OUTRAS
LITERATURAS, ALGUNS AUTORES
16ª Vinheta
ARTO PAASILINNA
Arto Paasilinna (1942-2018) é seguramente
o escritor finlandês mais conhecido em todo o mundo, tendo a sua obra atingido
esse pico de popularidade (e de vendas) nas duas últimas décadas do séc. XX. De
facto, mesmo sendo um “campeão” de vendas no seu país, foi no exterior da
Finlândia que ela granjeou a sua projecção, principalmente em França, onde é
muito apreciada e respeitada.
Nascido na Lapónia, de uma família
pobre e muito numerosa, Arto Paasilinna foi obrigado na sua infância, em
consequência das guerras soviético-finlandesas, a sucessivas deslocações pelo
norte da Finlândia. Tendo o pai morrido ainda o escritor era uma criança, o
escritor teve uma formação quase apenas autodidacta e, por lhe terem
reconhecido capacidades redactoriais, ainda muito novo começou a trabalhar nos
jornais, onde se manteve durante uma década. Depois de publicar o seu primeiro
romance em 1973, decidiu dedicar-se em exclusivo à actividade de romancista. Com
o seu terceiro romance publicado, em 1975, cujo título, em inglês, é “The Year
of the Hare” e, em francês, “La Lièvre de Vatanen”, obtém um enorme sucesso,
tanto no seu país como no estrangeiro (ainda hoje é o livro mais famoso do
autor), o que lhe garante definitivamente a sua vida como escritor. A partir
dessa altura, e até 2009, ano em que teve um acidente vascular cerebral,
publicou todos os anos um novo romance. O conjunto da sua obra ascende, por
isso, a mais de uma trintena de romances, e ainda a várias colectâneas de
contos e obras de temática diversa.
Porém, se a sua obra foi um
inquestionável sucesso de público e de leitores, já não se pode afirmar que a
crítica tenha sido tão unanime e consensual na defesa das suas qualidades
literárias.
Creio, antes do mais, porque Arto
Paasilinna é encarado como um humorista e que a sua obra, por vezes, carrega em
excesso na componente caricatural das suas personagens. Este elemento
estratégico da narrativa é tão acentuado, em detrimento de todos os outros, que
provoca no leitor a ideia de que Arto Paasilinna é apenas um autor cómico. Em
segundo lugar, porque a maior parte das suas obras realça, no essencial, um único
tema: as incapacidades de um homem de classe média, urbano, em (sobre)viver. Inadaptadas,
insatisfeitas com as imposições da sociedade de consumo, as personagens de Arto
Paasilinna estão em constante “fuga”: ou se suicidam, ou deambulam perdidas e
sem sentido, ou, por fim, escapam-se para o meio rural, em particular para a
floresta finlandesa. Por isso, grande parte das tramas destes romances
caracterizam-se por este “on the road”, tornando-se a viagem, e as peripécias
consequentes, um elemento determinante. Em contraste, o mundo rural é
apresentado como rude, por vezes com tónicas absurdas e quase irrealistas, mas
onde as relações, mesmo sendo por vezes desconfiadas e hostis, se tornam
gradualmente de uma grnuína franqueza e mais adequadas às necessidades
existenciais de comunicação. Em terceiro lugar, porque as suas personagens
aparecem com características muito semelhantes de livro para livro: os homens
são sempre rudes e inadaptados e as mulheres seres egoístas, manipuladores, mas
também muito inconsequentes.
