MAIS UMA LISTA DE LIVROS
Também, de forma diferente do ano
passado, entre os livros que gostei mais de ler está uma obra de um autor português.
Ainda bem. Em particular, para mim.
E aqui vão, sem nenhuma hierarquia
nem mais conversa, os cinco livros que seleccionei dos que li em 2018:
1.º Acabei agora a leitura de “Guerra
e Paz” de Lev Tolstói, na tradução de António Pescada (optei por esta versão,
em relação à de Nina Guerra e Artur Guerra, também muito recomendada e
recomendável, por causa da comodidade de ser, na edição da Relógio d’Água, em
dois volumes). Parece-me uma excelente tradução. Pelo menos, está feita num
português escorreito e claro e isso é já um magnífico sinal.
Sabe-se lá por que conjugação dos
astros, nunca tinha lido este clássico. Provavelmente, já o li fora da época
certa; mas, como diz um amigo meu, muito que se leia, haverá sempre um livro
que não se leu na época certa.
Creio que sobre “Guerra e Paz” já foi
tudo escrito e dito que era possível escrever e dizer. Mas mesmo assim, com
alguma presunção, gostaria de afirmar que esta obra continua a impressionar
pela perfeita articulação entre História e a história pessoal das inúmeras
personagens, pela matização com que estas são construídas e pelo carácter
marcadamente polifónico com que é elaborada. Passados mais de cento e cinquenta
anos da sua publicação, percebe-se bem porque é que continua a ser consensualmente
considerada um clássico incontornável (desculpem a utilização deste cliché já
com uso e “abuso”). Uma das poucas marcas que o tempo deixou nela é, na minha
perspectiva, a forma como Lev Tolstói trata as personagens femininas: todas
elas são, à boa maneira romântica, mulheres apaixonadas (como os homens,
aliás), mas ao mesmo tempo, são apresentadas como seres frágeis, ou volúveis,
ou fúteis, o que é resultante, parece-me evidente, de uma imagem determinada
por uma sociedade fortemente patriarcal. Outro aspecto, que talvez “incomode”
nos tempos actuais, é a sua visão em absoluto determinista da História que,
diga-se de passagem, na minha opinião, é fruto de uma fundamentação com um vício
de lógica…
Desconfio, no entanto, que hoje
“Guerra e Paz” seja mais uma obra de referência do que uma obra lida de facto.
Digo isto porque não foram poucos os meus amigos jovens leitores que se espantaram
com a minha leitura e louvaram a minha “coragem”. Creio que se “assustam” com
as suas mais de mil e trezentas páginas… (na edição que eu li, como é óbvio).
Mas é pena, porque, além do resto, é uma obra de leitura francamente aprazível…
2º Outra obra de marcante leitura foi
“Gente Independente” de Halldór Laxness. Li-a na tradução de Guƌlaug Rún
Margeirsdóttir, editada pela Cavalo de Ferro. Esta obra, que é comummente
assumida como a mais importante saga da literatura moderna islandesa e que
contribuiu de forma significativa para a concessão do Prémio Nobel ao seu
autor, permite perceber bem o carácter, a que alude o título, deste povo de
pastores, vivendo em condições climáticas verdadeiramente severas (para não
dizer mortíferas - pelo menos para um meridional como é o meu caso) e obrigado
a sobreviver numa frugalidade e numa contenção à beira da miséria mais
absoluta. A sua personagem principal, Bjartur, pela sua rudeza quase brutal, é
uma figura inesquecível e permite compreender como a casa e a terra – a sua
pequena propriedade conquistada com os inúmeros sacrifícios e privações em que
vive e para a qual “arrasta” a sua família – se torna a fronteira decisiva
entre a vida e a morte.
O adjectivo que nos vem de imediato à
cabeça, depois de ler “Gente Independente”, é “impressionante”. E é
impressionante não só pela sua matéria narrada, mas principalmente pela crueza
como é descrita a evolução (sim, é este o termo certo) psicológica das suas
personagens, num quadro temporal que vai do final do séc. XIX à década de trinta
do século passado. Só um último pormenor: o autor revela uma imensa coragem
pela forma como descreve, sem prévios julgamentos morais, a gradual “progressão”
da paixão incestuosa da personagem principal pela sua filha, entre o mais
cândido afecto e um envolvente impulso físico, num quadro de uma vida que exige
uma total cumplicidade anímica para conseguir sobreviver nestas inóspitas
condições naturais. Esta paixão, de uma aparente amoralidade, é em parte resultante
do próprio “caldo orgânico” em que as personagens estão mergulhadas e tem a
suas inevitáveis consequências: a mais radical desagregação moral e social da
jovem, “empurrada” a abandonar o casulo familiar….
