OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
15ª Vinheta
EMILE HABIBI
Emile Habibi (1922-1996) é um
escritor palestiniano, de nacionalidade israelita. E neste simples enunciado
está grande parte do destino deste militante e escritor.
Logo após a Declaração de Independência
de Israel e a guerra israelo-árabe que lhe sucedeu, Emile Habibi, já como dirigente
do Partido Comunista da Palestina, decidiu permanecer em Israel, obter a sua nacionalidade
e, a partir do interior, defender a causa palestiniana. Como figura pública,
defendeu o Plano da ONU para a existência de dois Estados (Palestina e Israel),
posição que lhe gerou hostilidades de ambos os lados, tanto árabe como
israelita. Mais tarde, protagonizou a luta para que o Estado de Israel se
tornasse um estado laico, democrático e multiétnico e foi com esta posição que
contribuiu para a criação do Partido Comunista de Israel (que, durante muitos anos, foi o único partido que integrava, como
militantes, palestinianos e israelitas) e que foi eleito como deputado para o
Knesset (o órgão legislativo de Israel), onde se manteve mais de vinte anos.
Emile Habibi começou a publicar
romances e novelas já tardiamente (a edição da sua primeira obra data de 1968),
mas rapidamente se tornou, com Mahmoud Darwich na poesia, um dos autores mais
relevantes da literatura palestiniana. De facto, mesmo tendo escrito alguns
contos, a prioridade deste escritor foi, no contexto histórico que vivia o seu
povo, a actividade política e jornalística, centrando-se só no final da sua
vida na produção literária. O conjunto da sua obra é constituído,
fundamentalmente, por cerca de meia dúzia de romances e uma peça de teatro, e
foi premiado não só pela OLP como pelo Estado de Israel: recebeu o Israel Prize,
tendo sido até hoje a única vez que foi outorgado a um palestiniano. Aliás, o
facto de lhe ter sido concedido este prémio, e de o autor o ter aceite, foi
fortemente criticado tanto por palestinianos como por israelitas (na altura,
Emile Habibi argumentou, em defesa da sua posição, que a concessão deste prémio
poderia ser uma forma de aproximar os dois povos e, em resposta a estas
críticas, resolveu oferecer a verba pecuniária a instituições que apoiavam as
crianças vitimas da Intifada).
A conjuntura social e política que vivia
o seu povo, levou-o a considerar que era inevitável, para a sua sobrevivência,
a luta política e, por isso não admira que a sua obra literária se centre na
defesa da sua causa.
A sua obra caracteriza-se pela
utilização sistemática da sátira e da ironia. Segundo os especialistas, este
humor negro desabrochou no autor em consequência da Guerra dos Seis Dias, e da
aparatosa (e humilhante) derrota árabe, e tornou-se uma forma de afrontar e
procurar dar algum sentido ao desespero palestiniano. De facto, a sua obra debruça-se
sobre o quotidiano contraditório e absurdo da população palestiniana, tanto a
que permaneceu no território israelita como a que se refugiou nos países
limítrofes. Mas, para além deste aspecto, vai também procurar realçar, através
da literatura, a identidade cultural palestiniana, para que este povo, numa
fase particularmente esgarçada e destroçada da sua história, reforce a sua
autonomia como nação (recorde-se que alguns dirigentes israelitas, marcadamente
sionistas, defendiam que os palestinianos não tinham identidade, pois não tinham
uma cultura nem uma literatura própria, e que a Guerra do Seis Dias era uma
definitiva derrota da sua causa como nação, pois que eliminara a hipótese de eles
construírem um património identitário).
Os livros de Emile Habibi que é
habitual destacar (apresenta-se os títulos em inglês) são a colectânea de contos “The Sextet of Six Days” e os romances
“The Strange Circumstances Surrouding the Disappearance of Sa’id Abu’l-Nahs,
the Pessoptimist”, “Shame” e “Daughter of the Ghoul” (que em França foi
intitulado “Soraya, fille de l’ogre”).
Mas, nem que seja pelo sucesso
mundial que obteve, a obra que é a maior referência, no conjunto da produção
literária deste autor, é “The Strange Circumstances Surrouding the
Disappearance of Sa’id Abu’l-Nahs, the Pessoptimist”. E esse sucesso foi tal
que, como sucede muitas vezes, obliterou os restantes títulos, ao ponto de,
para o comum dos leitores, parecer que Emile Habibi é o autor de um único livro.
“The Pessoptimist”, como é
habitualmente referenciado, é um romance epistolar de um palestiniano que
escreve a um professor israelita, e onde se vai aludindo, através da história
reinventada, com um humor sardónico e surrealizante, do próprio narrador, a
história recente do seu povo, e como, ao longo do tempo, este vai variando
entre os sentimentos de não existir (de desaparecer), que procura impor quem o
oprime, e o de ser maior e superior ao opressor, porque, apesar das
perseguições e do repúdio, consegue sobreviver e amar (as três partes em que se
divide a obra têm o nome de diferentes mulheres por quem o narrador se apaixona
e que, de certo modo, corporizam o desejo de reconhecimento e felicidade que o
povo palestiniano procura).
Existem obras de Emile Habibi
traduzidas para inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. Em Portugal, “The
Pessoptimist” foi traduzido (provavelmente a partir do francês) por António
Belmiro Guimarães, e publicado pela Ed. Caminho, com o título “As Estranhas
Circunstâncias do Desaparecimento de Saíd Abu Nahs, o Optissimista”.
Maio de 2020
Desconheço a autoria da foto do
escritor.



