terça-feira, 28 de julho de 2020

KATEB YACINE

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES


18ª Vinheta


KATEB YACINE

 

À Teresa Meneses

Kateb Yacine (1929-1989) é um escritor argelino que integra a geração que começou a publicar na década de cinquenta e que é coeva (e, de certo modo, vítima) da guerra de independência da Argélia (esta geração, toda ela francófona, tem, como principais autores, as figuras de Mohammed Dib, Mouloud Feraoun, Mouloud Mammeri, Malek Haddad e Assia Djebar). Romancista, poeta e dramaturgo, é considerado por unanimidade um dos “fundadores” da literatura argelina, em particular devido ao papel determinante que teve para esta literatura o romance “Nedjma”, publicado pela primeira vez em 1956.

Pertencendo a uma tribo berbere, o autor, ainda no liceu, participa nas primeiras manifestações anti-colonialistas de Sétif (cidade onde estudava) de 1945 que deram origem a um brutal repressão que massacrou milhares de argelinos, na sua maioria camponeses. Expulso do liceu, preso durante alguns meses, Kateb Yacine assumiu, em resultado destes acontecimentos, a causa nacionalista e anti-colonial. Depois da prisão, publica o seu primeiro livro de poemas e começa a trabalhar num romance (depois de se ter apaixonado por uma prima, já casada, que o irá inspirar para a personagem central da obra que está a conceber), faz as primeiras viagens a Paris, onde dá algumas conferências sobre temas nacionalistas e se inscreve no Partido Comunista Argelino, e, no regresso, começa a trabalhar como repórter num jornal argelino.

Após a morte do pai, resolve regressar a Paris, onde reside durante a década de cinquenta, vivendo com grandes dificuldades e de trabalhos ocasionais. Mas é nesta época que conclui e publica o seu primeiro romance (o já referido “Nedjma”) e se aproxima daquela que será a sua maior paixão artística (para além da poesia e da narrativa) e a que se dedicará grande parte da sua vida: o teatro.

Logo após a independência, Kateb Yacine decide regressar a Argélia. Mas, desiludido com a evolução política do seu país, abandona-o, estabelecendo-se em diversos países europeus até 1970, ano em que regressa em definitivo e toma duas decisões importantes para o seu futuro artístico: abandonar o francês como veículo de criação literária e dedicar-se em exclusivo ao teatro e a encenar, com um grupo teatral, o Théâtre de la Mer, que o acompanha, as peças que redige em árabe argelino, acessível às populações, e que monta, por vezes com poucos adereços cénicos, em fábricas e nas aldeias. Paralelamente, as suas posições políticas e culturais, expressas em entrevistas, artigos e ensaios, cada vez mais afrontam os poderes estabelecidos: defende um estado laico, combate a total islamização da vida social, tanto ao nível da língua (ele rejeita o árabe vulgar como língua oficial e preconiza o reconhecimento dos árabes dialectais e da língua berbere) como dos costumes, apoia a igualdade de género e a libertação da mulher do seu estatuto de subserviência, repudia o excesso de burocratização do Estado em favor de uma maior autonomia das diversas comunidades, etc, etc. E, por isso, ao mesmo tempo que é mitificado como criador literário, começa a ser repudiado por uma significativa parte da classe dominante que considera Kateb Yacine uma figura incómoda e excessivamente contestaria (ao ponto de, aquando da sua morte por doença, demasiado precoce, no estrangeiro, existirem figuras influentes argelinas que recusam publicamente a ideia de que ele seja sepultado no seu país…). E compreende-se assim melhor porque, em vida, Kateb Yacine tenha recebido maiores reconhecimentos por parte do país colonizador do que da sua terra natal…

Para trás, ficaram, antes da sua dedicação em exclusivo ao teatro, uma colectânea de poemas e dois romances (“Nedjma” e “Le Polygone étoilé”), pois desde que Kateb Yacine decidiu apenas escrever em árabe argelino, desistiu deste género literário.

Indiscutivelmente, “Nedjma” é o mais marcante contributo literário de Kateb Yacine no domínio do romance. À primeira leitura, a trama é muito simples: quatro jovens argelinos, apaixonados e seduzidos por uma mulher, Nedjma, filha de uma argelina e de um francês, percebem que a sua paixão é impossível, pois ela é casada, e, por isso mesmo, “silenciada” e inacessível, confinando os seus sentimentos à contemplação do “esplendor” dessa figura feminina. Em complemento, constata-se, pelo deambular destas personagens, e pelas distintas situações em que são confrontados, como se sentem profundamente desenraizados, perdidos entre uma existência urbana sem futuro, sufocada pela violência colonial e pela exploração económica, e o modo de vida das suas famílias e tribos, ancorada numa tradição cultural e religiosa centenária, que já não consegue corresponder aos seus anseios e necessidades.

