terça-feira, 9 de julho de 2024

CADERNO DE CAPA NEGRA


 

OS POEMAS

 

Entrou, dias há, peçonha

clara pelos nossos portos […]

uns dormentes, outros mortos,

alguém pelas ruas sonha.

Sá de Miranda

 

Encontro-me na margem de uma cidade sitiada

pelos reformadores: decepam as cabeças daqueles santos

que eu sempre venerei,

como aquela nossa senhora do ó de abobada celeste

soprada no ventre, a palma da mão no crânio do feto.

 

Deixo-me sentar sobre a árvore da desolação e afago as chaves

da minha solitária idade, comprimindo os dentes até

o sangue das gengivas me molhar os lábios. E

 

João Kniff, que me pressente sob um carvalho, pergunta-me

pela besta divina com os olhos irradiando chamas.

 

Calo-me. Sei que as armas acabaram, que os dias me reservam

só a espera do último assalto sobre a cidade, o saque

dos vermes sobre o corpo.

 

José Manuel Cortês

Junho de 1973