a sua “tonalidade” global.

Creio que o principal motivo da perenidade da obra de Stig Dagerman deriva do sentimento, verdadeiramente estrutural, de que existe uma profunda vulnerabilidade na vida. E que, só por existir, a própria vida provoca uma situação de “perca” porque gera uma expectativa que ficará sempre “insatisfeita”. Creio ainda que é este sentimento que dá sentido e sustentabilidade às posições ideológicas e políticas do autor, levando-o a entender o homem como um Sísifo em busca de concretizar um sonho de alterar profundamente a sua vida que, de um modo inevitável, nunca será atingido.

Há quem considere que existe neste “olhar” sobre o mundo uma “sensibilidade” genuinamente adolescente. Mas, mesmo que se entenda desta forma este “olhar”, não há dúvida que foi o germe de uma exigência moral e de um furor criativo que está na base de uma obra que, mesmo na sua diminuta dimensão, é bem distinta de livro para livro, tanto em termos estilísticos e de arquitectura, como nos focos da realidade em que se centrou e que se revela de uma invulgar lucidez e de uma fulgurante beleza.

Não admira por isso que os leitores e os analistas da obra de Stig Dagerman tenham flutuado na avaliação de qual dos seus livros é a sua efectiva obra-prima.

Assim, desde o já referido “Ormen” (“A Serpente”), um conjunto de narrativas aparentemente distintas que se conjugam num romance centrado no tema do medo (ou do medo do medo) e do espaço concentracionário, até Bröllopsbesvär” (”As Sete Pragas do Casamento”), 1949, que é, mais do que uma trágica e mordaz sátira às contradições, absurdos e equivocos que nascem no seio do ”casamento”, um libelo acusatório sobre as dificuldades de comunicação entre os homens, passando por ”De dömdas ö” (”A Ilha dos Condenados”), 1946, uma alegoria sobre o horror da incomunicabilidade e da morte, em torno de sete náufragos que aguardam o fim inevitável numa ilha deserta, e por ”Bränt Barn” (”O Vestido Vermelho”, na versão portuguesa, mas cuja tradução literal para inglês é ”A Burnt Child”), 1948, já todos foram considerados como “a” obra-prima de Stig Dagerman ao longo das épocas e de diversos leitores. Além disso, há também a considerar a reportagem “Tysk höst” (“Outono Alemão”), 1947, entendida como modelar, pela intensidade e pelo sentido de observação, do que deve ser um trabalho jornalístico, e que é hoje uma peça fundamental para compreender o povo alemão, o seu envolvimento com o nazismo, e a abissal e inumana miséria que sobre ele caiu com o fim da II Guerra Mundial, do regime que a motivou e o brutal comportamento revanchista das forças aliadas vitoriosas.

Pela nossa parte, gostaria de chamar a atenção para “O Vestido Vermelho”. Este romance, de tonalidades fortemente edipianas, centra-se na relação conflituosa de Bengt, um jovem de vinte anos, com o seu pai, despoletada pela brutal descoberta, com a morte da mãe (a obra inicia-se coma descrição, com uma rude objectividade e uma intensa carga simbólica, da sua vigília e enterro) de que a vida não passa de uma anónima solidão, rodeada pela abissal indiferença dos outros. É essa “verdade” que o narrador vai dissecar e transfigurar em páginas redigidas na primeira pessoa do singular, e que se contrapõem às que, redigidas na terceira pessoa do singular, se descreve, de uma forma concisa e sincopada, as situações familiares que envolvem o jovem Bengt, não só com o pai, mas também com a amante deste e com a sua noiva. De facto, Bengt é uma personagem dilacerada por sentimentos contraditórios: entre a compaixão e a repugnância para com o pai, que encara como um alcoólico e um cobarde, principalmente por ter ocultado a relação com a sua amante enquanto a mãe ainda era viva e por ter rodeado esta de desprezo e indiferença; pelo ódio e o desejo para com a amante do pai, que procura humilhar e seduzir; pela ternura e o repúdio para com a noiva, que, na maior parte das vezes, considera um ser servil e abúlico; e, por fim, para consigo próprio, porque pressente que a paixão que sente pela mãe se irá esfumar com o tempo e que ele próprio se irá acomodar à mesma indiferença que os outros sentiram por ela em vida.

No fundo, Bengt percebe que essa “verdade”, que descobriu com o seu luto e o seu exercício de lucidez, irá gradualmente consumir-se como a vela da candeia em que se queimou no dia do enterro (“o filho queimado”). E, por isso, esta vela torna-se o símbolo mais perene e constante de todo o romance, pois, por um lado, representa a vida da mãe, mas por outro, os sentimentos que a personagem principal por ela nutre e, por fim, a sua própria vida.

Por último, deve assinalar-se que a obra narrativa de Stig Dagerman está toda traduzida e editada no nosso país e que, além disso, é servida por muito boas traduções e ainda que, em quase todas as edições, existem introduções e notas introdutórias que as procuram contextualizar. Assim, e começando pela mais antiga, pois a primeira edição é já dos finais dos anos cinquenta, efectuada pela Estúdios Cor (e reeditada mais tarde pela Antígona), está “O Vestido Vermelho”, numa tradução de Irene Lisboa, que também redigiu um prefácio; depois, na década de oitenta, é publicado pela Fenda uma pequena brochura, o já referido “A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer” (“Värt behov av tröst”), numa versão de Paula Castro e José Daniel Ribeiro, que, tendo em conta o número de reedições (a última pela editora VS), deve ter sido a obra de Stig Dagerman que mais o deu a conhecer no nosso país. Já na década de noventa, começa o memorável trabalho editorial da Antígona que, para além da já referida reedição de “O Vestido Vermelho”, publica “A Ilha dos Condenados”, numa tradução, a partir do francês, de Miguel Serras Pereira, “Outono Alemão”, numa tradução, a partir do francês, de Júlio Henriques, a colectânea de contos “Jogos da Noite” (“Nattens lekar”), numa tradução, a partir do francês, de Miguel Serras Pereira, e, por último, “A Serpente”, numa tradução, a partir do sueco, de Ana Diniz e com um posfácio, muito importante para compreender a obra de Stig Dagerman, de C. G. Bjurström. À margem deste trabalho da Antígona, há também que referir “As Sete Pragas Do Casamento”, numa tradução, a partir do francês, de Miguel Serras Pereira, editado pela Relógio d’Água.

Assinale-se também que, para além desta obra narrativa, foi traduzida a peça dramática A Sombra de Mart” (“Skuggan av Mart”), por Luis Assis e Melanie Mederlind, publicado pela Cotovia e “A Política do Impossível. Ensaios e Artigos Selecionados” (“Essäer Och”), numa tradução de Flávio Quintale e adaptação de Carina Correia, publicado pela editora VS.

 

Setembro de 2020

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.



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