OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
18ª Vinheta
KATEB YACINE
À Teresa Meneses
Kateb Yacine (1929-1989) é um
escritor argelino que integra a geração que começou a publicar na década de
cinquenta e que é coeva (e, de certo modo, vítima) da guerra de independência
da Argélia (esta geração, toda ela francófona, tem, como principais autores, as
figuras de Mohammed Dib, Mouloud Feraoun, Mouloud Mammeri, Malek Haddad e Assia
Djebar). Romancista, poeta e dramaturgo, é considerado por unanimidade um dos
“fundadores” da literatura argelina, em particular devido ao papel determinante
que teve para esta literatura o romance “Nedjma”, publicado pela primeira vez
em 1956.
Pertencendo a uma tribo berbere, o
autor, ainda no liceu, participa nas primeiras manifestações anti-colonialistas
de Sétif (cidade onde estudava) de 1945 que deram origem a um brutal repressão que
massacrou milhares de argelinos, na sua maioria camponeses. Expulso do liceu,
preso durante alguns meses, Kateb Yacine assumiu, em resultado destes
acontecimentos, a causa nacionalista e anti-colonial. Depois da prisão, publica
o seu primeiro livro de poemas e começa a trabalhar num romance (depois de se
ter apaixonado por uma prima, já casada, que o irá inspirar para a personagem
central da obra que está a conceber), faz as primeiras viagens a Paris, onde dá
algumas conferências sobre temas nacionalistas e se inscreve no Partido
Comunista Argelino, e, no regresso, começa a trabalhar como repórter num jornal
argelino.
Após a morte do pai, resolve
regressar a Paris, onde reside durante a década de cinquenta, vivendo com
grandes dificuldades e de trabalhos ocasionais. Mas é nesta época que conclui e
publica o seu primeiro romance (o já referido “Nedjma”) e se aproxima daquela
que será a sua maior paixão artística (para além da poesia e da narrativa) e a
que se dedicará grande parte da sua vida: o teatro.
Logo após a independência, Kateb
Yacine decide regressar a Argélia. Mas, desiludido com a evolução política do
seu país, abandona-o, estabelecendo-se em diversos países europeus até 1970,
ano em que regressa em definitivo e toma duas decisões importantes para o seu
futuro artístico: abandonar o francês como veículo de criação literária e
dedicar-se em exclusivo ao teatro e a encenar, com um grupo teatral, o Théâtre
de la Mer, que o acompanha, as peças que redige em árabe argelino, acessível às
populações, e que monta, por vezes com poucos adereços cénicos, em fábricas e nas
aldeias. Paralelamente, as suas posições políticas e culturais, expressas em
entrevistas, artigos e ensaios, cada vez mais afrontam os poderes
estabelecidos: defende um estado laico, combate a total islamização da vida
social, tanto ao nível da língua (ele rejeita o árabe vulgar como língua
oficial e preconiza o reconhecimento dos árabes dialectais e da língua berbere)
como dos costumes, apoia a igualdade de género e a libertação da mulher do seu
estatuto de subserviência, repudia o excesso de burocratização do Estado em
favor de uma maior autonomia das diversas comunidades, etc, etc. E, por isso,
ao mesmo tempo que é mitificado como criador literário, começa a ser repudiado
por uma significativa parte da classe dominante que considera Kateb Yacine uma
figura incómoda e excessivamente contestaria (ao ponto de, aquando da sua morte
por doença, demasiado precoce, no estrangeiro, existirem figuras influentes
argelinas que recusam publicamente a ideia de que ele seja sepultado no seu
país…). E compreende-se assim melhor porque, em vida, Kateb Yacine tenha
recebido maiores reconhecimentos por parte do país colonizador do que da sua
terra natal…
Para trás, ficaram, antes da sua
dedicação em exclusivo ao teatro, uma colectânea de poemas e dois romances
(“Nedjma” e “Le Polygone étoilé”), pois desde que Kateb Yacine decidiu apenas
escrever em árabe argelino, desistiu deste género literário.
Indiscutivelmente, “Nedjma” é o mais marcante
contributo literário de Kateb Yacine no domínio do romance. À primeira leitura,
a trama é muito simples: quatro jovens argelinos, apaixonados e seduzidos por
uma mulher, Nedjma, filha de uma argelina e de um francês, percebem que a sua
paixão é impossível, pois ela é casada, e, por isso mesmo, “silenciada” e
inacessível, confinando os seus sentimentos à contemplação do “esplendor” dessa
figura feminina. Em complemento, constata-se, pelo deambular destas
personagens, e pelas distintas situações em que são confrontados, como se
sentem profundamente desenraizados, perdidos entre uma existência urbana sem
futuro, sufocada pela violência colonial e pela exploração económica, e o modo
de vida das suas famílias e tribos, ancorada numa tradição cultural e religiosa
centenária, que já não consegue corresponder aos seus anseios e necessidades.
A relevância desta obra deriva, por
isso, não só do sentido simbólico de todas as personagens e situações
representadas, mas também do caracter inovador e experimental da sua estrutura
formal (a narrativa é sempre fragmentária, diluindo-se os nexos temporais e
espaciais), pela forma peculiar como trata a língua francesa, adaptando-a a
realidade sociocultural argelina e subvertendo o seu estatuto de língua de país
colonizador e, por último, pela dimensão lírica, resultante de uma visão
apaixonada e empenhada em entender a humanidade e o seu necessário futuro, que
contamina todo o discurso.
“Nedjma” foi traduzido para
português, na década de oitenta, por Teresa Meneses (recentemente falecida) e
António Gonçalves, e publicado pela ed. Tricontinetal (editora que desconheço e
de que nada sei sobre a sua origem e destino). Não consegui ler esta tradução.
Mas posso, no entanto, assegurar que os tradutores (que considero ainda meus
amigos, mesmo que não nos tenhamos encontrado desde há muitos e longos anos)
são pessoas de elevada competência e idoneidade.
Desconheço a autoria da foto do
escritor.
Julho de 2020



