sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

LIVROS DE 2018

 



MAIS UMA LISTA DE LIVROS

 Ao contrário do que sucedeu em 2017, os livros que maior satisfação me deu ler este ano, são obras clássicas. Por isso, em 2018, não apresento nesta lista nem autores menos conhecidos nem novos autores. Sucede. E talvez tenha sido bom que assim fosse.

Também, de forma diferente do ano passado, entre os livros que gostei mais de ler está uma obra de um autor português. Ainda bem. Em particular, para mim.

E aqui vão, sem nenhuma hierarquia nem mais conversa, os cinco livros que seleccionei dos que li em 2018:

1.º Acabei agora a leitura de “Guerra e Paz” de Lev Tolstói, na tradução de António Pescada (optei por esta versão, em relação à de Nina Guerra e Artur Guerra, também muito recomendada e recomendável, por causa da comodidade de ser, na edição da Relógio d’Água, em dois volumes). Parece-me uma excelente tradução. Pelo menos, está feita num português escorreito e claro e isso é já um magnífico sinal.

Sabe-se lá por que conjugação dos astros, nunca tinha lido este clássico. Provavelmente, já o li fora da época certa; mas, como diz um amigo meu, muito que se leia, haverá sempre um livro que não se leu na época certa.

Creio que sobre “Guerra e Paz” já foi tudo escrito e dito que era possível escrever e dizer. Mas mesmo assim, com alguma presunção, gostaria de afirmar que esta obra continua a impressionar pela perfeita articulação entre História e a história pessoal das inúmeras personagens, pela matização com que estas são construídas e pelo carácter marcadamente polifónico com que é elaborada. Passados mais de cento e cinquenta anos da sua publicação, percebe-se bem porque é que continua a ser consensualmente considerada um clássico incontornável (desculpem a utilização deste cliché já com uso e “abuso”). Uma das poucas marcas que o tempo deixou nela é, na minha perspectiva, a forma como Lev Tolstói trata as personagens femininas: todas elas são, à boa maneira romântica, mulheres apaixonadas (como os homens, aliás), mas ao mesmo tempo, são apresentadas como seres frágeis, ou volúveis, ou fúteis, o que é resultante, parece-me evidente, de uma imagem determinada por uma sociedade fortemente patriarcal. Outro aspecto, que talvez “incomode” nos tempos actuais, é a sua visão em absoluto determinista da História que, diga-se de passagem, na minha opinião, é fruto de uma fundamentação com um vício de lógica…

Desconfio, no entanto, que hoje “Guerra e Paz” seja mais uma obra de referência do que uma obra lida de facto. Digo isto porque não foram poucos os meus amigos jovens leitores que se espantaram com a minha leitura e louvaram a minha “coragem”. Creio que se “assustam” com as suas mais de mil e trezentas páginas… (na edição que eu li, como é óbvio). Mas é pena, porque, além do resto, é uma obra de leitura francamente aprazível…

2º Outra obra de marcante leitura foi “Gente Independente” de Halldór Laxness. Li-a na tradução de Guƌlaug Rún Margeirsdóttir, editada pela Cavalo de Ferro. Esta obra, que é comummente assumida como a mais importante saga da literatura moderna islandesa e que contribuiu de forma significativa para a concessão do Prémio Nobel ao seu autor, permite perceber bem o carácter, a que alude o título, deste povo de pastores, vivendo em condições climáticas verdadeiramente severas (para não dizer mortíferas - pelo menos para um meridional como é o meu caso) e obrigado a sobreviver numa frugalidade e numa contenção à beira da miséria mais absoluta. A sua personagem principal, Bjartur, pela sua rudeza quase brutal, é uma figura inesquecível e permite compreender como a casa e a terra – a sua pequena propriedade conquistada com os inúmeros sacrifícios e privações em que vive e para a qual “arrasta” a sua família – se torna a fronteira decisiva entre a vida e a morte.

O adjectivo que nos vem de imediato à cabeça, depois de ler “Gente Independente”, é “impressionante”. E é impressionante não só pela sua matéria narrada, mas principalmente pela crueza como é descrita a evolução (sim, é este o termo certo) psicológica das suas personagens, num quadro temporal que vai do final do séc. XIX à década de trinta do século passado. Só um último pormenor: o autor revela uma imensa coragem pela forma como descreve, sem prévios julgamentos morais, a gradual “progressão” da paixão incestuosa da personagem principal pela sua filha, entre o mais cândido afecto e um envolvente impulso físico, num quadro de uma vida que exige uma total cumplicidade anímica para conseguir sobreviver nestas inóspitas condições naturais. Esta paixão, de uma aparente amoralidade, é em parte resultante do próprio “caldo orgânico” em que as personagens estão mergulhadas e tem a suas inevitáveis consequências: a mais radical desagregação moral e social da jovem, “empurrada” a abandonar o casulo familiar….

