sábado, 19 de agosto de 2017

PÁDRAIG BREATHNACH

 
 
 
DESEJO DE LER (6): PÁDRAIG BREATHNACH
 Os autores que escrevem exclusivamente em gaélico provocam-me uma enorme perplexidade e, ao mesmo tempo, um sério sentimento de respeito. É o caso de Pádraig Breathnach, um dos mais importantes escritores nesta língua em plena actividade.
Para quem não saiba, esclareço que o gaélico, como língua nativa, é falado por cerca de duzentas mil pessoas; que, com o esforço do Estado Irlandês em ensinar gaélico nas escolas, existem pouco mais de meio milhão de pessoas que o falam com fluência; e que, com umas “luzes” desta língua, haverá o triplo dos habitantes acima referidos. Isto, numa população de seis milhões de habitantes (incluindo a Republica da Irlanda e a Irlanda do Norte).
 Por isso, optar por escrever em gaélico, quando se tem a possibilidade de escrever numa língua de difusão universal como o inglês, tem um significado que não pode ser descurado.
É óbvio que a primeira razão que leva a esta opção tem um sentido extra-literário: existe aqui uma forte motivação nacionalista, de afirmação de uma cultura nacional.
Em termos literários, a consequência imediata desta opção é que o escritor, ao redigir em gaélico, hierarquiza os leitores. Para ele, o leitor não é todo igual: está a dar preferência ao de gaélico do que ao leitor comum (e universal). Ora, é necessário entender que existe nesta opção uma dimensão que me parece anti-literária ou que, pelo menos, questiona o essencial da literatura (veja-se o meu texto neste blog intitulado “Escrever Para Publicar”).
Pádraig Breathnach é um narrador, nascido no Condado de Galway, uma das poucas regiões da Irlanda onde o gaélico é ainda falado no dia-a-dia, o que poderá explicar a sua opção de só publicar obras em gaélico. Tem publicado, desde meados da década de setenta, vários romances e colectâneas de contos, obtendo, nesta última modalidade narrativa, vários prémios e um manifesto reconhecimento no seu país.
Um dos motivos da opção em escrever em gaélico de Pádraig Breathnach é resultante da sua tentativa de dar continuidade à tradição do “seanchaí” (termo por que é conhecido o contador de histórias da riquíssima literatura oral irlandesa), agora através da expressão escrita. Assim, os seus contos utilizam, de acordo com a referida tradição, um constante jogo de trocadilhos verbais (em particular, fónicos) e um ritmo narrativo que acentua a componente dramática da trama. Além disso, utiliza, por vezes, “leitmotive” para acentuar a matriz oral da narração.
Os seus contos e romances centram-se, de forma realista, na descrição e análise da vida rural da sua terra natal, expondo costumes e uma vivência que, gradualmente, se vão extinguindo e que o autor sabe ser uma das derradeiras testemunhas. Aliás, esta vivência está associada à própria infância dos narradores e personagens principais dos seus contos, e, por conseguinte, entende-se que esta comunidade natal, ao absorver comportamentos alógenos, integrando uma vida urbana e ritmos de quotidiano que nada têm a ver com a sua ancestralidade e com as referências transmitidas, de geração em geração, por uma estrutura familiar patriarcal e fechada, está, no fundo, a entrar numa idade adulta onde se esfuma a magia de uma consonância com o pulsar natural da vida (que estaria na infância e no modo de ser que vai desaparecendo).
Percebe-se, por último, que existe, na obra de Pádraig Breathnach, uma atitude de manifesta solidariedade, através do testemunho, por um povo que foi marginalizado na sua própria terra e que, a pouco e pouco, vai perdendo as suas referências culturais.
Existem alguns contos deste autor traduzidos para inglês e francês.