ALGUNS
SINAIS
AUGUSTO
ABELAIRA
Numa época
em que por aqui proliferam os exercícios literários mais ou menos lúdicos e
gratuitos de listas de escritores e quejandos, apeteceu-me, um pouco por inveja
do que o meu irmão está a fazer para o cinema, começar a sinalizar algumas
obras e autores que foram mais ou menos marcantes no meu percurso como leitor e
até como pessoa. Parece-me, sinceramente, que é para mim mais prazeroso do que
estar a “corrigir” listas de autores nobilitados …
Não é minha
primeira intenção nenhum fim altruísta, mas simplesmente lúdico. É o simples
prazer de recordar obras e autores que me move, sem stress nem nenhuma
pretensão. Aqui aparecerão conforme a minha paciência e disponibilidade. Poderá
ser que isso interesse a alguém que leia estas breves anotações, mas esse não
é, confesso, o meu objectivo.
Também como
já se percebeu, não virão acompanhadas por nenhumas análises nem sequer por
qualquer tipo de valoração (já percebi que este não é o local para o fazer).
São apenas obras e autores que, em algum momento da minha vida, me acompanharam
e me interpelaram. Por isso, serão apenas introduzidas por algumas breves
observações de carácter muito pessoal.
E começo por
um autor português: Augusto Abelaira.
Ainda era
jovem, cheio de sonhos, desejos e ambições, como é costume nessa idade, quando
os romances de Augusto Abelaira me acompanharam durante uma temporada. Mais do
que crónicas de um certo tempo português, eram companheiros que me
questionavam, fazendo-me pensar na minha forma de sentir e de estar. Lá estavam
o jogo dos afectos, a roda dos encantos e desencantos, com que construíamos os
dias da altura. E tudo numa prosa elegante, harmoniosa, onde, gota a gota,
pingava uma existência próxima da nossa e com os mesmos anseios e interrogações.
Mais tarde,
já depois de ter lido os seus romances, conheci o homem. E descobri nele a
mesma forma de estar, a mesma interrogação permanente sobre o sentido da vida
que encontrava nos seus livros. Era um excelente conversador, com uma enorme
pachorra para aturar a malta que dele se aproximava, uma espécie de “flâneur”
que gostava de estar acompanhado conforme pacientemente deambulava pelas ruas
da cidade.
Hoje,
parece-me, está um pouco esquecido. Eu próprio nunca mais o reli. Mas é pena. Constatei,
no entanto, que alguns dos seus romances foram agora reeditados. Por isso, é
justo recordar, por exemplo, “A Cidade das Flores”, “As Boas Intenções”,
“Bolor” e “Sem Tecto, Entre Ruínas”. Mas, muito em particular, “Enseada Amena”,
com cuja capa, creio que original, ilustro este texto.
