OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
20ª Vinheta
CARMINE ABATE
Carmine Abate (1954-) é um escritor
italiano, de origem arbëreshë, da região da Calábria, que emigrou, com a sua
família, ainda muito novo, para a Alemanha, onde viveu até aos seus trinta anos.
A partir da década de setenta, publicou vários livros de poesia, de ensaio, de
contos e dez romances, sendo neste género que mais se tem evidenciado, obtendo vários
prémios no seu país, entre os quais se destaca o Prémio Campiello de 2012, com
“La collina del vento”.
Antes do mais, para perceber a obra
deste autor, talvez seja útil esclarecer um pouco quem são os arbëreshë. Este
povo é constituído por albaneses que emigraram para o Sul da Itália,
principalmente para a Calábria e para a Sicília, a partir dos finais do séc.
XV, quando a sua originária terra foi conquistada e anexada pelo Império
Otomano. Profundamente arreigado às suas tradições culturais, conseguiu manter
a sua língua, transformada num dialecto ítalo-albanês, vários costumes e as
suas práticas religiosas (são católicos de rito bizantino). Sendo considerados
como a maior minoria da Itália, os arbëreshë têm obtido algum reconhecimento por
parte das autoridades italianas, pois que a sua cultura e a sua língua são ensinadas
nalgumas escolas e universidades. Porém, ainda hoje é um povo com uma vivência acentuadamente
rural, e, por isso mesmo, a sua língua é de uso quotidiano em muitas aldeias e
povoações. Segundo os últimos dados conhecidos, esta comunidade é constituída
por cerca de cem mil pessoas.
Tendo em conta esta origem e, em
particular, a sua situação de emigrante na Alemanha, compreende-se que se
considere habitualmente que os temas nucleares da narrativa de Carmine Abate sejam
as tradições culturais da sua comunidade, o multiculturalismo, a emigração e os
problemas decorrentes da condição de migrante. Entendo, no entanto, que há que
perspetivar de forma mais ampla esta narrativa e considerar que ela se centra
nas situações de confronto entre universos culturais distintos e as correspondentes
formas de estar e de sentir.
No conjunto da sua obra, há três
romances que, sendo inteiramente autónomos, se interligam numa unidade, que o
próprio autor intitulou “Le stagioni di Hora”, e que são “Il ballo tondo”
(1991), “La moto di Scanderberg” (1999) e “Il mosaico del tempo grande” (2006).
Situados em Hora, um lugar mítico e ao mesmo tempo bem concreto, os dois
primeiros romances são sagas familiares, onde o passado lendário dos arbëreshë
e o espectro sombrio da emigração se cruzam, num registo ao mesmo tempo lírico,
mágico e realista; o último tem um enfoque mais aberto a toda a comunidade, pois
a narrativa procura cimentar, como num mosaico, vários “momentos” épicos da
história do povo albanês e da “fuga” daqueles que em Itália vão dar origem aos
arbëreshë.
Da restante obra narrativa de Carmine
Abate, merece particular destaque os romances “Tra due mari” (2002), “La festa
del ritorno” (2004), “La collina del vento” (2012), “La felicità dell’attesa”
(2015) e “Le rughe del sorriso” (2018).
Mesmo continuando a “revisitar” a
temática da cultura tradicional da sua comunidade (e o lugar de Hora, onde
volta a situar alguns destes romances), Carmine Abate centra-se mais, nestas obras, no fenómeno migratório das gentes
oriundas da “sua” Calábria e a sua integração nos países de acolhimento, sejam
eles a Alemanha, a França ou a “América”. Saliente-se que estes romances procuram
evidenciar, mais do que a problemática da integração, o contraditório rosário
de sofrimento e mágoa do emigrante resultante da culpabilização de ter
abandonado a sua terra, o seu património familiar e colectivo (decisivo para estruturar
a sua identidade como migrante) e os objectos do seu afecto (filhos, pais,
amigos e amores), e de como essa mágoa tem um efeito desagregador que lhe dificulta
a sua inserção na sociedade em que optou (?) viver.
Assim, Carmine Abate, fruto da sua
experiência de emigrante, compreendeu que existem dois “universos”, com peso
equivalente, que se digladiam em quem emigra. Esses “universos”, ao mesmo tempo
reais e fantasiados, são tingidos, por um lado, pelo sonho e pela ambição de se
afirmar num “novo” mundo, e, por outro, gizados com a memória opressiva daquilo
que ficou. Por isso mesmo, os seus romances, através dos seus narradores e
personagens principais, procuram destacar, em diversos contextos e situações, a
epicidade de quem parte, mas também de quem resiste a esse sonho e permanece,
lutando pela preservação do seu património, no lugar em que nasceu. Esse lugar
é sempre a Calábria, com os seus vestígios históricos, as suas montanhas e
colinas, os seus mares, a sua paisagem agreste, as suas gentes - camponeses
rudes e isolados -, as suas tradições e culturas, que se “colam”, como uma
segunda pele, em todas as figuras que povoam a obra de Carmine Abate, sejam
elas emigrantes ou não.
