segunda-feira, 26 de junho de 2017

GWENAËLLE AUBRY

 
 

On raconte, je ne sais plus où, cette histoire du Golem qui, parce que chaque matin il oubliait où étaient ses vêtements, decide un soir de noter leur emplacement. Au réveil, il parvient enfin à remettre la main sur chacun, passe pantalon, veste et chapeau, mais soudain il s’aperçoit qu’il lui manque encore quelque chose: moi-même, se demande-t-il soudain, où me suis-je laissé, où suis-je donc? Voilà, je crois, ce que faisait mon père chaque matin: il attrapait cigarette, stylo et cahier, et il se demandait où il s’était laissé.

Este trecho é uma citação de uma obra, que ando a ler, de uma autora francesa, Gwenaëlle Aubry, que tem sido uma entusiasmante revelação: a narrativa intitula-se Personne e, com ela, a autora ganhou o Prémio Femina de 2009. Gwenaëlle Aubry nasceu no início da década de setenta, é também filósofa, e publicou até hoje nove “narrativas/romances” e alguns ensaios filosóficos e literários.

Personne é a sua obra mais conhecida e foi traduzida para diversas línguas. É um conjunto de textos, alfabeticamente ordenados pelo título, que procuram “perceber” um pai “incomum”, sofrendo cíclicas “ausências” e verdadeiros mergulhos no delírio. No essencial, são tentativas de abordar o ininterpretável: um pai “que se perde”, que existe e não existe, que procura comprometer-se nos seus papéis sociais, mas que soçobra constantemente, fugindo e/ou recolhendo-se em clínicas.

Com esta narrativa, Gwenaëlle Aubry produz uma original reflexão sobre o papel de pai e faz-me recordar uma outra notável obra sobre o mesmo tema: Proleterka, da escritora suíça, de língua italiana, Fleur Jaeggy. Na história das minhas leituras, curiosamente (ou talvez não…), algumas das obras mais interessantes sobre a “figura” do pai foram escritas por mulheres…

Este trecho alude a uma perturbação que, por vezes, creio que todos nós sentimos, ao acordar, frente ao espelho. Mesmo com tudo bem referenciado (a cidade, a casa, a família e os amigos, os objectos que nos acompanham há vinte e trinta anos), descobre-se que tudo rodeia um vazio, um buraco negro, que somos nós próprios: sob a máscara nada existe. Ou pior: que continuamos a cumprir os nossos papéis, incluindo o de pai, para conter esse magma revolto de fobias do imprevisto, de terrores inomináveis da doença e da miséria, de pânicos do futuro, onde nos tememos afundar.