quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

OS MEUS ROMANCES DE 2019



Os Meus Romances de 2019

 
1º “White Teeth” de Zadie Smith (Penguin, 2000). Já aqui escrevi sobre este romance e por que razão o considero fundamental para compreender a actual realidade urbana. De facto, não conheço nenhum romance que analise de uma forma tão abrangente as presentes relações multiculturais e multi-étnicas das nossas cidades. Além disso, não sei o que mais destacar em “White Teeth”: se a dimensão polifónica e a conjugação estrutural de todos os fios narrativos, se a ironia com que encara e descreve essas relações, se o sentido de observação e de captação dos pormenores que dão vivência a toda a trama, ou ainda a forma como consegue compreender essas relações sem nenhum juízo ético. De qualquer modo, um primeiro grande romance de uma escritora, cuja obra posterior só veio confirmar as suas enormes qualidades. Saliento, por fim, que há uma tradução portuguesa desta obra, que foi descatalogada. Mas era de toda a justiça literária que se procurasse efetuar uma nova tradução e edição.

2º “Ferito a morte” de Raffaele La Capria (Mondadori, 2016). Também já aqui escrevi sobre este romance, publicado pela primeira vez em 1961. Como já aparece em muitos outros romances da literatura italiana, esta obra é um belíssimo texto sobre o desabrochar emocional da adolescência, a descoberta das cumplicidades da amizade e das primeiras paixões, ao mesmo tempo que é um verdadeiro hino de louvor à cidade de Nápoles. O adjetivo que mais nos aparece à mente para o classificar é o de “solar”: pelos poentes marítimos, as pescas subaquáticas sob o brilho dourado do mar, o entardecer sobre os corpos adormecidos à sombra dos cais palacianos.

3º “L’Énigme du retour” de Dany Laferrière (Le Livre de Poche, 2009). Este romance é uma profunda e emotiva reflexão sobre o exílio e a emigração. Articulando poesia, autobiografia e ensaio, este autor haitiano debruça-se sobre as feridas abertas no exilado/emigrante, confrontado com mundos radicalmente distintos que o levam a estar em permanente transito entre realidades (concretas e imaginárias) e que gera um mal-estar irremediável. Sobre este romance, contextualizando-o na vida política do Haiti e na literatura deste país, já publiquei um texto (está em https://transpubl2.blogspot.com/2019/05/dany-laferriere.html) e, para não me repetir, aconselho a sua leitura para quem pretenda saber mais alguma coisa sobre este autor e esta obra.

4º “Los Dias Terrenales” de José Revueltas (ALLCA XX/Scipione Cultural, 1997). Talvez se justifique falar um pouco mais desta obra, pois o seu autor é pouco conhecido no nosso país e seguramente quase desconhecido das gerações de leitores mais jovens. José Revueltas (1914-1976) foi um escritor mexicano e um militante comunista muito activo no seu país. Com quinze anos, ingressou no Partido Comunista do México e poucos meses depois foi logo preso, iniciando então uma sucessão de prisões políticas que culminou com a prisão em 1968, quando foi considerado um dos líderes ideológicos do movimento estudantil que motivou o “Masacre de Tlatelolco”, em que várias centenas de estudantes e outros civis foram assassinados pelo exército e outras “forças de segurança” mexicanas. Mas essa coerência das suas posições ideológicas, não lhe retirou, pelo contrário, a sua independência crítica e, a prova disso, é que, pelo menos por duas vezes, foi expulso do PCM. Um dos fortes motivos dessas expulsões foi a sua produção literária, essencialmente constituída por narrativas, dramaturgia, guionismo e ensaios, iniciada nos princípios dos anos quarenta. “Los Dias Terrenales”, publicado em 1949, foi uma das obras que motivou mais reacções violentas por parte dos comunistas e da esquerda mexicana em geral, ao ponto de levarem o autor a retirar a obra do mercado e a desistir de publicar qualquer texto narrativo durante sete anos. De facto, este romance, passado no seio da militância comunista, não é um romance militante: é uma obra muito sombria e trágica, mas, por isso mesmo, de uma clarividência luminosa sobre a condição humana e os seus limites. No fundo, é um romance sobre a imperfeição dos homens e a convicção de que a luta sobre os ideais essenciais do comunismo, tais como a igualdade, a justiça social, o fim da exploração do homem pelo homem e, porque não?, a liberdade, mesmo que tenha sempre resultados medíocres e funestos, faz parte integral da condição humana, e que, por isso mesmo, é uma luta sisífica. Em termos estilísticos, para além de muitas passagens admiráveis, gostaria de salientar a forma como é descrita, logo nas primeiras páginas do romance, uma pesca clandestina fluvial, levada a cabo por uma coluna comunista para matar a fome à população camponesa. E também é de realçar a imagem, através de várias personagens, que é dada da mulher mexicana, em particular da mulher militante, nos anos vinte do século passado, feita de miséria, fome e humilhação.  

5º “La Bâtarde” de Violette Leduc (Gallimard, 1964). Creio que esta autora francesa, com excepção de alguns grupos (os movimentos de mulheres e as intelectuais feministas), é mais citada do que lida actualmente. Mas é pena, por várias razões. A mais óbvia, é que quando se fala tanto em auto-ficção, não se assinale que os romances de Violette Leduc são objectivamente auto-ficção “avant la lettre”. Em seguida, porque esta é autora tem, na maior parte das suas descrições, um estilo particularmente criativo e inovador (um pormenor técnico: por vezes, é mesmo genial a forma como utiliza os verbos na construção das suas imagens). Os seus romances, e este em especial, são corajosos esforços de autocompreensão, de despojamento “sem filtros” de si, mesmo que, por vezes, tombe em algum sentimentalismo e autocomiseração. Violette Leduc é, para lá de uma notável escritora, uma verdadeira “personagem”, dadas as peculiaridades da sua personalidade, e este facto é evidentemente um dos atractivos das suas obras. Mas, para além disto, “La Bâtarde” é um interessantíssimo fresco sobre a vida intelectual parisiense entre as duas guerras mundiais e expõe um “retrato”, muito interessante e ambíguo, do genial e malogrado Maurice Sachs, uma das grandes paixões da autora. Por último, duas notas sobre esta obra e edição. A primeira, é que é raro encontrar um título de um romance que consiga conter toda a ambiência da obra e, por isso mesmo, seja fundamental para perceber o “olhar” que Violette Leduc lança sobre si própria. A segunda, é para assinalar o magnífico prefácio que Simone de Beauvoir lhe redigiu, pois é exemplar na forma como articula uma postura notoriamente afectuosa para com a autora e o modo lúcido e inteligente com que analisa esta obra.