A POESIA COMO
CONSTRUÇÃO DO PARAÍSO
Começo
este breve texto sobre a obra de Yves Bonnefoy com um “lugar comum”: toda a
criação artística é uma floresta de sinais que obriga o leitor a um
reconhecimento, de modo a sinalizar o seu percurso no interior da obra, e
assim, não se perder, perdendo-a.
Mas porquê
começar com um “lugar comum” sobre a obra de Yves Bonnefoy? Porque um dos
aspectos maiores da produção poética e ensaística deste autor é a caracterização
de um “lugar”. E, por outro lado, utilizando as palavras do próprio
autor, porque “a cerimónia do obscuro é a
fatalidade de qualquer obra”.
Para
comprovar a primeira asserção, lembremo-nos das obras poéticas Du mouvement
et de l’immobilité de Douve, Mercure de France, 1953, e Dans
le leurre du seuil, Mercure de France, 1975, e dos textos de reflexão
ensaística, Les Tombeaux de Ravenne, 1953, L’acte et le lieu de la poèsie,
1958, ou ainda esse texto fundamental para a compreensão da arte pictórica que é
L’arrière-pays,
Skira, 1972.
Mas em
que sentido é que poderemos formular esta motivação obsessiva de Yves Bonnefoy
em caracterizar um lugar? Antes do mais, existe, obviamente, uma dimensão de
pulsão inconsciente que impele o autor a canalizar toda a sua imagética para a
construção de um “lugar primordial”. Mas, além disso, existe no projecto poético
de Yves Bonnefoy, através de uma reformulação da relação interior/exterior, uma
tentativa de efectuar uma profunda revalorização do “real” objectivável.
Pode-se,
por isso, afirmar que este projecto de construção de um “lugar primordial” visa
definir um espaço objectivo onde se possa realizar a ordenação poética necessária
em termos existenciais ao próprio autor e, ao mesmo tempo, estabelecer um
microcosmos onde seja legível, por um processo de cristalização, toda a ordem cósmica.
Como
em qualquer outra actividade humana, um dos objectivos fundamentais da poesia,
a forma de afirmação (existencial) de Yves Bonnefoy, é a superação do “escândalo da morte”, a confirmação da
imortalidade do ser. Mas, ao contrário, por exemplo, da poética de Mallarmé,
esta poesia do essencial de Yves Bonnefoy não considera o real (entendido aqui
na sua dimensão ampla, que vai do emocional ao factual) como acidental.
Assim,
para este autor, a diversidade do real é a simples dimensão física, concreta,
de uma forma arquetípica permanente. A ordem cósmica integra em si a própria
morte, fazendo dela a via de uma permanência em constante mutação e confirmando
assim a imortalidade do real. A certeza de que a própria consciência do poeta
faz parte dessa diversidade do real, e que a sua morte só provoca uma alteração
brutal ao nível subjectivo, comprova a natureza imortal da forma cósmica.
Do
mesmo modo, o instante torna-se a face revelada do eterno: a diversidade mutante
do real, de um presente que é sempre já memória, confirma a permanência do
tempo — da própria eternidade do tempo.
O
real, e este é um aspecto determinante para a compreensão da poética de Yves
Bonnefoy, é, portanto, um espaço concreto, físico, em unidade com um “além” que
a ganga do tempo e da diversidade desfigura: é este Uno transcendental, mais
real do que a realidade física, que a poesia deve procurar captar. (Note-se as
evidentes correlações existentes entre esta concepção do real de Yves Bonnefoy
e as doutrinas neoplatónicas paralelas ao cristianismo).
Mas se
a morte se torna a via necessária para a comprovação da imortalidade do ser,
como é que o homem, confirmando a plenitude desta certeza, pode assumir a
natural angústia da sua própria morte? (Saliente-se que, por razões diversas,
existe na poesia de Yves Bonnefoy, uma presença obsessiva da morte e uma cíclica
irrupção do mito da Fénix).
