OUTRAS
LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
17ª Vinheta
ANGEL WAGENSTEIN
Angel Wagentein (1922-) é um escritor
búlgaro, nascido numa família judia sefardita. Por razões políticas, a sua
família exilou-se em Paris; mas o autor, ainda adolescente, regressou à
Bulgária, onde se envolveu na resistência anti-nazi, tendo sido preso por
várias vezes e, por fim, condenado à morte em 1944. Por sorte (?), a sua prisão
foi bombardeada, num dos primeiros raids aéreos sobre Sofia, e a sua execução
adiada, até que a cidade foi liberta pelo Exército Vermelho.
Foi então para Moscovo, onde se
formou em cinema, em particular em guionismo, trabalho que exerceu quase toda a
sua vida, escrevendo dezenas de guiões, primeiro na Rússia, depois no seu país
natal e também na ex-RDA. Nos finais dos anos cinquenta, um filme de Konrad
Wolf, com guião seu, obteve o Prémio Especial do Júri do Festival de Cannes.
Só nos anos noventa, já com mais de
setenta anos, após a quebra significativa da produção cinematográfica na
Bulgária, é que Angel Wagenstein decidiu dedicar-se à escrita de romances,
tendo redigido um tríptico: Петокнижие Исааково” (“Isaac’s Tora”, na versão inglesa, “Le
Pentateuque ou les cinq livres d’Isaac”, na versão francesa), 1998, “Далеч от Толедо” (“Abraham le Poivrot, na versão francesa; ”Lejos de
Toledo”, na versão espanhola), 2002, e „Сбогом, Шанхай” (“Farewell, Shangai”, na
versão inglesa; “Adieu Shangai”, na versão francesa), 2004. Com esta obra
obteve vários prémios literários e distinções, tanto no seu país, como na
Europa, e, em particular, em França, onde a sua obra é muito apreciada e
respeitada. Hoje, o seu trabalho como escritor assumiu um tal realce que eclipsou
em parte a sua actividade no domínio cinematográfico.
Todos estes três romances,
utilizando técnicas narrativas distintas e com uma total autonomia entre si,
procuram atingir o mesmo objetivo: narrar a história do povo judeu, em
particular o sefardita, ao longo do séc. XX, efetuando, no entanto, incursões a
períodos anteriores, como se estes fossem lastros históricos e culturais que
permitissem compreender o seu comportamento no presente. O resultado é uma trilogia
que, segundo a maioria dos críticos, apresenta uma das visões mais originais e
peculiares sobre a história desse povo.
Há uma intenção clara, no
conjunto desta narrativa, de assinalar as facetas verdadeiramente absurdas
dessa história e como elas se tornam irrelevantes, e até hilariantes, perante o
destino inexorável da morte. Semelhante postura, não só interroga frontalmente
uma cultura ancestral e os dogmas teológicos de uma religião, como o inevitável
humor, decorrente do olhar do autor perante as situações narradas, mais do que
satirizar, procura compreender a frágil, mas resiliente, forma de estar de um
povo perante o Mal.
“Farewell, Shangai”, o
último romance de Angel Wagenstein, centra a sua narrativa numa situação
histórica concreta e pouco conhecida: nos anos trinta, a cidade de Xangai
abriu-se à imigração judia, e durante toda a II Guerra Mundial, foi-se
constituindo um gueto (calcula-se com cerca de trinta mil pessoas), com judeus oriundos
principalmente da Alemanha e da Áustria, que fugiram da Europa, com o fito de,
nesta longínqua cidade, puderem, com mais serenidade, reconstruir as suas vidas.
Angel Wagenstein, utilizando e interligando os modelos da literatura de género,
coloca em cena uma miríade de personagens que entrecruzam situações de paixão,
traição e luta pelo poder nesta cidade, já de si romanesca pela vivência de
comunidades confluentes de várias potências, e que era, por isso mesmo, perigosa,
cosmopolita e rica. A ironia, que subjaz a todo o romance, é que se sabe como
tudo terminou: a esperança e o sonho foram de novo esmagados pela perseguição, destruição
e morte. Saliente-se, por último, que segundo as palavras do próprio autor,
esta sua obra é “a mais cinematográfica”, provavelmente por ser a mais próxima
dos modelos clássicos da narrativa.
O segundo título, ”Lejos de
Toledo” (utilizo o título espanhol, visto que é a versão mais próxima do
original), é o que mais diretamente se refere à história pessoal do autor e dos
seus antepassados. O narrador é um velho especialista na história de Bizâncio,
que regressa à sua terra natal búlgara, numa fase posterior ao fim do regime
comunista e que aí encontra não só um antigo amor de adolescência, mas também o
arquivo de um velho fotógrafo, onde está registado a história do seu povo nas
últimas décadas. Com esta base, o historiador vai recriando, a partir dos seus
antepassados, o percurso dos sefarditas, desde que foram expulsos de Espanha,
passando pela Revolução Francesa, até se fixarem no Leste da Europa, e os
diversos pogrons e perseguições que sofreram, as suas desesperadas tentativas
de conseguirem ter um quotidiano normal e aceite pelos “vizinhos” e a sua
decadência como comunidade autónoma. O registo narrativo assenta, mais uma vez,
no humor, que procura realçar o absurdo das situações descritas e também a
ambivalência das personagens entre os valores da religião que herdaram e a sua
integração social, mas, neste caso, tingido de uma tonalidade acentuadamente
nostálgica.


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