3º Uma indiscutível novidade para mim foi a leitura da pequena obra de Heinrich Heine, intitulada “Ideias. O Livro de Le Grand”, na muita boa tradução de Fernanda Mota Alves, editada pela Relógio d’Água. É certo que já tinha lido algumas obras sobre este autor e conhecia bem a sua relevância para o romantismo alemão. Mas esta colectânea de excertos tornou-se uma deliciosa revelação pelo sarcasmo e ironia do autor na sua denúncia do conservadorismo da sociedade alemã que, já na altura, fermentava de comportamentos sociais que iriam desembocar, um século mais tarde, no nazismo. De facto, o humor cáustico e implacável, mas também hilariante, de Heinrich Heine foi para mim um verdadeiro balsamo nestes dias que pressentem nuvens muito sombrias no horizonte e que tem inúmeras parecenças com aquelas que o autor vislumbrava no seu tempo.

4º O livro de autor português que gostaria de destacar, entre as minhas leituras deste ano, é o “O Manual de Inquisidores” de António Lobo Antunes, editado, como a restante obra do autor, nas Publicações Dom Quixote, e que, mais uma vez, sabe lá por que razões do diabo, não li na altura em que saiu. Já vi escrito, penso que num tom depreciativo, que António Lobo Antunes é “um romancista que escreve excelentes crónicas”. Este romance, que me parece integrar um segundo ciclo (espero que os especialistas da obra do autor me desculpem por tentar definir “ciclos” na sua obra), é, de facto, uma das mais admiráveis crónicas escritas sobre o período que medeia entre os finais dos anos cinquenta e os finais dos anos setenta deste canto à beira-mar plantado. Por isso, na minha opinião, é já, na literatura portuguesa, um clássico contemporâneo. Com uma estrutura, em que, aos diversos capítulos com narradores distintos, se sucede um “comentário”, com um outro narrador, de algum modo relacionado com o anterior, dando uma outra visão sobre a acção já descrita, o romance apresenta um “fresco” muito amplo de diversos tipos sociais, de Lisboa e das regiões limítrofes, vivendo em redor da clique dirigente do regime fascista, e permite entender como se foi processando o seu desmoronamento até ao aparecimento das condições psicológicas e sociais que possibilitaram o 25 de Abril.

Convém, por fim, acrescentar que a obra progride, utilizando o estratagema da recorrência de imagens e situações, servida por uma prosa com registos que vão desde o humor amargo à emoção mais intensa e empática no tratamento das personagens.

Por isso, “Manual dos Inquisidores” é uma crónica que é um excelente romance. Sem tom depreciativo nenhum.    

5º Por último, um romance que não se pode considerar um clássico, mesmo tendo em conta que ganhou o Prémio Pulitzer no ano em que foi publicado: “Middlesex” de Jeffrey Eugenides, que eu li na tradução de Pedro Serras Pereira, editado pelas Publicações Dom Quixote. Esta saga parece conter dois romances em um: por um lado, a história de uma menina que nasceu com genes masculinos (a que o título alude); por outro, a história da sua família, originária da Anatólia grega, que, fugindo da guerra greco-turca resultante do colapso do Império Otomano, nos inícios do séc. XX, emigra para a América e aí “vive” as vicissitudes sociais e políticas do país que a acolhe.

É certo que o autor procura efectuar uma “hábil” articulação entre as “duas” tramas, colocando o próprio gene do protagonista como narrador, em particular, da história familiar. Mas, ao partir da história mais global, onde se enquadra a família, para o problema concreto do protagonista, transfere-se o sujeito narrador para este último, e o leitor fica, de forma quase inevitável, com esta sensação de que está a ler uma obra que é constituída por dois romances em um.

Mas este comentário nada invalida em reconhecer que “Middlesex” é de facto um romance notável, tremendamente bem escrito (com descrições muito bem enquadradas em termos narrativos, como é o caso do incêndio de Esmirna nos anos vinte ou os motins raciais de Detroit nos anos sessenta), com uma assinalável profundidade psicológica (o regresso do narrador, já com um seu estatuto masculino assumido, à casa e ao bairro onde tinha vivido, e a forma como “olha” de forma distinta para os lugares onde tinha passado a sua infância e adolescência feminina, entre enormes angústias e incertezas, é de uma beleza fulgurante e, principalmente, de uma densidade psicológica notável). Por isso, “Middlesex”, na aparência parecendo centrar-se numa problemática muito peculiar, consegue transpor para uma narrativa ficcionada uma reflexão muito sólida sobre as questões de identidade e de género e como estas estão no cerne da condição humana.



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