Porém, deve ser realçada, como
componente positiva, a diversificada crítica social, tocando um amplo conjunto
de problemas comuns às actuais sociedades urbanas. Por outro lado, é também de
destacar a relevância dada à floresta finlandesa como elemento interagente com
as personagens, particularmente bem descrita e viva. Aliás, há uma componente
muito relevante de fábula nos romances de Arto Paasilinna, onde, muitas vezes,
os animais falam e se relacionam com os humanos. Em terceiro lugar, mesmo sendo
o humor a tonalidade narrativa mais relevante na sua obra, há, inúmeras vezes,
um “olhar” enternecido e condoído sobre as inadaptações das personagens. Por
último, e provavelmente a mais relevante, há indiscutivelmente uma enorme
capacidade criativa em Arto Paasilinna na elaboração de tramas e na arquitectura
das situações narradas, atingindo uma dimensão surrealizante e absurda. É esta
capacidade, associada a uma inquestionável fluidez narrativa, que tornam as
suas obras acentuadamente agradáveis de leitura e justificam o seu sucesso.
No conjunto da sua obra, parece-me ser de destacar os
seguintes romances: “Paratiisisaaren
vangit” (na versão francesa, “Prisioners de l’île paradisiaque”), 1974, o já referido “Jäniksen vuosi” (na versão inglesa, “The Year of the Hare” e, em francês,
“La Lièvre de Vatanen”), 1975, “Ulvova mylläri” (na versão inglesa, “ The Howling Miller”, na versão francesa,
“Le Meunier hurlant”), 1981, “Hirtettyjen kettujen metsä” (na
versão francesa, “La
Fôret des renards pendus”), 1983, “Hurmaava joukkoitsemurha” (na versão francesa, “Petits suicides entre amis”), 1990,
e, por último, para evidenciar alguma obra da fase final da produção narrativa
de Arto Paasilinna, “Kymmenen
riivinrautaa” (na versão francesa, “Les Dix Femmes de l'industriel
Rauno Rämekorpi”), 2001.
Das obras referidas, provavelmente a mais equilibrada
e significativa seja “Ulvova
mylläri” (na versão inglesa, “ The Howling Miller”, na versão francesa, “Le
Meunier hurlant”). O romance, ocorrendo nos anos imediatos ao fim da II Guerra
Mundial, quando a personagem principal, Gunnar Huttunen, depois de abandonar o exército, após a guerra da Lapónia, aparece numa
aldeia rural no norte da Finlândia, com o fito de reconstruir um velho moinho.
Hábil e metódico, conseguiu restaura-lo e inicialmente esse sucesso, associado
à sua postura afável e ao facto de ser um animado contador de histórias, fez
com que fosse bem acolhido pelos aldeões e até conseguisse seduzir a
conselheira rural da terra… Só que Gunnar, entre outras pequenas bizarrias
comportamentais, tinha um defeito perturbador: à mais pequena contrariedade,
necessita de ir uivar como um lobo para o meio da floresta, acossando os cães e
incomodando toda a aldeia. É esse defeito que leva os vizinhos a expropriar-lhe
o seu moinho e a propor (e conseguir) que seja internado num hospício
psiquiátrico, o que o obriga a esconder-se na floresta e a iniciar uma
verdadeira “guerra” com os aldeões que, em crescendo, vai assumir contornos
verdadeiramente grotescos e absurdos.
Esta parábola permite a Arto Paasilinna não só efectuar um verdadeiro
libelo contra os comportamentos sociais intolerantes com a diferença, salientar
como é ténue a pelicula que separa a loucura da normalidade e satirizar as
posturas comunitárias que rapidamente se transformam, desde que vagamente
afrontadas nas suas normas, em interesseiras, mesquinhas e corruptas.
A obra de Arto Paasilinna foi amplamente traduzida e editada em
francês, alemão, italiano e espanhol.
No nosso país, editados pela Relógio d’Água, foram publicados os
seguintes romances: “A Lebre de Vatanen” (“Jäniksen
vuosi”), traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e revisto por Frederico
Sequeira; “Um Aprazível Suicídio Em Grupo” (“Hurmaava joukkoitsemurha”),
traduzido por Merja de Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares e revisto por
Frederico Sequeira; e “As Dez Mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi” (“Kymmenen riivinrautaa”), traduzido por Carlos Correia Monteiro de
Oliveira e revisto por Júlia Ferreira e Inês Achega Leitão.
Junho de 2020
Foto do autor de Martii Kainulainen


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