sexta-feira, 19 de junho de 2020

ARTO PAASILINNA


OUTRAS LITERATURAS, ALGUNS AUTORES

16ª Vinheta


ARTO PAASILINNA


Arto Paasilinna (1942-2018) é seguramente o escritor finlandês mais conhecido em todo o mundo, tendo a sua obra atingido esse pico de popularidade (e de vendas) nas duas últimas décadas do séc. XX. De facto, mesmo sendo um “campeão” de vendas no seu país, foi no exterior da Finlândia que ela granjeou a sua projecção, principalmente em França, onde é muito apreciada e respeitada.

Nascido na Lapónia, de uma família pobre e muito numerosa, Arto Paasilinna foi obrigado na sua infância, em consequência das guerras soviético-finlandesas, a sucessivas deslocações pelo norte da Finlândia. Tendo o pai morrido ainda o escritor era uma criança, o escritor teve uma formação quase apenas autodidacta e, por lhe terem reconhecido capacidades redactoriais, ainda muito novo começou a trabalhar nos jornais, onde se manteve durante uma década. Depois de publicar o seu primeiro romance em 1973, decidiu dedicar-se em exclusivo à actividade de romancista. Com o seu terceiro romance publicado, em 1975, cujo título, em inglês, é “The Year of the Hare” e, em francês, “La Lièvre de Vatanen”, obtém um enorme sucesso, tanto no seu país como no estrangeiro (ainda hoje é o livro mais famoso do autor), o que lhe garante definitivamente a sua vida como escritor. A partir dessa altura, e até 2009, ano em que teve um acidente vascular cerebral, publicou todos os anos um novo romance. O conjunto da sua obra ascende, por isso, a mais de uma trintena de romances, e ainda a várias colectâneas de contos e obras de temática diversa.

Porém, se a sua obra foi um inquestionável sucesso de público e de leitores, já não se pode afirmar que a crítica tenha sido tão unanime e consensual na defesa das suas qualidades literárias.

Creio, antes do mais, porque Arto Paasilinna é encarado como um humorista e que a sua obra, por vezes, carrega em excesso na componente caricatural das suas personagens. Este elemento estratégico da narrativa é tão acentuado, em detrimento de todos os outros, que provoca no leitor a ideia de que Arto Paasilinna é apenas um autor cómico. Em segundo lugar, porque a maior parte das suas obras realça, no essencial, um único tema: as incapacidades de um homem de classe média, urbano, em (sobre)viver. Inadaptadas, insatisfeitas com as imposições da sociedade de consumo, as personagens de Arto Paasilinna estão em constante “fuga”: ou se suicidam, ou deambulam perdidas e sem sentido, ou, por fim, escapam-se para o meio rural, em particular para a floresta finlandesa. Por isso, grande parte das tramas destes romances caracterizam-se por este “on the road”, tornando-se a viagem, e as peripécias consequentes, um elemento determinante. Em contraste, o mundo rural é apresentado como rude, por vezes com tónicas absurdas e quase irrealistas, mas onde as relações, mesmo sendo por vezes desconfiadas e hostis, se tornam gradualmente de uma grnuína franqueza e mais adequadas às necessidades existenciais de comunicação. Em terceiro lugar, porque as suas personagens aparecem com características muito semelhantes de livro para livro: os homens são sempre rudes e inadaptados e as mulheres seres egoístas, manipuladores, mas também muito inconsequentes.

Porém, deve ser realçada, como componente positiva, a diversificada crítica social, tocando um amplo conjunto de problemas comuns às actuais sociedades urbanas. Por outro lado, é também de destacar a relevância dada à floresta finlandesa como elemento interagente com as personagens, particularmente bem descrita e viva. Aliás, há uma componente muito relevante de fábula nos romances de Arto Paasilinna, onde, muitas vezes, os animais falam e se relacionam com os humanos. Em terceiro lugar, mesmo sendo o humor a tonalidade narrativa mais relevante na sua obra, há, inúmeras vezes, um “olhar” enternecido e condoído sobre as inadaptações das personagens. Por último, e provavelmente a mais relevante, há indiscutivelmente uma enorme capacidade criativa em Arto Paasilinna na elaboração de tramas e na arquitectura das situações narradas, atingindo uma dimensão surrealizante e absurda. É esta capacidade, associada a uma inquestionável fluidez narrativa, que tornam as suas obras acentuadamente agradáveis de leitura e justificam o seu sucesso.