Ora,
antes do mais, Yves Bonnefoy considera, principalmente nos seus textos de carácter
ensaístico, que o conceito, como instrumento de conhecimento do real, só
agravou a angústia do homem perante a morte, soçobrando por completo com a sua
assumpção. Conforme o autor refere em Les Tombeaux de Ravenne, o conceito,
pela sua ambição de permanência e identidade, confronta-se estruturalmente com
a própria morte; ou, por outras palavras, o conceito, negando a precaridade, só
serve para iludir a realidade incontornável da morte. Assim, “a morte, desde os Gregos, é apenas uma
ideia, cúmplice das outras, num reino eterno onde precisamente nada morre. É
esta realmente a nossa verdade: ela ousa definir a morte, mas para a substituir
pelo definido. Ora o definido é incorruptível, ele assegura, apesar da morte e
desde que se esqueça as aparências brutais, una estranha imortalidade”.
É por
isso que Yves Bonnefoy considera que o pensamento lógico é radicalmente “idealista”
e, por conseguinte, de todo inadequado para a compreensão (assumindo aqui a
palavra a sua significação etimológica) efectiva do real. Terá que ser outra
linguagem, onde a motivação da palavra seja de ordem passional e empática que
realizará aquela tarefa: só a linguagem poética, ao nomear as coisas, conseguirá
apreender a sua “alma”; ou ainda: só a poesia, ao identificar os seres, conseguirá
compreender o arquétipo formal do real.
A
poesia torna-se assim a “residência que possui o ser”. Mas esta busca da poesia
configura-lhe duas vertentes: por um lado, dá-lhe uma dimensão sagrada, diríamos
mesmo religiosa, onde a figura divina seria um eterno ausente desejado, mas
onde também a “transcendência do real” se pretende transfigurada em palavras e
ritmos (Bonnefoy fala da poesia como um “templo
da transcendência do real”); por outro, dá-lhe uma dimensão amorosa, uma
vez que, para este poeta, só aquilo que se ama consegue configurar-se em nós
como ser.
Ou por
outras palavras: a imortalidade ontológica do real só ganha sentido quando o
amor a revela, e este, por sua vez, só emana plenamente da poesia. (Repare-se
na confluência de posições que existe entre Yves Bonnefoy, ao assumir que “só existe como ser aquilo que se ama”, e
a doutrina de Leon Chestov.)
Mas o
que entende Yves Bonnefoy por este conceito de “amor”? Aqui, o poeta, servindo-se
da reflexão de Georges Bataille, encara-o como desejo de dissolução da
dicotomia interior/exterior, como a apetência vocacional do Ser em se fundir de
forma integral com a ordem cósmica. Essa fusão é, naturalmente, uma morte da
identidade. Mas mais do que uma morte, ela é a integração da ordem cósmica na
voz do poeta e vice-versa (os poemas de “Douve parle” e de “La Salamandre” são
bem exemplificativos deste amoroso estar com o real). A poesia, manifestação
natural do “ser poético”, é o lugar privilegiado para onde se procura confluir
uma dupla morte (a morte da identidade e a morte do instante), mas, ao mesmo
tempo, nostálgico, porque se reconhece, enfrentando a eternidade, como retido a
uma determinada identidade e a um determinado instante: é este o risco do
discurso poético.
No
entanto, Yves Bonnefoy compreendeu que seria um logro intelectual projectar
esse querer fusional no universal. Como já referimos atrás, esse querer é
composto de uma dimensão passional e empática, inerente a própria poesia. Daí
que a poesia se transforme numa busca, numa viagem (como refere Baudelaire, poesia
e viagem “são do mesmo sangue”) com o objectivo de descobrir o verdadeiro lugar
onde seja possível a “conversão profunda” do poeta com o universal. Como o próprio
Yves Bonnefoy refere nos seus poemas “La Salamandre”: o lugar “em que se vive o
instante em que a carne mais próxima de ti se transforma em conhecimento”.
Yves
Bonnefoy, no extenso trabalho poético que é “Du mouvement et de l’immobilité
de Douve”, descobre esse verdadeiro lugar na região do Douve, onde ele objectualiza
e explana, através de um exaustivo conjunto de ramificações e correlações, toda
a reflexão poética acima descrita.
