quinta-feira, 2 de maio de 2024

AUGUSTO ABELAIRA

 

ALGUNS SINAIS

AUGUSTO ABELAIRA

Numa época em que por aqui proliferam os exercícios literários mais ou menos lúdicos e gratuitos de listas de escritores e quejandos, apeteceu-me, um pouco por inveja do que o meu irmão está a fazer para o cinema, começar a sinalizar algumas obras e autores que foram mais ou menos marcantes no meu percurso como leitor e até como pessoa. Parece-me, sinceramente, que é para mim mais prazeroso do que estar a “corrigir” listas de autores nobilitados …

Não é minha primeira intenção nenhum fim altruísta, mas simplesmente lúdico. É o simples prazer de recordar obras e autores que me move, sem stress nem nenhuma pretensão. Aqui aparecerão conforme a minha paciência e disponibilidade. Poderá ser que isso interesse a alguém que leia estas breves anotações, mas esse não é, confesso, o meu objectivo.

Também como já se percebeu, não virão acompanhadas por nenhumas análises nem sequer por qualquer tipo de valoração (já percebi que este não é o local para o fazer). São apenas obras e autores que, em algum momento da minha vida, me acompanharam e me interpelaram. Por isso, serão apenas introduzidas por algumas breves observações de carácter muito pessoal.

E começo por um autor português: Augusto Abelaira.

Ainda era jovem, cheio de sonhos, desejos e ambições, como é costume nessa idade, quando os romances de Augusto Abelaira me acompanharam durante uma temporada. Mais do que crónicas de um certo tempo português, eram companheiros que me questionavam, fazendo-me pensar na minha forma de sentir e de estar. Lá estavam o jogo dos afectos, a roda dos encantos e desencantos, com que construíamos os dias da altura. E tudo numa prosa elegante, harmoniosa, onde, gota a gota, pingava uma existência próxima da nossa e com os mesmos anseios e interrogações.

Mais tarde, já depois de ter lido os seus romances, conheci o homem. E descobri nele a mesma forma de estar, a mesma interrogação permanente sobre o sentido da vida que encontrava nos seus livros. Era um excelente conversador, com uma enorme pachorra para aturar a malta que dele se aproximava, uma espécie de “flâneur” que gostava de estar acompanhado conforme pacientemente deambulava pelas ruas da cidade.

Hoje, parece-me, está um pouco esquecido. Eu próprio nunca mais o reli. Mas é pena. Constatei, no entanto, que alguns dos seus romances foram agora reeditados. Por isso, é justo recordar, por exemplo, “A Cidade das Flores”, “As Boas Intenções”, “Bolor” e “Sem Tecto, Entre Ruínas”. Mas, muito em particular, “Enseada Amena”, com cuja capa, creio que original, ilustro este texto.