OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
26 ª Vinheta
ROLAND JACCARD
A minha fixação com a relação entre
sinceridade (termo claramente em desuso, mas que aqui pretendo caracterizar
como o conjunto das pulsões pessoais que motivam o acto de escrever) e criação
literária, e a forma como coexistem sem se destruir (é esta, na minha opinião,
um dos temas nucleares e sempre presentes na literatura como em qualquer
criação artística), leva-me a aproximar-me de um rosário de autores, ao mesmo
tempo fascinantes e incómodos. Já escrevi sobre alguns deles e agora é a vez de
Roland Jaccard.
Roland Jaccard (1941-) é um escritor
suíço (nasceu em Lausanne, seu permanente refúgio) de língua francesa,
indiscutivelmente prolífico e complexo. Psicanalista, crítico literário,
editor, ensaísta, diarista, romancista e blogger, revela na sua obra, já com várias
dezenas de títulos, ser possuidor de uma cultura vastíssima, multidireccionada,
que vai, obviamente, desde a psicanalise à filosofia, à literatura, ao cinema e
a todas as restantes formas de expressão artística. Activista, empenhado em
diversas causas, Roland Jaccard tem demonstrado ser um espírito livre,
corajoso, afrontando por sistema aquilo a que hoje se chama o “politicamente
correcto” e, ao longo da sua vida, a moral dominante.
Da sua obra, creio que é importante
destacar, na sua qualidade de psicanalista, a coordenação de uma “Histoire de
la psychanalyse”, 1993, ou os seus ensaios sobre Melanie Klein, Freud, ou a
Loucura. Ainda neste aspecto, é fundamental também realçar o seu importante ensaio
“L’exil interieur: schizoïde et civilization”, 1975, onde, articulando os
trabalhos de Freud e Klein com a etno-psicanálise (Georges Devereux) e o
pensamento de Norbert Elias, considera que o processo civilizacional é
tendencialmente esquizoide e, por isso mesmo, sem os referentes necessários
para integrar e tratar a esquizofrenia individual e que o actual processo de
“normalização” e padronização do homem irá desfigurar por completo a “sua” humanidade.
Convém ainda salientar que, como na restante produção narrativa do autor, esta
obra entrecruza as componentes ensaísticas com experiência pessoal, efectuando
objectivas conexões com os modelos mais narrativos da sua produção literária.
Ainda no domínio do ensaísmo, convém
destacar, na área do cinema, as obras sobre Louise Brooks, o primeiro com a
colaboração da própria actriz, 1977, e “Portrait d’une flapper”, 2007, e “John
Wayne n’est pas mort”, 2019. Estes livros, em particular os dois últimos, são,
ao mesmo tempo, análises do comportamento destas figuras icónicas do cinema,
mas também, como sucede na restante obra deste autor, uma espécie de ajuste de
contas e de denúncia de uma moral dominante que considera acentuadamente
hipócrita. Há, nesta perspectiva, que referir que o ensaísmo de Roland Jaccard,
na linha das obras de Montaigne e de Pascal, parte sempre da experiência
pessoal como sustentáculo a uma exaustiva reflexão sobre o sentido da vida, dos
valores da moral individual e da sua relação com a moral dominante.
Mas, a partir de “Dictionnaire du
parfait cynique”, 1982 (que, no essencial, é um conjunto de citações e de
referências de diversos autores e personalidades, algumas delas forjadas, como
o próprio autor confessa, em que se preconiza uma postura cínica sobre a vida e
em que se estabelece as regras de uma postura objectivamente de repúdio de
qualquer tipo de idealismo), passando, muito em particular, por “La tentation
nihiliste”, 1989 (que posteriormente será e ditada conjuntamente com outra obra
do autor, intitulada “Le Cemitiere de la morale”, 1995), a sua obra aproxima-se
cada vez mais de posições pessimistas e mesmo niilistas. Recorrendo à obra e à
postura existencial de autores como La Rochefoucauld, Lichtenberg,
Schopenhauer, Nietzsche ou Wittgenstein, atraído pela personalidade de autores
como Leopardi, Panizza, Bierce, Klima, Dazai, Zwieg, Hedayat, Zorn, Connolly,
Amiel, entre outros, Roland Jaccard orienta-se para uma total descrença em
relação a humanidade e a retirar qualquer significado à própria existência,
considerando que o homem é apenas uma espécie de cadáver adiado; tal postura,
leva-o a entender, tal como o seu amigo E. M. Cioran, de cujo pensamento o
autor é um profundo admirador, que o suicídio é o caminho mais coerente e consequente;
mas, e é esta é uma das suas contradicções, como ele refere ao longo das suas
recentes obras (“L’Enquête de Wittgenstein”, 1998, “Cioran et compagnie”, 2004,
e “Penseurs et tueurs”, 2018, por exemplo), o seu fascínio pelo suicídio é
fundamentalmente pela sua ideia e possibilidade, visto que é ela que lhe dá
motivação para continuar a existir e retirar algumas “seductions de la existence”
(para utilizar o título de uma obra colectiva em que participou com François
Bott, Daniel Grisoni e Yves Simon), como, por exemplo, o seu enorme fascínio
pelas obras de certos pensadores e artistas, pelas relações de amizade e (destaco
este aspecto por causa da sua importância na reflexão e na criação de Roland
Jaccard) pelas relações amorosas. Mas estes fascínios, mesmo que fundamentais
para manter a “joie de vivre”, não justificam a existência de qualquer ética,
e, principalmente, de qualquer pretensão filosófica, que procure dar qualquer
sentido à existência, na linha do que afirmou, em toda a sua obra, E. M.
Cioran.
