ESCREVER PARA
PUBLICAR
Repare-se que
esta questão não é de todo desinteressante e banal. Como é sabido, tem dado
origem a polémicas bem agressivas entre os defensores de uma ou da outra
posição e fundamentado modelos muito distintos na compreensão do fenómeno
literário. No fundo, está aqui a optar-se entre dar particular enfâse à criação
em relação à comunicação e vice-versa. Por outras palavras: até que ponto
escrever pressupõe uma preocupação em comunicar ou apenas em criar?
Associada a esta
questão, tenho lido, nos últimos tempos, algumas entrevistas de escritores,
onde procuram distinguir o acto de escrever do de escrever para publicar,
considerando que são radicalmente distintos. Na minha opinião, esta é apenas
uma forma diferente de colocar as questões acima referidas…Senão, vejamos.
O conceito “acto
de escrever para publicar” quer exprimir, em termos literais, “escrever para
tornar público”, isto é, “escrever para um outro leitor que não o próprio que
escreve”. Sendo assim, está a colocar-se num nível subjectivo a distinção entre
os dois actos, o que quer dizer, como é óbvio, numa fronteira muito difusa.
É evidente que
“escrever para publicar” parece ser um acto deliberado e, por conseguinte, bem
distinto do simples acto de escrever; mas é também evidente que, a qualquer
momento, o simples acto de escrever se pode transformar no de “escrever para
publicar” e a passagem de um para o outro poderá fazer-se de forma
subconsciente. Veja-se o caso da redacção de um diário. Um diarista pode
entender que está a escrevê-lo com o intuito de o não publicar… mas será que em
nenhum momento da sua redacção não pode “cair na tentação”, subconscientemente,
de pensar publicá-lo e isso não terá determinado (afectado) a sua elaboração?
Em consciência, algum “autor” o poderá afirmar de forma categórica?
Na minha
opinião, a literatura só nasce no acto de escrever para publicar. Mesmo quando
o escritor “julga” que escreve sem perspectivar a publicação, essa hipótese
está sempre implícita. Poderá não ser ele…, mas quem escreve pressente que
“alguém”, em algum momento, poderá publicar o que ficou escrito… A história literária
tem provado isto à saciedade e qualquer aspirante a escritor tem consciência
destas situações. Sendo assim, “um leitor exterior a quem escreve” está sempre
presente na literatura. E, por consequência, estarão sempre presentes nela as
componentes da criação e da comunicação.
Nesta
perspectiva, a questão da presença ou não do Leitor na consciência de quem
escreve parece falaciosa. Há sempre um leitor… nem que seja, por desdobramento,
o próprio autor. Aliás, este é o leitor mais importante. O leitor soberano. O
Leitor.
Porque, quando
se desdobra em leitor, é forçoso que o autor procure ter um olhar crítico sobre
o que foi escrito. Tem de ser um leitor radical, sem contemplações. Por isso, este
primeiro leitor é mais exigente do que o público do acto de escrita. Todos os
autores sabem isso; muitas vezes de uma forma bem dolorosa. Daí que, muitos
deles, afirmem que, na última leitura antes da publicação, necessitam de se
distanciar do texto ao ponto de o conseguirem ler como se não fosse deles.
Sendo assim, o autor
escreve, repito, para um leitor soberano e uno. E, portanto, universal.
No entanto, é
evidente que todo o autor/leitor tem a sua circunstância. E que essa
circunstância condiciona, ou determina por opção, as posteriores decisões
estéticas e literárias do escritor. Ou, por outras palavras, é pela
circunstância que o autor se “aproxima” dos outros leitores e é por esta que eles
entram no acto de criação, contribuindo para a tornar comunicante.
Aliás, todos
intuímos que a humanidade se constitui num “magma comum”, seja qual for o
contexto temporal e espacial (e, portanto, cultural). Ora, a substância
literária é resultante do conhecimento profundo desse “magma”. Nessa
perspectiva, a circunstância poderá ser uma boa via para um conhecimento mais
intenso desse mesmo “magma” e, por conseguinte, quanto mais consciente for a conectividade
do autor com a sua circunstância maior poderá ser a possibilidade de atingir o
leitor universal.
Outro dos
elementos da circunstância de um autor/leitor é a língua.
A língua é a
matéria do acto de escrita. E, portanto, o domínio da língua é uma competência
determinante para a expressividade da escrita: é por isso que um autor é
escolhido pela sua língua e não o contrário. Mas, por outro lado, a língua,
como matéria fundamental da criação literária, condiciona a hipótese de
alcançar o leitor universal e aproxima o acto de escrita da circunstância dos
outros leitores.
Por
consequência, a literatura fica sempre a meio caminho entre a universalidade
que procura atingir e a circunstância de quem a produz.
Neste contexto,
a propensão para a universalidade torna-se um objectivo inerente (no sentido de
essencial) ao fenómeno literário. Qualquer deliberação do autor que vise
escrever para um leitor particularizado, seja qual for ou de que tipo for, não
tendo em consideração aquele objectivo último, é uma forma de “perverter” a
literatura, no sentido em que lhe está a dar um destino que não é o seu.
Assim, por
exemplo, quando um escritor tem competências similares em duas ou mais línguas
e opta deliberadamente (deixe-se passar a redundância) por uma língua de menor
universalidade, só o pode estar a realizar por motivações extra-literárias (culturais,
sociais, políticas, etc.) ou porque ambiciona enquadrar a sua obra num contexto
literário e cultural específico, fazendo com que ela perca autonomia e
singularidade.
