segunda-feira, 25 de maio de 2020

EMILE HABIBI


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

15ª Vinheta

EMILE HABIBI



Emile Habibi (1922-1996) é um escritor palestiniano, de nacionalidade israelita. E neste simples enunciado está grande parte do destino deste militante e escritor.

Logo após a Declaração de Independência de Israel e a guerra israelo-árabe que lhe sucedeu, Emile Habibi, já como dirigente do Partido Comunista da Palestina, decidiu permanecer em Israel, obter a sua nacionalidade e, a partir do interior, defender a causa palestiniana. Como figura pública, defendeu o Plano da ONU para a existência de dois Estados (Palestina e Israel), posição que lhe gerou hostilidades de ambos os lados, tanto árabe como israelita. Mais tarde, protagonizou a luta para que o Estado de Israel se tornasse um estado laico, democrático e multiétnico e foi com esta posição que contribuiu para a criação do Partido Comunista de Israel (que, durante muitos anos, foi o único partido que integrava, como militantes, palestinianos e israelitas) e que foi eleito como deputado para o Knesset (o órgão legislativo de Israel), onde se manteve mais de vinte anos.

Emile Habibi começou a publicar romances e novelas já tardiamente (a edição da sua primeira obra data de 1968), mas rapidamente se tornou, com Mahmoud Darwich na poesia, um dos autores mais relevantes da literatura palestiniana. De facto, mesmo tendo escrito alguns contos, a prioridade deste escritor foi, no contexto histórico que vivia o seu povo, a actividade política e jornalística, centrando-se só no final da sua vida na produção literária. O conjunto da sua obra é constituído, fundamentalmente, por cerca de meia dúzia de romances e uma peça de teatro, e foi premiado não só pela OLP como pelo Estado de Israel: recebeu o Israel Prize, tendo sido até hoje a única vez que foi outorgado a um palestiniano. Aliás, o facto de lhe ter sido concedido este prémio, e de o autor o ter aceite, foi fortemente criticado tanto por palestinianos como por israelitas (na altura, Emile Habibi argumentou, em defesa da sua posição, que a concessão deste prémio poderia ser uma forma de aproximar os dois povos e, em resposta a estas críticas, resolveu oferecer a verba pecuniária a instituições que apoiavam as crianças vitimas da Intifada).

A conjuntura social e política que vivia o seu povo, levou-o a considerar que era inevitável, para a sua sobrevivência, a luta política e, por isso não admira que a sua obra literária se centre na defesa da sua causa.

A sua obra caracteriza-se pela utilização sistemática da sátira e da ironia. Segundo os especialistas, este humor negro desabrochou no autor em consequência da Guerra dos Seis Dias, e da aparatosa (e humilhante) derrota árabe, e tornou-se uma forma de afrontar e procurar dar algum sentido ao desespero palestiniano. De facto, a sua obra debruça-se sobre o quotidiano contraditório e absurdo da população palestiniana, tanto a que permaneceu no território israelita como a que se refugiou nos países limítrofes. Mas, para além deste aspecto, vai também procurar realçar, através da literatura, a identidade cultural palestiniana, para que este povo, numa fase particularmente esgarçada e destroçada da sua história, reforce a sua autonomia como nação (recorde-se que alguns dirigentes israelitas, marcadamente sionistas, defendiam que os palestinianos não tinham identidade, pois não tinham uma cultura nem uma literatura própria, e que a Guerra do Seis Dias era uma definitiva derrota da sua causa como nação, pois que eliminara a hipótese de eles construírem um património identitário).  

Os livros de Emile Habibi que é habitual destacar (apresenta-se os títulos em inglês) são a colectânea de contos “The Sextet of Six Days” e os romances “The Strange Circumstances Surrouding the Disappearance of Sa’id Abu’l-Nahs, the Pessoptimist”, “Shame” e “Daughter of the Ghoul” (que em França foi intitulado “Soraya, fille de l’ogre”).

Mas, nem que seja pelo sucesso mundial que obteve, a obra que é a maior referência, no conjunto da produção literária deste autor, é “The Strange Circumstances Surrouding the Disappearance of Sa’id Abu’l-Nahs, the Pessoptimist”. E esse sucesso foi tal que, como sucede muitas vezes, obliterou os restantes títulos, ao ponto de, para o comum dos leitores, parecer que Emile Habibi é o autor de um único livro.