A relevância desta obra deriva, por isso, não só do sentido simbólico de todas as personagens e situações representadas, mas também do caracter inovador e experimental da sua estrutura formal (a narrativa é sempre fragmentária, diluindo-se os nexos temporais e espaciais), pela forma peculiar como trata a língua francesa, adaptando-a a realidade sociocultural argelina e subvertendo o seu estatuto de língua de país colonizador e, por último, pela dimensão lírica, resultante de uma visão apaixonada e empenhada em entender a humanidade e o seu necessário futuro, que contamina todo o discurso.

“Nedjma” foi traduzido para português, na década de oitenta, por Teresa Meneses (recentemente falecida) e António Gonçalves, e publicado pela ed. Tricontinetal (editora que desconheço e de que nada sei sobre a sua origem e destino). Não consegui ler esta tradução. Mas posso, no entanto, assegurar que os tradutores (que considero ainda meus amigos, mesmo que não nos tenhamos encontrado desde há muitos e longos anos) são pessoas de elevada competência e idoneidade.

 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

 

Julho de 2020



sábado, 18 de julho de 2020

ANGEL WAGENSTEIN

OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

 

17ª Vinheta



ANGEL WAGENSTEIN

 

Angel Wagentein (1922-) é um escritor búlgaro, nascido numa família judia sefardita. Por razões políticas, a sua família exilou-se em Paris; mas o autor, ainda adolescente, regressou à Bulgária, onde se envolveu na resistência anti-nazi, tendo sido preso por várias vezes e, por fim, condenado à morte em 1944. Por sorte (?), a sua prisão foi bombardeada, num dos primeiros raids aéreos sobre Sofia, e a sua execução adiada, até que a cidade foi liberta pelo Exército Vermelho.

Foi então para Moscovo, onde se formou em cinema, em particular em guionismo, trabalho que exerceu quase toda a sua vida, escrevendo dezenas de guiões, primeiro na Rússia, depois no seu país natal e também na ex-RDA. Nos finais dos anos cinquenta, um filme de Konrad Wolf, com guião seu, obteve o Prémio Especial do Júri do Festival de Cannes.

Só nos anos noventa, já com mais de setenta anos, após a quebra significativa da produção cinematográfica na Bulgária, é que Angel Wagenstein decidiu dedicar-se à escrita de romances, tendo redigido um tríptico: Петокнижие Исааково” (“Isaac’s Tora”, na versão inglesa, “Le Pentateuque ou les cinq livres d’Isaac”, na versão francesa), 1998, “Далеч от Толедо” (“Abraham le Poivrot, na versão francesa; ”Lejos de Toledo”, na versão espanhola), 2002, e „Сбогом, Шанхай” (“Farewell, Shangai”, na versão inglesa; “Adieu Shangai”, na versão francesa), 2004. Com esta obra obteve vários prémios literários e distinções, tanto no seu país, como na Europa, e, em particular, em França, onde a sua obra é muito apreciada e respeitada. Hoje, o seu trabalho como escritor assumiu um tal realce que eclipsou em parte a sua actividade no domínio cinematográfico.

Todos estes três romances, utilizando técnicas narrativas distintas e com uma total autonomia entre si, procuram atingir o mesmo objetivo: narrar a história do povo judeu, em particular o sefardita, ao longo do séc. XX, efetuando, no entanto, incursões a períodos anteriores, como se estes fossem lastros históricos e culturais que permitissem compreender o seu comportamento no presente. O resultado é uma trilogia que, segundo a maioria dos críticos, apresenta uma das visões mais originais e peculiares sobre a história desse povo.

Há uma intenção clara, no conjunto desta narrativa, de assinalar as facetas verdadeiramente absurdas dessa história e como elas se tornam irrelevantes, e até hilariantes, perante o destino inexorável da morte. Semelhante postura, não só interroga frontalmente uma cultura ancestral e os dogmas teológicos de uma religião, como o inevitável humor, decorrente do olhar do autor perante as situações narradas, mais do que satirizar, procura compreender a frágil, mas resiliente, forma de estar de um povo perante o Mal.

“Farewell, Shangai”, o último romance de Angel Wagenstein, centra a sua narrativa numa situação histórica concreta e pouco conhecida: nos anos trinta, a cidade de Xangai abriu-se à imigração judia, e durante toda a II Guerra Mundial, foi-se constituindo um gueto (calcula-se com cerca de trinta mil pessoas), com judeus oriundos principalmente da Alemanha e da Áustria, que fugiram da Europa, com o fito de, nesta longínqua cidade, puderem, com mais serenidade, reconstruir as suas vidas. Angel Wagenstein, utilizando e interligando os modelos da literatura de género, coloca em cena uma miríade de personagens que entrecruzam situações de paixão, traição e luta pelo poder nesta cidade, já de si romanesca pela vivência de comunidades confluentes de várias potências, e que era, por isso mesmo, perigosa, cosmopolita e rica. A ironia, que subjaz a todo o romance, é que se sabe como tudo terminou: a esperança e o sonho foram de novo esmagados pela perseguição, destruição e morte. Saliente-se, por último, que segundo as palavras do próprio autor, esta sua obra é “a mais cinematográfica”, provavelmente por ser a mais próxima dos modelos clássicos da narrativa.