De
facto, a região do Douve corporiza-se numa personagem com que o poeta dialoga,
se confronta, testa a sua própria concepção cosmológica (toda a poesia de Bonnefoy
se resume à personalização de um lugar, à elaboração de uma geografia concreta
com que o poeta se identifica). A imortalidade e o tempo, a morte e o instante,
a amada e o acidente, assumem lugares concretos, espaços definidos. As pedras e
as planuras, o pomar e as árvores do caminho, a salamandra e a “aranha” solar,
a casa e a linha do horizonte, a noite e o dia, etc., constroem urna complexa
teia simbólica de significação em mobilidade constante que transfigura a região
do Douve num “lugar primordial” (num “locus patriae”) para o poeta, onde é possível
conceber a dissolvência das fronteiras entre a consciência e a Natureza, assim como
a cristalização do espaço e do tempo. Ou por outras palavras: é no Douve que é
possível a consciência poética passar a ser a própria ordem natural, numa espécie
de caos original (é a quietude do seio materno que, segundo Servier, os
utopistas ambicionam) onde tudo é comunicante, mas duma comunicabilidade sensível
e pré-lógica.
O
Douve constitui-se assim num Paraíso (que tem, contudo, inúmeras vezes, a
configuração de uma “terra gasta”), num “espaço utópico subjectivo”, onde o
poeta ordena todas as suas inquietações intelectuais e existenciais formuladas
em poética: não será, no fundo, esse o objectivo essencial de qualquer poesia?
Mas
aqui levanta-se outra ordem de questões (que exigiam também um amplo
desenvolvimento): definir a poesia de Yves Bonnefoy como a tentativa de construção
de um “espaço utópico subjectivo”, talvez seja um pouco restrito como forma de
caracterização. De facto, qualquer utopia se pode definir como a tentativa de
elaboração de um espaço intelectual onde uma vontade individual se afirma como
soberana e se inscreve como Lei; neste sentido, qualquer utopia tende, antes do
mais, a satisfazer a necessidade “subjectiva” de construir uma alternância ética
ou poética em relação ao real. Daí que, e são vários os exemplos na história do
pensamento utópico, a utopia pretenda, muitas vezes, estabelecer-se como Modelo
(transformando-se o pensamento utópico em utopista), vocacionado a servir como
“luz” a colectivos, e dissolvendo assim, através de um racionalismo
universalista, o papel do sujeito produtor.
Mas
Yves Bonnefoy eleva um lugar concreto (o Douve) a um espaço transfigurado onde
se objectualiza toda a dimensão pulsional e passional da sua imagética: o Douve
só existe em Unidade com a consciência e o discurso poético de Yves Bonnefoy. O
espaço utópico torna-se assim “infuncional” para o Outro (o que reforça a sua
dimensão subjectiva), podendo só “atingi-lo”, como qualquer outro discurso poético,
através de uma relação analógica intersubjectiva. Tanto mais que a rejeição de
um pensamento conceptual, por parte de Yves Bonnefoy, como forma de compreensão
da transcendência do real, limita este espaço utópico à cidadela da poesia, o
que, como é natural, torna de todo absurda a sua formulação em termos de uma
eventual extensão colectiva.
O que
existe de estruturalmente ético na poesia de Yves Bonnefoy é a sua
exemplaridade de percurso. A importância que Yves Bonnefoy dá à existência de
uma relação harmónica com a ordem natural, através de um espaço utópico
subjectivo ancorado a um espaço físico, tem o valor de um “conhecimento” capaz
de transformar a existência do homem contemporâneo.
Texto escrito nos finais da década de
oitenta para o Mestrado de Literatura Contemporânea Comparada da FCSH da
Universidade de Lisboa.
Título: Poèmes (Du mouvement et de l’immobilité de Douve et Dans le leurre du seuil)
Autor: Yves Bonnefoy
Editor: Gallimard
Ano: 1982
360 págs., € 10,00
Título: L’arrière-pays
Autor: Yves Bonnefoy
Editor: Albert Skira
Ano: 1972
162 págs., € 45,00



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