É este o caso de “Tra due mari”, cuja
trama assenta no percurso de dois homens (um fotógrafo alemão que, após a II
Guerra Mundial, resolve procurar na Calábria a luz que necessita para o seu
trabalho, e um natural da região, obcecado com as “suas” tradições
patrimoniais, em particular com a reconstrução de uma pousada, onde teria
pernoitado Alexandre Dumas), nas cumplicidades e nas tensões que entre ambos se
vão criando ao longo do tempo, e nos reflexos desta relação nas gerações
futuras (pois os filhos destes homens casaram-se e deram origem a Florian, o
jovem narrador que redige a sua história).
Mas talvez seja mais evidente a
temática do confronto de culturas e a relevância dos já referidos “universos”
nos romances “La collina del vento” e “La felicità dell'attesa”, que, de certo modo, formam um díptico. No
primeiro, narra-se a história de uma família, os Arcuri, ao longo do séc. XX, e
da sua defesa obstinada de uma colina, que considera como o seu lugar matricial,
contra as ambições mafiosas da especulação imobiliária; o segundo, narra a vida
na “América” de várias gerações de emigrantes de uma mesma família, também ao
longo do séc. XX, e sua constante luta por vencer e por obter “um lugar ao sol”
(uma das figuras determinantes de “La felicità dell'attesa” é Andy “The Greek” Varipapa, um calabrês que se
tornou mundialmente conhecido como campeão de bowling), por serem felizes e apaixonar-se
(também aparece no romance Norman Jean...), mas cujo peso do passado os leva a
sentirem-se constantemente divididos, regressando e de novo “fugindo”, para escapar à miséria e ao
trabalho escravo nas minas calabresas.
A Calábria é também o lugar central de “Le rughe del sorriso”, mas agora como
terra de “abrigo” dos refugiados africanos (é esta a constante ironia da
História: uma terra de emigrantes que se transforma no “porto” de chegada de
imigrantes…). Neste romance, a personagem principal é agora uma jovem somali
que, depois de atravessar o Mediterrâneo e entrar num centro de acolhimento,
desaparece com a sua família, “esfumando-se” na Europa. Só que a passagem da
sua beleza e do seu sorriso deixou uma semente no seu professor de italiano que,
apaixonado, vai tentar desvendar o passado daquela jovem até a sua chegada e
descobrir os mistérios e tragédias que escondem aquele esfíngico sorriso. O seu
objectivo é perceber qual foi o seu possível destino, se foi voluntário ou
forçado, e o que ela procura na Europa, que a obriga constantemente a partir,
para tentar seguir-lhe o rasto. Mas o romance, paralelamente, deseja também
entender como é que a Calábria, terra de emigrantes, desertificada e com uma
população envelhecida, reage a esta nova população e se lhe manifesta a mesma
hospitalidade que as suas gentes procuraram no estrangeiro quando emigravam.
Pela minha parte, gostaria de
destacar o romance “La festa del ritorno”, por me parecer ser o que, com a sua
trama aparentemente simples, melhor sintetiza a problemática do autor. Mais uma
vez neste romance, o narrador é um adolescente que vive na sua Calábria natal a
amargura de se sentir abandonado pelo pai emigrante. Sucede, no entanto, que
este pai, culpabilizado pelo abandono da sua terra e da sua família, vive em tormento
a sua condição. Até que, em consequência de uma tragédia familiar, em que o
adolescente se vê obrigado a assumir o papel do pai em defesa da família,
levando-o a uma situação que lhe poderia trazer consequências dramáticas e irremediáveis,
o emigrante resolve prometer ao filho que não voltará a emigrar (uma situação
recorrente em alguns romances de Carmine Abate), ficando na sua terra para
proteger os seus e a sua comunidade.
Convém, por último, referir que, se
os romances de Carmine Abate têm uma estrutura quase sempre um pouco
convencional (há sempre um narrador, habitualmente um jovem, que introduz as
situações que se vão desenrolando ao longo do romance e que funciona como uma
espécie de alter-ego, sempre distinto, do próprio escritor), a sua trama é, por
vezes, bastante complexa, muito romanesca e nitidamente resultante da recriação
da própria experiência do autor. Além disso, e é este o aspecto mais
assinalável da sua obra, apresenta sempre um estilo bem musical, com uma utilização
constante de termos dialectais, que lhe dão um colorido sensorial, emotivo e
lírico, e que o recurso constante à cultura popular, arbëreshë ou apenas
calabresa, consegue transmitir uma tonalidade mágica a muitas das situações
narradas.
Existem vários romances de Carmine
Abate traduzidos e editados em inglês, francês e alemão (em particular, da
trilogia de “Le stagioni di Hora”, pois foram as obras que, provavelmente, maior
sucesso internacional tiveram).
No nosso país, o Círculo de Leitores
editou dois romances (“O Baile Circular” e “Entre Dois Mares”), sempre com
traduções cuidadas de Eduardo Saló.
Setembro de 2020
Desconheço a autoria da foto do
escritor.


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