O segundo título, ”Lejos de Toledo” (utilizo o título espanhol, visto que é a versão mais próxima do original), é o que mais diretamente se refere à história pessoal do autor e dos seus antepassados. O narrador é um velho especialista na história de Bizâncio, que regressa à sua terra natal búlgara, numa fase posterior ao fim do regime comunista e que aí encontra não só um antigo amor de adolescência, mas também o arquivo de um velho fotógrafo, onde está registado a história do seu povo nas últimas décadas. Com esta base, o historiador vai recriando, a partir dos seus antepassados, o percurso dos sefarditas, desde que foram expulsos de Espanha, passando pela Revolução Francesa, até se fixarem no Leste da Europa, e os diversos pogrons e perseguições que sofreram, as suas desesperadas tentativas de conseguirem ter um quotidiano normal e aceite pelos “vizinhos” e a sua decadência como comunidade autónoma. O registo narrativo assenta, mais uma vez, no humor, que procura realçar o absurdo das situações descritas e também a ambivalência das personagens entre os valores da religião que herdaram e a sua integração social, mas, neste caso, tingido de uma tonalidade acentuadamente nostálgica.   

Mas, sem sombra de dúvidas, a obra-prima de Angel Wagenstein é o seu primeiro romance, “Isaac’s Tora”, cujo longo subtítulo, “Concerning the Life of Isaac Jacob Blumenfeld Through Two World Wars, Three Concentration Camps and Five Motherlands”, permite já dar uma ideia da sua trama. O livro relata o destino do seu narrador, Isaac Blumenfeld, um simples alfaiate judeu da Galícia, que tem como único desejo de vida o de continuar a seguir os passos dos seus antepassados, sofrendo, mais do que crendo, o seu destino de judeu. Porém, é sobre ele que cai, como uma praga, sem abandonar a sua aldeia, todo o percurso mirabolante que o subtítulo descreve. Nesta situação está a extrema ironia da obra e o absurdo que a estrutura. Horrível absurdo esse que, em grande parte, foi comum a toda a comunidade judaica da Europa Oriental (a mesma que já tinha sido retratada por Sholom Alecheim, Shmuel Yosef Agnon e Isaac Bashevis Singer, escritores a quem Angel Wagenstein muito deve): a de ser consumida nos crematórios nazis e desvanecer-se no fumo que sai das suas chaminés.

A grande peculiaridade deste romance, é que resolve encarar a tragédia deste percurso com as armas do humor tradicional judeu, coligindo inúmeras histórias pícaras que os judeus contam sobre si, ao mesmo tempo que procura perceber como a sabedoria hassídica ajudou esta comunidade a enfrentar os atrozes desígnios de Deus… ou a Sua distracção. Essa ironia realça-se principalmente nos diálogos ininterruptos que o narrador tem com o seu maior amigo, Shmuel Bendavid, um Rabino que é ao mesmo presidente do Clube dos Ateus (?), e que foi empurrado para estas funções pela sua própria comunidade para que, com os seus conhecimentos e sensatez, a oriente e conduza nas “areias movediças” dos tempos sinistros que estão a atravessar.

Por último, deve salientar-se que a ironia que tinge toda esta obra não é um mero exercício estilístico, mas que reflecte a própria forma de estar com que o povo judeu procurou sobreviver, e que a sua utilização narrativa é um manifesto sinal de compreensão e afecto para com uma comunidade que se desvaneceu no tempo, mas que era composta por homens concretos e reais que o romance procura descrever a existência de uma forma detalhada e objectiva. Não há, e esse é um dos grandes méritos desta obra de Angel Wagenstein, nenhum estereótipo nem nenhum escamoteamento da brutalidade do destino que caiu sobre esta comunidade. E é por isso mesmo que a ironia se revela um eficaz instrumento de denúncia de todo e qualquer pensamento (e da correspondente acção política) que necessita de criar bodes expiatórios, sem rosto e informes, para atingir os seus desumanos desígnios.

Os três romances de Angel Wagenstein estão todos traduzidos para francês, espanhol e italiano. Para inglês e alemão estão apenas dois. 

Desconheço a autoria da foto do escritor.

Julho de 2020