Convém, no entanto, ter claro que
Roland Jaccard desvaloriza o sentimento amoroso, tal como ele é consensualmente
estabelecido, porque o considera contaminado por um sentimentalismo bacoco.
Para o autor, o sentimento amoroso é apenas o estrito percurso de afirmação do
seu desejo erótico e sexual, como é bem explícito na sua obra mais narrativa,
diarística e ficcional.
Talvez assim se compreenda por que motivo
Roland Jaccard se fascina pelas mulheres que, a seu modo, fundamentalmente
contribuíram para a afirmação, libertação e independência da entidade sexual feminina
(Louise Brooks, Lou André-Salomé) como matriz da sua própria existência. E daí
que desvalorize outros papéis específicos da mulher, como a maternidade, que
considera obscena (na minha opinião, de uma forma absurda).
Ora, como Roland Jaccard reafirma
várias vezes na sua obra, o seu objecto de desejo é, em exclusivo, as mulheres muito
jovens (veja-se um dos títulos mais emblemáticos do conjunto da sua obra, “Une Liaison
dangeureuse”, 2015, onde, em conjunto com Marie Céhère, narra em detalhe a sua
paixão por uma jovem de 23 anos, a subscritora do livro, com quem o autor vive uma
relação amorosa quando tem 73 anos), o que quer dizer que, no caso das
restantes mulheres, não se torna para ele relevante a sua identidade feminina
(no quadro de uma reflexão que o aproxima, malgré lui, da obra de Otto
Weininger, “Geschlecht und
Charakter”).
Assinale-se também que, ao acentuar
esta tónica de encarar a mulher como objecto de desejo, Roland Jaccard torna
nítido que para si existem dois universos femininos distintos: o que integra o
campo muito exclusivo das mulheres que amou em algum momento da sua vida ou que
poderá vir a amar e o que, por razões etárias ou de repúdio do seu desejo,
estão fora desse campo (que, obviamente, é o de quase todas as mulheres), e que
se tornam, por isso, simplesmente desinteressantes ou geradoras de equívocos,
ou ainda, verdadeiras inimigas, pois, pela sua falta de disponibilidade em
aceitar o desejo que lhes manifestou, se revelam como seres malignos e
geradores de amargos, para não dizer inadmissíveis, dissabores e frustrações
(que, naturalmente, se foram reforçando com o avanço da idade do autor).
Deve ainda referir-se que o autor sempre
assumiu o papel de “dragueur” (para não dizer predador) de jovens mulheres e
que toda a sua obra diarística e narrativa espelha esta forma de estar. Aliás,
foi este seu modo de estar que o levou a frequentar regularmente, desde jovem,
a piscina Deligny, junto do Sena e do Quartier Latin, onde veio a conhecer
Gabriel Matzneff, de quem se tornou amigo, e por quem Roland Jaccard sempre teve
consideração como escritor, que foi, como se sabe, acusado recentemente de
pedófilo, abusador de menores e de estimular, como cliente, a prostituição
infantil, e, por isso, socialmente ostracizado (em particular, depois da
publicação de “Consentimento” de Vanessa Springora), e que Roland Jaccard, com
a coragem e a independência de espírito que o caracteriza, continuou a
reconhecer como amigo e a defender como escritor.
Por tudo isto, percebe-se que
perpassa, subliminarmente por toda a sua obra, uma acentuada misoginia. E que esta,
resultante no essencial da sua posição niilista, se torna bastante incómoda
para certos leitores, como é o meu caso, que, mesmo considerando interessante e
relevante a sua reflexão, sente-se, obviamente, incapaz de a acompanhar até as
suas consequências e conclusões.
Por último, salientar que Roland
Jaccard, na maior parte das suas obras diarísticas e narrativas (a trilogia de “L’Âme
est un vaste pays”, 1983, “Des femmes dispairaissent”, 1985” e “L’Ombre d’une
frange”, 1987, e ainda as narrativas de “Sugar babies”, 1986, onde procura
recriar o universo intimista de certa literatura japonesa, ou “Station
terminale”, 2017, na minha opinião, o seu mais bem construído e interessante
romance, constituído pelo diário de um suicida, que se chama Roland e nasceu em
Lausanne, e que é descoberto nos seus despojos por um irmão, um burguês bem
estabelecido na mesma cidade suíça, que decide comentá-lo e se interroga sobre
se deve ou não publicá-lo), revela ser um admirável estilista, principalmente
pela cáustica presença do humor e da sátira, pela sua capacidade em exprimir a
dimensão sensorial e emotiva da existência, e pela forma desabrida e fulgurante
com que analisa a hipocrisia das regras sociais dominantes, dos costumes e do
modo de estar de certa burguesia franco-suíça.
Hoje, provavelmente, Roland Jaccard é
um homem só, minado pelos seus fantasmas e pelas suas contradicções, olhando de
uma forma cada vez mais condoída para uma época que passou e para os amigos que
foi perdendo. Mas ainda com duas âncoras que garantem a sua sobrevivência: a
sua escrita, que, furiosamente, continua (veja-se o seu “Le Blog de Roland
Jaccard”, https://leblogderolandjaccard.com/), e uma obra aberta ao juízo do
tempo.
Os únicos livros de Roland Jaccard
que se encontram editados em Portugal são o seu ensaio “Freud”, tradução de
Vitor Ribeiro Ferreira, e publicado pelas Publicações Dom Quixote (1987), e o
“Manifesto para uma morte doce”, tradução de Wanda Ramos, e publicado pela
Bertrand (1995), que o autor escreveu em conjunto com Michel Thévoz, e foi
originalmente editado em 1992.
Desconheço a autoria da foto do
escritor.
Abril de 2021.