“The Pessoptimist”, como é habitualmente referenciado, é um romance epistolar de um palestiniano que escreve a um professor israelita, e onde se vai aludindo, através da história reinventada, com um humor sardónico e surrealizante, do próprio narrador, a história recente do seu povo, e como, ao longo do tempo, este vai variando entre os sentimentos de não existir (de desaparecer), que procura impor quem o oprime, e o de ser maior e superior ao opressor, porque, apesar das perseguições e do repúdio, consegue sobreviver e amar (as três partes em que se divide a obra têm o nome de diferentes mulheres por quem o narrador se apaixona e que, de certo modo, corporizam o desejo de reconhecimento e felicidade que o povo palestiniano procura).

Existem obras de Emile Habibi traduzidas para inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. Em Portugal, “The Pessoptimist” foi traduzido (provavelmente a partir do francês) por António Belmiro Guimarães, e publicado pela Ed. Caminho, com o título “As Estranhas Circunstâncias do Desaparecimento de Saíd Abu Nahs, o Optissimista”.  

Maio de 2020

Desconheço a autoria da foto do escritor.


quarta-feira, 13 de maio de 2020

FULVIO ABBATE



OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

14ª Vinheta



FULVIO ABBATE


Fulvio Abbate (1956-) é um caso peculiar no contexto das letras italianas. Porquê? Porque este escritor siciliano é, antes do mais, um comunicador e um agitador. Como jornalista, depois de um período como redator num jornal de Palermo, foi, durante quase duas décadas, colunista de L’Unitá; a seguir, com bastante regularidade, participou em diversos programas de televisão, como comentador da vida política italiana, ao mesmo tempo, que mantinha um programa próprio num canal por cabo; por fim, decidiu passar esse programa para o YouTube.

Depois de romper com o PC italiano, que considerava demasiado conservador, começou (?) a defender posições anarquistas e fundou no seu país o movimento Situazionismo e libertà. É membro do College de Pataphysique. Grande admirador de Pasolini, a quem dedicou alguns livros e uma investigação jornalística para deslindar os reais motivos da sua morte, tem-se também centrado, em diversas revistas e jornais, à análise e estudo das obras de alguns dos principais artistas plásticos de vanguarda.

Como romancista, já publicou, desde o início dos anos noventa, mais de meia dúzia de obras. Os temas vão desde Palermo e o seu entusiasmo adolescente pelo comunismo (“Zero maggio a Palermo”), à Itália actual, mergulhada num ininterrupto “caldo” televisivo (“Oggi è un secolo”), às “articulações” entre a Itália fascista e o presente (“Dopo l’estate”), ao delírio revolucionário dos anos setenta e oitenta (“Quando è la rivoluzione”), etc. Inclassificável, forte satirista (um dos seus romances chama-se “La peste bis”, uma espécie de paródia pós-moderna do romance de Albert Camus), reconhece-se que Fulvio Abbate tem, entre o humor e o lirismo, um estilo bem peculiar, com uma forte componente experimental. Por fim, infletiu de novo na sua produção narrativa, centrando-se num modelo que desliza da autoficção para um “delírio autobiográfico”, onde integra a história cultural italiana com fantasias, os mitos da cultura popular e os seus anseios como homem e cidadão (Intanto anche dicembre è passato”, “La peste nuova” e “I promessi sposini”).

Infatigável, Fulvio Abbate continua a diversificar-se por inúmeras actividades, tendo publicado vários livros sobre a sua Palermo natal, sobre Roma e, como já se referiu, sobre Pier Paolo Pasolini.

“LOve”, uma das suas últimas obras, é, mais uma vez, inclassificável: romance, autobiografia, tratado, manual, é tudo isto ao mesmo tempo, fazendo uma espécie de peregrinação por lugares, pessoas, momentos, emoções, em resumo, apresenta-se como uma espécie de “suma” dos afectos que lhe calharam em destino…

Saliente-se também que fez a introdução à edição italiana de “O Banqueiro Anarquista” de Fernando Pessoa.  

Desconheço a autoria da foto do escritor.