No conjunto da sua obra, parece-me ser de destacar os seguintes romances: “Paratiisisaaren vangit” (na versão francesa, “Prisioners de l’île paradisiaque”), 1974, o já referido “Jäniksen vuosi” (na versão inglesa, “The Year of the Hare” e, em francês, “La Lièvre de Vatanen”), 1975, “Ulvova mylläri” (na versão inglesa, “ The Howling Miller”, na versão francesa, “Le Meunier hurlant”), 1981, Hirtettyjen kettujen metsä” (na versão francesa, “La Fôret des renards pendus”), 1983, “Hurmaava joukkoitsemurha” (na versão francesa, “Petits suicides entre amis”), 1990, e, por último, para evidenciar alguma obra da fase final da produção narrativa de Arto Paasilinna, “Kymmenen riivinrautaa” (na versão francesa, “Les Dix Femmes de l'industriel Rauno Rämekorpi”), 2001.

Das obras referidas, provavelmente a mais equilibrada e significativa seja “Ulvova mylläri” (na versão inglesa, “ The Howling Miller”, na versão francesa, “Le Meunier hurlant”). O romance, ocorrendo nos anos imediatos ao fim da II Guerra Mundial, quando a personagem principal, Gunnar Huttunen, depois de abandonar o exército, após a guerra da Lapónia, aparece numa aldeia rural no norte da Finlândia, com o fito de reconstruir um velho moinho. Hábil e metódico, conseguiu restaura-lo e inicialmente esse sucesso, associado à sua postura afável e ao facto de ser um animado contador de histórias, fez com que fosse bem acolhido pelos aldeões e até conseguisse seduzir a conselheira rural da terra… Só que Gunnar, entre outras pequenas bizarrias comportamentais, tinha um defeito perturbador: à mais pequena contrariedade, necessita de ir uivar como um lobo para o meio da floresta, acossando os cães e incomodando toda a aldeia. É esse defeito que leva os vizinhos a expropriar-lhe o seu moinho e a propor (e conseguir) que seja internado num hospício psiquiátrico, o que o obriga a esconder-se na floresta e a iniciar uma verdadeira “guerra” com os aldeões que, em crescendo, vai assumir contornos verdadeiramente grotescos e absurdos.

Esta parábola permite a Arto Paasilinna não só efectuar um verdadeiro libelo contra os comportamentos sociais intolerantes com a diferença, salientar como é ténue a pelicula que separa a loucura da normalidade e satirizar as posturas comunitárias que rapidamente se transformam, desde que vagamente afrontadas nas suas normas, em interesseiras, mesquinhas e corruptas.

A obra de Arto Paasilinna foi amplamente traduzida e editada em francês, alemão, italiano e espanhol.

No nosso país, editados pela Relógio d’Água, foram publicados os seguintes romances: “A Lebre de Vatanen” (“Jäniksen vuosi”), traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e revisto por Frederico Sequeira; “Um Aprazível Suicídio Em Grupo” (“Hurmaava joukkoitsemurha”), traduzido por Merja de Mattos-Parreira e Ana Isabel Soares e revisto por Frederico Sequeira; e “As Dez Mulheres do Industrial Rauno Rämekorpi” (“Kymmenen riivinrautaa”), traduzido por Carlos Correia Monteiro de Oliveira e revisto por Júlia Ferreira e Inês Achega Leitão.   

Junho de 2020

Foto do autor de Martii Kainulainen



Sem comentários:

Enviar um comentário