3º Uma indiscutível novidade para mim
foi a leitura da pequena obra de Heinrich Heine, intitulada “Ideias. O Livro de
Le Grand”, na muita boa tradução de Fernanda Mota Alves, editada pela Relógio
d’Água. É certo que já tinha lido algumas obras sobre este autor e conhecia bem
a sua relevância para o romantismo alemão. Mas esta colectânea de excertos
tornou-se uma deliciosa revelação pelo sarcasmo e ironia do autor na sua
denúncia do conservadorismo da sociedade alemã que, já na altura, fermentava de
comportamentos sociais que iriam desembocar, um século mais tarde, no nazismo.
De facto, o humor cáustico e implacável, mas também hilariante, de Heinrich
Heine foi para mim um verdadeiro balsamo nestes dias que pressentem nuvens
muito sombrias no horizonte e que tem inúmeras parecenças com aquelas que o autor
vislumbrava no seu tempo.
4º O livro de autor português que
gostaria de destacar, entre as minhas leituras deste ano, é o “O Manual de
Inquisidores” de António Lobo Antunes, editado, como a restante obra do autor,
nas Publicações Dom Quixote, e que, mais uma vez, sabe lá por que razões do
diabo, não li na altura em que saiu. Já vi escrito, penso que num tom
depreciativo, que António Lobo Antunes é “um romancista que escreve excelentes
crónicas”. Este romance, que me parece integrar um segundo ciclo (espero que os
especialistas da obra do autor me desculpem por tentar definir “ciclos” na sua
obra), é, de facto, uma das mais admiráveis crónicas escritas sobre o período
que medeia entre os finais dos anos cinquenta e os finais dos anos setenta deste
canto à beira-mar plantado. Por isso, na minha opinião, é já, na literatura
portuguesa, um clássico contemporâneo. Com uma estrutura, em que, aos diversos
capítulos com narradores distintos, se sucede um “comentário”, com um outro
narrador, de algum modo relacionado com o anterior, dando uma outra visão sobre
a acção já descrita, o romance apresenta um “fresco” muito amplo de diversos tipos
sociais, de Lisboa e das regiões limítrofes, vivendo em redor da clique
dirigente do regime fascista, e permite entender como se foi processando o seu
desmoronamento até ao aparecimento das condições psicológicas e sociais que
possibilitaram o 25 de Abril.
Convém, por fim, acrescentar que a
obra progride, utilizando o estratagema da recorrência de imagens e situações,
servida por uma prosa com registos que vão desde o humor amargo à emoção mais
intensa e empática no tratamento das personagens.
Por isso, “Manual dos Inquisidores” é
uma crónica que é um excelente romance. Sem tom depreciativo nenhum.
5º Por último, um romance que não se
pode considerar um clássico, mesmo tendo em conta que ganhou o Prémio Pulitzer
no ano em que foi publicado: “Middlesex” de Jeffrey Eugenides, que eu li na
tradução de Pedro Serras Pereira, editado pelas Publicações Dom Quixote. Esta
saga parece conter dois romances em um: por um lado, a história de uma
menina que nasceu com genes masculinos (a que o título alude); por outro, a história
da sua família, originária da Anatólia grega, que, fugindo da guerra
greco-turca resultante do colapso do Império Otomano, nos inícios do séc. XX,
emigra para a América e aí “vive” as vicissitudes sociais e políticas do país
que a acolhe.
É certo que o autor procura efectuar
uma “hábil” articulação entre as “duas” tramas, colocando o próprio gene do
protagonista como narrador, em particular, da história familiar. Mas, ao partir
da história mais global, onde se enquadra a família, para o problema concreto
do protagonista, transfere-se o sujeito narrador para este último, e o leitor fica,
de forma quase inevitável, com esta sensação de que está a ler uma obra que é
constituída por dois romances em um.
Mas este comentário nada invalida em
reconhecer que “Middlesex” é de facto um romance notável, tremendamente bem
escrito (com descrições muito bem enquadradas em termos narrativos, como é o
caso do incêndio de Esmirna nos anos vinte ou os motins raciais de Detroit nos
anos sessenta), com uma assinalável profundidade psicológica (o regresso do
narrador, já com um seu estatuto masculino assumido, à casa e ao bairro onde
tinha vivido, e a forma como “olha” de forma distinta para os lugares onde
tinha passado a sua infância e adolescência feminina, entre enormes angústias e
incertezas, é de uma beleza fulgurante e, principalmente, de uma densidade
psicológica notável). Por isso, “Middlesex”, na aparência parecendo centrar-se
numa problemática muito peculiar, consegue transpor para uma narrativa
ficcionada uma reflexão muito sólida sobre as questões de identidade e de
género e como estas estão no cerne da condição humana.

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