“On raconte, je ne sais plus où, cette
histoire du Golem qui, parce que chaque matin il oubliait où étaient ses
vêtements, decide un soir de noter leur emplacement. Au réveil, il parvient
enfin à remettre la main sur chacun, passe pantalon, veste et chapeau, mais
soudain il s’aperçoit qu’il lui manque encore quelque chose: moi-même, se
demande-t-il soudain, où me suis-je laissé, où suis-je donc? Voilà, je crois,
ce que faisait mon père chaque matin: il attrapait cigarette, stylo et cahier,
et il se demandait où il s’était laissé.”
Este trecho é
uma citação de uma obra, que ando a ler, de uma autora francesa, Gwenaëlle
Aubry, que tem sido uma entusiasmante revelação: a narrativa intitula-se Personne
e, com ela, a autora ganhou o Prémio Femina de 2009. Gwenaëlle Aubry nasceu no
início da década de setenta, é também filósofa, e publicou até hoje nove
“narrativas/romances” e alguns ensaios filosóficos e literários.
Personne
é a sua obra mais conhecida e foi traduzida para diversas línguas. É um
conjunto de textos, alfabeticamente ordenados pelo título, que procuram
“perceber” um pai “incomum”, sofrendo cíclicas “ausências” e verdadeiros
mergulhos no delírio. No essencial, são tentativas de abordar o ininterpretável:
um pai “que se perde”, que existe e não existe, que procura comprometer-se nos
seus papéis sociais, mas que soçobra constantemente, fugindo e/ou recolhendo-se
em clínicas.
Com esta
narrativa, Gwenaëlle Aubry produz uma original reflexão sobre o papel de
pai e faz-me recordar uma outra notável obra sobre o mesmo tema: Proleterka,
da escritora suíça, de língua italiana, Fleur Jaeggy. Na história das minhas
leituras, curiosamente (ou talvez não…), algumas das obras mais interessantes
sobre a “figura” do pai foram escritas por mulheres…
Este trecho alude
a uma perturbação que, por vezes, creio que todos nós sentimos, ao acordar,
frente ao espelho. Mesmo com tudo bem referenciado (a cidade, a casa, a família
e os amigos, os objectos que nos acompanham há vinte e trinta anos),
descobre-se que tudo rodeia um vazio, um buraco negro, que somos nós próprios:
sob a máscara nada existe. Ou pior: que continuamos a cumprir os nossos papéis,
incluindo o de pai, para conter esse magma revolto de fobias do imprevisto, de terrores
inomináveis da doença e da miséria, de pânicos do futuro, onde nos tememos
afundar.


Sem comentários:
Enviar um comentário