Béatrix Beck nasceu na Suíça,
em 1914, filha de um poeta belga (Christian Beck) que morreu tinha ela dois anos.
A mãe, sozinha, educou-a com enormes dificuldades, trabalhando durante o dia
como bibliotecária e à noite como atriz. Com pouco mais de vinte anos, Béatrix
Beck casou-se com um judeu apátrida, e no mesmo ano, nasceu a sua única filha e
a sua mãe suicida-se. Em 1940, o seu marido morre na II Grande Guerra e ela
encontra-se, tal como a mãe, muita nova, viúva e com uma filha pequena na mais
estrita pobreza. Para a criar, procura desesperadamente qualquer forma de
subsistência, aceitando todo o tipo de trabalhos. Nas horas vagas, escreve e conclui
o original do seu primeiro romance, Barny, que consegue dar a ler a
Albert Camus. O escritor, entusiasmado com o livro, apresenta-o na Gallimard,
que o publica. Não obteve um grande sucesso, mas permitiu-lhe alcançar uma
situação profissional mais confortável: André Gide, que tinha conhecido o pai
de Béatrix Beck, contrata-a como secretária.
Ao seu terceiro romance,
no entanto, tudo muda: Léon Morin, prêtre ganha o Goncourt
em 1952. Com este prémio, Béatrix Beck resolve os seus problemas financeiros
(compra um andar num imóvel onde vive também Sartre, mas que ficará
destruído quase por completo, quando a OAS resolve colocar uma bomba na residência
deste em 1962), participa na vida literária parisiense e continua a publicar com
regularidade, terminando um ciclo de obras de cariz autobiográfico com Le
Muet. Aproximou-se, então, do “nouveau roman” e Nathalie Sarraute
elogiou-lhe os seus dotes estilísticos, a sua “música”. Mas, em 1966, a sua
vida sofre uma nova inflexão: insatisfeita com os mesquinhos jogos palacianos
do universo intelectual da “Cidade-Luz”, decide partir para os Estados Unidos e
para o Canadá, onde, durante mais de dez anos, dá aulas de literatura em
universidades (em Berkeley, Califórnia, na Virgínia, no Québec e em Ontário). É
também a altura em que, depois do insucesso de Cou coupé court toujours,
a Gallimard se recusa a publicar a sua produção literária, ficando, por isso,
sem editor.
Profundamente deprimida,
resolve regressar a França em 1977 e tentar arranjar um novo editor para as
suas narrativas. Com algum esforço, Béatrix Beck consegue publicar Noli
e La
Décharge numa pequena editora, tendo obtido de novo o reconhecimento
crítico. Passa então a publicar na Grasset (que será a sua editora até ao final
da vida), onde, com uma regularidade quase anual, vai editando a sua obra
(em particular, colectâneas de novelas e contos, pois “especializou-se” em
narrativas curtas nesta fase da sua vida literária).
Em 2000, já com 87 anos, após
a morte da filha, desistiu de publicar. Mas não de escrever. Quando morreu,
em 2008, tinha o quarto da casa de repouso, onde passou os últimos anos,
repleto de papéis, de todo o tipo, “escrevinhados” com jogos de palavras,
invenções vocabulares, pequenas histórias, fábulas, etc.
Hoje, está bastante
esquecida. Em França, país de que obteve a nacionalidade, depois de quase vinte
anos de esforços burocráticos e judiciais, poucos já se lembram dela no ano do
centenário do seu nascimento.
Poucos leitores lhe
restam. E, por isso, parece que a sua vida se consumiu em palavras, deixando um
rasto muito ténue. No fundo, sucedeu-lhe o mesmo que a milhares e milhares de
autores que povoam a história da literatura.
Alguns detractores da literatura, costumam usar estes autores e
estes destinos como exemplos, fazendo um olhar condoído, como se fossem uns
pobres “doentes” que optaram por desistir de viver, pois,
por incapacidade de agir, se confinaram a transpor em palavras aquilo que não
viveram. E que, por fim, parece que essa opção se consumiu em cinza.
Sempre achei que esse
“olhar” revelava uma tremenda insensibilidade e um abissal erro e que era, isso sim,
míope e infantil. Béatrix Beck é um caso exemplar de destino que se focalizou sempre
em escrever e em ser escritora. Pelos altos e baixos da sua existência, só
procurou escrever e encontrar leitores. No final da vida, pareceu-lhe
irrelevante a segunda parte desta premissa. Mas a necessidade de escrever tinha-lhe
ficado. No fundo, para além dos acidentes que condicionaram os seus
dias, viveu a fazer o que sempre quis.
Lá onde ela se encontra,
será que ainda achará importante ter leitores? Provavelmente sim. É
importante sempre ter leitores. Mas nós, os leitores que a esquecemos e a
abandonámos, não devemos lamentar o seu destino: só a arrogância, repito, nos cega
ao ponto de não percebermos que viveu com a sua “música”, compondo palavras e
frases, e que foi ela que sempre embalou os seus dias, encantando-a com a
íntima plenitude da criação.
Não terá sido isso o mais
importante?

